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‘O Brasil precisa tomar a difícil decisão de envelhecer’, diz especialista

por Gilberto Cruz
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Jorge Félix estuda o envelhecimento há décadas. Doutor em ciências sociais pela PUC-SP, é pesquisador e professor da pós-graduação em gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Seu terceiro livro acaba de sair: A (difícil) decisão de envelhecer – e o leitor vai logo entender que este é um “puxão de orelhas” do autor. Funciona como um chamamento para os gestores de políticas públicas tomarem as devidas providências para garantir dignidade à longevidade:
“O Brasil precisa tomar essa decisão difícil de envelhecer. De verdade, não o envelhecimento fake do aplicativo. Precisa enxergar o fenômeno do envelhecimento muito além da previdência, onde o tema está confinado e com lentes fiscalistas”, escreve.
Idosa em loja: envelhecimento da população exige uma abordagem interdisciplinar
Arnaud 25 (https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10100143)
Félix afirma que o envelhecimento da população é também uma transformação econômica: se, por um lado, implica gastos, por outro gera riquezas. Explica que a economia da longevidade é um filão de (re)industrialização dos países ricos a partir de uma nova cesta de consumo das famílias – com menos crianças e mais idosos. No que se refere ao Brasil, lamenta que a interdisciplinaridade do assunto ainda seja ignorada:
“A decisão de envelhecer implica promover a saúde, a educação ao longo de toda a vida, a adaptação das cidades, a adequação das moradias, as condições de trabalho, a segurança alimentar”, enumera, acrescentando que a discussão não pode se resumir à questão da previdência.
O livro é uma coletânea de artigos publicados em diversos veículos. Alguns são bem antigos, mas já abordavam tópicos cuja complexidade só aumentou – como é o caso do endividamento dos idosos. Gostei especialmente dos que se debruçam sobre a política de saúde do governo Bolsonaro durante a pandemia. Em Morte, a resposta do Posto Ipiranga, o professor critica o modelo adotado pelo então ministro da Economia, Paulo Guedes.
“O objetivo maior da economia, como um ramo das ciências sociais, é garantir a vida, oferecer respostas às ameaças ao bem-estar social, ou seja, servir ao homem”, discorre.
No entanto, Félix é firme ao bater na tecla de que precisamos aceitar que somos velhos porque, do contrário, a sociedade não vai tratar o tema como deveria. Para mostrar como a negação é prejudicial ao debate sobre os direitos das pessoas idosas, diz que, de uma hora para a outra, “um exército de internautas decidiu envelhecer”. O problema é que essa abordagem perde de vista a questão de que esse é um processo coletivo, com profundas repercussões:
“O curioso é que, quanto mais se escreve sobre envelhecer, mais as pessoas reagem e se embrenham em uma fuga frenética rumo a um desconhecido ‘desenvelhecer’ ou sonham com idealizadas blue zones nada científicas e muito menos replicáveis”, pontua, referindo-se a regiões onde as pessoas vivem mais do que a média global.
A humanidade vive duas transformações radicais: a mudança climática e a demográfica. Parece que ainda não se deu conta de nenhuma das duas. Felizmente, a Organização Mundial da Saúde voltou atrás em sua decisão inicial e não reconheceu oficialmente a velhice como doença – o equivalente a um carimbo de prazo de validade vencido para os idosos. Perseveremos.
Brasil registra crescimento da população idosa e reforça debate sobre envelhecimento saudável

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