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A busca pela vida sem incômodos: estamos transformando tristeza, cansaço e envelhecimento em doença?

por Gilberto Cruz
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Dormir oito horas perfeitas. Ter foco todos os dias. Produzir mais. Sentir menos ansiedade. Envelhecer sem parecer envelhecer. Recuperar a energia, a libido, o corpo e até a versão de si mesmo que ficou no passado.
Nunca existiram tantas ferramentas para cuidar da saúde —e muitas delas representam avanços importantes. Medicamentos modernos aliviam sofrimentos antes negligenciados, tratamentos melhoram a qualidade de vida e novas tecnologias ajudam médicos e pacientes a entender melhor o corpo.
Mas, no meio desse progresso, cresce também uma pergunta incômoda: estamos usando a medicina para tratar doenças ou para eliminar partes da vida que sempre foram difíceis de atravessar?
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Sentimentos se confundem
A fronteira nem sempre é clara, e ela nunca foi. Uma tristeza profunda pode ser sinal de depressão. Uma sequência de noites ruins pode ser o início de uma insônia crônica. Mas também existem perdas, frustrações, mudanças hormonais e fases difíceis que fazem parte de qualquer vida —e que não pedem, necessariamente, um diagnóstico.
Para o psiquiatra Almir Tavares, médico do sono pela Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador da Associação Brasileira de Medicina do Sono, o sofrimento psíquico é real e nunca deve ser desconsiderado.
Segundo ele, entretanto, uma tristeza depois de uma perda não é automaticamente um quadro depressivo, assim como um período de preocupação não significa, por si só, um transtorno de ansiedade.
Diferenciar as duas coisas depende de uma avaliação mais ampla: a duração e a intensidade do que a pessoa sente, o impacto na rotina, a história de vida, a presença de sintomas como perda de prazer generalizada ou pensamentos sobre morte. É um processo que, segundo Tavares, exige tempo de escuta —cada vez mais raro em consultas curtas.
A promessa de que sempre dá para melhorar

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Durante muito tempo, a medicina esteve associada à ideia de recuperar algo perdido: tratar uma infecção, controlar uma doença, aliviar uma dor. Para o psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, parte da medicina hoje se dedica a outra tarefa: não apenas reparar o que funciona mal, mas melhorar o que já funciona bem. É a lógica por trás de recursos que vão da cirurgia estética a substâncias usadas para ampliar foco e desempenho.
O problema, segundo Dunker, não está em buscar melhora: está na ideia de que qualquer limite pode e deve ser superado. Quando a saúde vira sinônimo de performance permanente, o corpo precisa estar sempre disposto, a mente sempre equilibrada, a produtividade nunca pode cair.
E experiências comuns começam a ser tratadas como falhas: o envelhecimento deixa de ser uma etapa natural, o descanso passa a soar como perda de tempo, a tristeza vira algo que precisa ser eliminado o quanto antes.
Sentimentos difíceis também têm função

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Para Dunker, há um efeito colateral nessa lógica: tentar eliminar rápido demais um desconforto pode produzir justamente o sintoma que se queria evitar. Segundo ele, viver a tristeza de um luto é necessário —e negar essa tristeza, insistir para que a pessoa “levante a cabeça e siga em frente”, pode transformar um luto normal em uma depressão de fato.
Depressão, reforça o psicanalista, não é sinônimo de tristeza, mas pode nascer justamente da tentativa de suprimi-la.
O mesmo vale para outras emoções tidas como negativas. O tédio pode abrir espaço para criatividade. O cansaço pode ser um aviso de que é hora de parar. Barrar sistematicamente esse tipo de sinal, segundo Dunker, tende a criar uma relação mais difícil —não mais fácil— com os próprios sentimentos.
A era da otimização

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A busca por uma versão sempre melhorada do corpo ganhou reforço da tecnologia. Relógios e anéis inteligentes monitoram sono, batimentos cardíacos e níveis de atividade o tempo todo. Usados como ferramenta pontual, esses recursos ajudam. O problema, segundo os dois especialistas, é quando o número deixa de orientar e passa a comandar.
Na medicina do sono, esse fenômeno já tem nome: ortosonia, a preocupação excessiva em atingir uma noite de sono considerada perfeita. Tavares explica que o sono é, por natureza, imperfeito e varia de uma noite para a outra, conforme rotina, emoções e até a fase da vida.
Despertar com facilidade durante a madrugada, lembra ele, é uma característica normal do organismo humano —não uma falha a ser corrigida. Monitorar em excesso, paradoxalmente, tornou-se fonte de ansiedade para muita gente que só queria dormir melhor.
Entre tratar e aceitar limites
Nenhum dos dois especialistas defende recuar no avanço da medicina. Tavares reforça que pedir ajuda para aliviar uma dor psíquica é um pedido legítimo, e que um antidepressivo ou ansiolítico pode representar um alívio temporário válido —desde que não sirva para adiar indefinidamente o encontro com a causa real do sofrimento.
Para Dunker, aceitar limites não significa abandonar tratamento nem deixar de buscar cuidado. Significa reconhecer que algumas experiências —o cansaço, o luto, o envelhecimento— não são defeitos do corpo ou da mente a serem corrigidos, mas parte esperada de qualquer vida.
O desafio, para os dois, é usar a ciência para reduzir sofrimento real sem transformar toda tristeza, toda pausa e toda imperfeição em algo que precisa, obrigatoriamente, desaparecer.
Quando vale se preocupar
Diante de tanta variação entre o normal e o que exige tratamento, existe um conjunto de sinais que ajuda a apontar o caminho, segundo Tavares. Não é uma régua fechada, mas um roteiro de perguntas que orienta a avaliação médica:
a tristeza ou o cansaço vieram sozinhos ou depois de algo específico? Um luto, uma perda, uma mudança de vida costumam explicar boa parte do desconforto sentido —e, nesses casos, o tempo e o acolhimento tendem a resolver.
Há perda de prazer generalizada? Deixar de sentir vontade nas atividades que antes davam prazer, de forma persistente, é diferente de estar simplesmente cansado ou desanimado num período pontual.
A pessoa consegue manter a rotina básica? Trabalho, cuidados pessoais, convívio social. Quando essas atividades ficam comprometidas de forma prolongada, é sinal de que o quadro passou de um desconforto pontual para algo que pede avaliação.
Existem pensamentos sobre morte ou desejo de desaparecer? Esse é um dos sinais mais claros de que é hora de buscar ajuda especializada, independentemente de qualquer outro critério.
Qual a duração e a intensidade? Um mau humor de alguns dias é diferente de um estado que se arrasta por semanas, se repete com frequência ou vem se intensificando.
Nenhum desses pontos, isoladamente, define um diagnóstico —e é por isso, segundo Tavares, que a avaliação precisa ser feita por um profissional, com tempo de escuta real, e não por um questionário de aplicativo ou uma busca no Google.
Mas eles ajudam a diferenciar dois movimentos que costumam ser confundidos: buscar ajuda porque algo mudou de forma significativa e persistente, ou tentar eliminar, com pressa, um desconforto que a vida sempre trouxe.

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