
‘Olimpíadas dos Esteroides’: a competição onde o doping é permitido
BBC Sport
Na famosa Strip de Las Vegas — uma cidade conhecida por ultrapassar limites na busca por entretenimento e lucro — um dos eventos mais polêmicos da história do esporte está prestes a assumir o centro das atenções.
Com atletas que utilizaram substâncias proibidas para melhorar o desempenho em competições convencionais, a edição inaugural dos Enhanced Games (Jogos Aprimorados, em tradução livre) acontecerá neste final de semana, provocando tanto consternação quanto intriga.
Para muitos críticos, a “Cidade do Pecado” é um local apropriado para o que consideram um espetáculo perturbador, que, segundo eles, normaliza o doping, enfraquece a longa luta contra fraudes no esporte e coloca em risco a saúde dos participantes.
Os responsáveis pelo que está sendo chamado de “Jogos Olímpicos dos Esteroides” insistem que o evento irá recompensar a excelência atlética, celebrar a inovação científica e explorar o potencial humano.
Agora no g1
Mas que forças estão por trás dos Enhanced Games? Isso é um prenúncio do futuro do esporte?
Dinheiro e recordes
Três meses se passaram desde que um grupo de cerca de 40 atletas dos Enhanced Games, representando corrida de velocidade, natação e levantamento de peso, se reuniu em Abu Dhabi para participar com todas as despesas pagas de um campo de treinamento em um resort de luxo com instalações esportivas de última geração.
Atraídos por cachês que a maioria dos atletas só consegue sonhar, juntamente com a perspectiva de um prêmio de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5 milhões) caso superassem o recorde mundial em sua modalidade, o evento era uma oportunidade de estender ou reanimar carreiras esportivas.
E, além disso, havia substâncias proibidas podendo ser usadas.
Em um hospital a cerca de 20 minutos de carro, nos arredores da cidade, os atletas receberam programas personalizados de “protocolos de aprimoramento” — substâncias estritamente proibidas pela Agência Mundial Antidoping (Wada), mas permitidas ali.
Embora os concorrentes ainda não tenham declarado exatamente o que cada um tomou, sabe-se que os medicamentos para melhorar o desempenho (PEDs, na sigla em inglês) administrados incluem testosterona, esteroides anabolizantes (como metenolona e nandrolona), hormônios e fatores de crescimento (incluindo HGH e EPO), moduladores metabólicos e estimulantes.
A BBC não teve acesso ao hospital durante a visita ao campo de treinamento dos Enhanced Games em fevereiro. Mas os organizadores enfatizaram que todas essas substâncias foram aprovadas pela Food and Drug Administration dos EUA (FDA, em inglês — agência americana de saúde pública) e administradas como parte de um ensaio clínico sob rigorosa supervisão médica, com todos os participantes sob monitoramento.
Desde o seu lançamento, no entanto, o projeto tem sido condenado por entidades esportivas e autoridades antidoping.
Diante da repercussão negativa, o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Wada o classificaram como “imoral” e “um conceito perigoso e irresponsável” em uma declaração conjunta no ano passado. Sebastian Coe, presidente da World Athletics, a associação internacional de atletismo, disse que qualquer um que participar do evento é um “idiota”. E a World Aquatics, órgão internacional de esportes aquáticos, tornou-se a primeira entidade reguladora a banir qualquer pessoa envolvida nos Enhanced Games de seus eventos.
Guerra contra o doping
Durante décadas, o esporte travou uma árdua batalha contra o doping, em uma tentativa de preservar a integridade da competição e garantir que quem assiste possa acreditar no que vê.
Agora, eis que surge um evento que, para muitos, viola os princípios tradicionais do jogo limpo. Um evento que, independentemente do que digam os organizadores sobre não haver relação com o esporte convencional, estabelece um mau exemplo e pode levar a um aumento das fraudes em competições tradicionais.
Os responsáveis pelos Enhanced Games têm vários argumentos para defender o conceito:
O sistema existente não recompensa adequadamente os atletas cujos talentos e dedicação fornecem o entretenimento do qual as entidades esportivas dependem para gerar receita. O COI afirma redistribuir 90% de sua receita para o esporte. Ainda assim, todos os atletas dos Enhanced Games com quem a BBC falou em Abu Dhabi disseram que o dinheiro era sua principal motivação e sentiram que foram mal remunerados durante suas carreiras.
A luta contra o doping tem se mostrado inútil, cara e inconsistente, com a estrutura de regras e sanções levando o doping à clandestinidade — onde o uso de substâncias torna a prática ainda mais perigosa para a saúde dos atletas. Os organizadores dos Enhanced Games insistem que uma abordagem baseada na liberdade, escolha e abertura — mas conduzida de forma controlada — é preferível. Poderiam os Enhanced Games abrir um novo debate sobre o antidoping? No ano passado, David Howman, que preside a Unidade de Integridade do Atletismo (AIU, entidade que fornece ajuda a atletas) e anteriormente liderou a Wada, admitiu que o sistema antidoping havia “estagnado”, dizendo que “atualmente não somos eficazes o suficiente para pegar trapaceiros”. Mas isso não significa que o apoio público às regras esteja diminuindo. Pesquisas mostraram que a maioria ainda acredita que proteger o esporte justo é crucial e apoia a proibição para infratores.
Os Enhanced Games irão mostrar uma nova fronteira de autoaperfeiçoamento e do uso da ciência para ultrapassar limites biológicos. Isso seria muito mais do que um evento esportivo. Em março, a empresa responsável pelos Enhanced Games lançou em seu site uma “plataforma de medicina personalizada e suplementos”, promovendo seus “produtos de desempenho e longevidade”, incluindo terapias de reposição hormonal para homens e mulheres, peptídeos e medicamentos para perda de peso.
Novo mercado
“Acredito que os consumidores observarão os resultados tangíveis alcançados pelos atletas do Enhanced Group e procurarão aplicar essas melhorias em suas próprias vidas”, escreveu o investidor de risco alemão Christan Angermayer, que é cofundador e maior acionista da Enhanced e também investidor em uma empresa de biotecnologia psicodélica.
Outros patrocinadores incluem o bilionário da tecnologia Peter Thiel — um empresário libertário que já trabalhou dando conselhos ao presidente americano Donald Trump — e o 1789 Capital, um fundo de investimento do qual Donald Trump Jr, o filho mais velho do presidente americano, é sócio.
“O evento esportivo do Enhanced Group ampliará enormemente o mercado, conscientizando milhões e milhões de pessoas sobre o poder da melhoria de desempenho”, disse Angermayer, em comentários que podem reforçar a visão de que o evento seria uma mera ferramenta de marketing.
“Acredito que estamos apenas no início de uma megatendência global de uma década de aprimoramento humano e biotecnologia de consumo.”
O nadador olímpico britânico Ben Proud diz que os Enhanced Games estão lhe dando “uma nova oportunidade” e não prejudicam o esporte limpo
Getty Images / BBC
Os jogos acontecem em um momento em que surgem preocupações sobre a medicalização da sociedade ocidental, com as mídias sociais e a “looksmaxxing” sendo culpadas por alimentar a demanda por injeções para perda de peso, tratamentos cosméticos e substâncias de desempenho.
De acordo com o UK Antidoping (Ukad, entidade britânica de combate ao doping), um número “preocupante” de jovens está sendo exposto regularmente a anúncios nas redes sociais de substâncias de melhoria de desempenho “potencialmente fatais”.
Nos EUA, o FDA está considerando aliviar as restrições ao uso de injeções de peptídeos depois que o secretário de Saúde (cargo equivalente a ministro), Robert F Kennedy Jr, pressionou pela desregulamentação dessas terapias.
A medida foi bem recebida pela Enhanced, que disse estar “planejando oferecer acesso a peptídeos adicionais”.
Historicamente, tipos sintéticos de peptídeos são injetados por levantadores de peso e fisiculturistas para melhorar o desempenho, mas os críticos alertam que eles podem apresentar uma variedade de problemas de saúde.
A presidente-executiva do Ukad, Jane Rumble, disse à BBC que os Enhanced Games “enviam uma mensagem perigosa sobre PEDs, com pouco ou nada dito sobre os riscos à saúde associados, e esses riscos são significativos”.
O professor Ian Boardley, da Universidade de Birmingham, cuja pesquisa foi apoiada pela Wada, afirma que os competidores enfrentam maior risco de ataques cardíacos e problemas psiquiátricos e que as garantias dos organizadores sobre supervisão médica são “incorretas e enganosas”.
A BBC perguntou ao nadador australiano da Enhanced, James Magnussen, cujo físico visivelmente mais musculoso após uso de PEDs no ano passado viralizou na internet, se ele tinha alguma preocupação.
“Acredito que, se houvesse implicações de longo prazo para minha saúde, certamente haveria alguns indicadores de curto a médio prazo que apontariam ‘ei, isso não vai bem, você está tendo efeitos colaterais’. Até o momento, não vimos nada disso”, disse Magnussen, que ganhou três medalhas olímpicas.
“Como atletas profissionais, já assumimos riscos com nossa saúde naturalmente pelo que fazemos. Não há nada saudável em treinar no limite máximo da capacidade física por 30 horas por semana.”
O australiano James Magnussen abandonou sua aposentadoria para competir nos Enhanced Games
Getty Images / BBC
Alguns acham que o ex-campeão mundial tem razão.
Byron Hyde, pesquisador associado honorário da Universidade de Bangor, diz que os críticos “ignoram o fato de que os Enhanced Games tornam explícito aquilo que a sociedade sempre aceitou silenciosamente — que a maioria das pessoas está disposta a assistir atletas arriscarem danos a si mesmos quando o entretenimento é bom o suficiente.
“Isso é algo que todas as entidades esportivas deveriam considerar mais. Se o trauma cerebral é o preço potencial do entretenimento no boxe, por que a indignação com os riscos do aprimoramento farmacêutico?
“Pesquisas documentaram sérios danos físicos e psicológicos em muitos esportes. Os Enhanced Games apenas elevam ainda mais o limite de um risco que a sociedade já aceitou.”
Esse argumento não é aceito pela diretora da UK Sport (agência do governo britânico para esportes), Kate Baker.
“Estamos comprometidos em vencer da maneira correta”, disse à BBC. “Sabemos que tivemos alguns episódios no passado dos quais não nos orgulhamos, mas nos afastamos muito disso.”
“Então, até mesmo reconhecer os Enhanced Games como algo real é muito difícil para nós. É algo ao qual nos opomos totalmente. Se você tiver um alto potencial em nosso sistema, receberá apoio para atingir seu potencial e o fará de uma forma saudável e não prejudicial a você.”
“Recentemente voltamos a nos comunicar com todos os nossos atletas para confirmar que poderão violar nossa política de elegibilidade caso decidam se envolver nesses eventos. Eles não seriam aptos a receber financiamento da UK Sport, e também perderiam acesso ao nosso apoio técnico e médico.”
Enquanto o debate se intensifica, em Las Vegas, uma arena construída especialmente para o Enhanced Games está pronta para receber mais de 2 mil convidados em um evento que será transmitido ao vivo para os curiosos.
É um evento que, de acordo com Angermayer, “é otimizado para o consumo visual de seus esportes via mídia social” e tem “o potencial de evoluir para uma das novas franquias esportivas mais valiosas criadas em décadas”.
Se essa confiança é justificada, é incerto.
No ano passado, uma pesquisa da Ukad descobriu que 66% dos pais disseram que não assistiriam ao evento nem deixariam seus filhos assistirem. Questionada sobre sua opinião, a secretária de Cultura do Reino Unido, Lisa Nandy, disse à BBC que considera o evento “um espetáculo secundário. Parece estar se mostrando muito menor do que nos disseram que seria, e não tenho interesse nesse tipo de esporte.”
Independentemente do nível de interesse, será possível saber se os participantes conseguem superar o recorde mundial não oficial alcançado no ano passado, em um evento experimental, pelo nadador grego dos Enhanced Games Kristian Gkolomeev, com a ajuda de substâncias de melhoria de desempenho e um traje de banho proibido em competições convencionais. Esse tempo já foi superado posteriormente por um nadador que compete de forma limpa.
O mundo tradicional do esporte está sendo desafiado como raramente antes, com uma série de disruptores e inovadores ultrapassando os limites em busca de novos públicos e crescimento de receita.
Mas ainda não se tinha visto um evento tão polêmico como os Enhanced Games.
Os responsáveis afirmam que vieram para ficar e que podem em breve se expandir para mais eventos e outras modalidades.
A questão é: a que custo?
Ilustração de Klawe Rzeczy
Usamos inteligência artificial para traduzir esta reportagem, originalmente escrita em inglês. O texto foi revisado por um jornalista da BBC antes da publicação.
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