
Entenda a doença cardíaca citada na morte do fisiculturista Gabriel Ganley
Quando se fala em anabolizantes, a imagem que costuma vir à cabeça é a do ganho acelerado de massa muscular. Braços maiores, pernas mais fortes, recuperação mais rápida dos treinos. Mas há um detalhe que costuma passar despercebido: o coração também é um músculo.
E, assim como os demais músculos do corpo, ele responde aos hormônios que estimulam o crescimento muscular.
Na segunda-feira (25), foi divulgado o laudo que apontou cardiomiopatia hipertrófica como causa da morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos. O documento não estabelece uma relação direta entre a doença e o uso de hormônios, mas especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que os anabolizantes podem provocar alterações estruturais no músculo cardíaco e aumentar o risco de arritmias potencialmente fatais.
“O coração também é um músculo; com os esteroides, ele passa a trabalhar contra uma resistência maior e começa a sofrer hipertrofia. Só que esse crescimento acontece de forma desorganizada”, explica Elzo Mattar, diretor do departamento de hipertensão arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
O problema é que o coração não foi feito para crescer da mesma forma que um bíceps ou um peitoral.
Enquanto o aumento dos músculos esqueléticos costuma ser o objetivo de quem busca essas substâncias, o crescimento exagerado do músculo cardíaco pode comprometer a capacidade do órgão de manter o organismo vivo.
Atestado de óbito aponta que fisiculturista Gabriel Ganley teve morte súbita causada por uma doença no coração
Jornal Nacional/ Reprodução
Parede grossa, menos espaço para o sangue
A cardiomiopatia hipertrófica é caracterizada pelo espessamento das paredes do coração.
Em termos simples, o músculo cardíaco fica mais grosso e ocupa parte do espaço que deveria estar disponível para receber e bombear sangue.
Segundo o cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, isso reduz o tamanho da cavidade interna do ventrículo, dificultando o enchimento adequado do coração.
Uma forma de visualizar o problema é imaginar uma sala cujas paredes começam a avançar para dentro. O espaço útil diminui, mesmo que a estrutura externa continue parecendo a mesma.
“A parede fica mais espessa e a cavidade acaba ficando menor”, resume o especialista.
O resultado é um coração mais rígido, com maior dificuldade para acomodar e impulsionar o sangue, especialmente em momentos de esforço físico.
A doença pode ter origem genética —e, nesse caso, está entre as principais causas de morte súbita em jovens atletas—, mas também pode ser adquirida ou agravada por condições como hipertensão arterial prolongada e exposição a esteroides anabolizantes.
Gabriel Ganley: quem era o fisiculturista e influenciador que morreu aos 22 anos em SP
Reprodução/Redes Sociais
O perigo não está apenas no tamanho do coração
O aumento da musculatura cardíaca é apenas parte do problema.
Segundo Mattar, quando o coração cresce rapidamente, a rede de vasos sanguíneos responsável por irrigar o músculo nem sempre consegue acompanhar essa expansão.
Algumas células passam a receber menos oxigênio, sofrem lesões e acabam morrendo. No lugar delas surgem áreas de fibrose —pequenas cicatrizes permanentes espalhadas pelo músculo cardíaco.
Essas cicatrizes alteram a forma como os impulsos elétricos circulam dentro do coração.
“A fibrose funciona como um substrato para gerar arritmia”, afirma o cardiologista.
Em um coração saudável, os sinais elétricos percorrem um caminho organizado que coordena cada batimento. Quando encontram áreas de tecido cicatricial, podem sofrer bloqueios ou desvios capazes de desencadear ritmos anormais.
É nesse ponto que o risco se torna mais perigoso.
Gabriel Ganley: quem era o fisiculturista e influenciador que morreu aos 22 anos em SP
Reprodução
Uma doença que pode permanecer silenciosa por anos
Embora importantes, alterações importantes no coração nem sempre provocam sintomas imediatos. A pessoa continua treinando, competindo, aumentando cargas e ganhando massa muscular sem perceber que mudanças estruturais estão acontecendo dentro do órgão.
Segundo Katayose, a cardiomiopatia hipertrófica frequentemente permanece assintomática durante anos. Em alguns casos, a primeira manifestação da doença pode ser a morte súbita.
Quando sintomas aparecem, os mais comuns incluem falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura e episódios de desmaio.
Por isso, médicos costumam dar atenção especial a jovens atletas que apresentam síncopes —perdas temporárias de consciência— durante exercícios físicos.
Também é recomendada a investigação de familiares quando há histórico de mortes súbitas em parentes jovens, já que a forma genética da doença pode ser herdada.
Como uma arritmia pode interromper o coração
O mecanismo que leva à morte costuma envolver arritmias ventriculares graves, como a taquicardia ventricular e a fibrilação ventricular.
Nessas situações, o coração deixa de contrair de forma coordenada e perde a capacidade de bombear sangue adequadamente para o cérebro e os demais órgãos.
“O coração perde a função contrátil”, explica Katayose.
Sem circulação eficiente, a pessoa pode perder a consciência em segundos. Se o ritmo cardíaco não for revertido rapidamente, o quadro evolui para parada cardiorrespiratória.
Segundo Mattar, o esforço físico intenso costuma ser um dos gatilhos mais frequentes para esse tipo de evento em pessoas predispostas.
Não existe uma fórmula para prever quem será afetado
Uma das razões pelas quais especialistas demonstram preocupação com a popularização dos anabolizantes é a dificuldade de prever como cada organismo responderá à exposição prolongada.
Genética, pressão arterial, intensidade dos treinos, tempo de uso, doses empregadas e características individuais influenciam o risco.
Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas desenvolvem complicações graves ainda jovens, enquanto outras passam anos utilizando substâncias semelhantes sem apresentar sintomas aparentes.
Mas os cardiologistas alertam que a ausência de sintomas não significa ausência de dano.
O processo pode avançar silenciosamente até que uma arritmia, um infarto ou uma insuficiência cardíaca revelem um problema que vinha se desenvolvendo havia muito tempo.
O risco não se limita à cardiomiopatia
Os efeitos cardiovasculares dos esteroides vão além do crescimento do músculo cardíaco.
Segundo Mattar, essas substâncias podem elevar a pressão arterial, alterar os níveis de colesterol, aumentar a tendência à coagulação do sangue e provocar danos à microcirculação do coração.
Em alguns casos, isso favorece a formação súbita de trombos dentro das artérias coronárias.
“Um usuário pode aparentemente ter uma vida normal e, de uma hora para outra, desenvolver uma trombose coronariana aguda, evoluir para um infarto e sofrer morte súbita”, afirma.
Para os especialistas, esse é um dos principais desafios atuais. O risco costuma ser percebido apenas quando surgem sintomas ou quando um caso de grande repercussão chama atenção para um problema que, muitas vezes, vinha se desenvolvendo longe dos olhos.
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