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Lixo hospitalar ou remédio milagroso? Como entender o tráfico de placentas humanas

por Gilberto Cruz
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A placenta é um órgão temporário que se desenvolve no útero durante a gravidez e sustenta a vida no útero
Sebastian Kaulitzki/Science Photo Library
Aviso: Este artigo contém imagens gráficas de tecidos humanos.
Uma rede suspeita de contrabandear placentas humanas retiradas de hospitais para fabricar injeções antienvelhecimento está sendo investigada no Paquistão.
A Agência Federal de Investigação (FIA, na sigla em inglês) acusa a organização de comprar cerca de 200 kg de placentas por mês de diversos hospitais.
Segundo a FIA, os placentas são secos, processados e enviados para o exterior.
Durante uma operação realizada no fim do mês passado em Islamabad, capital do país, as autoridades encontraram 500 kg do que aparentavam ser placentas humanas em uma instalação clandestina de processamento. A ação levou à prisão de cinco pessoas.
Agora no g1
Fotos divulgadas pela agência mostram bandejas com placentas secas organizadas sobre carrinhos dentro de uma casa que, segundo a FIA, havia sido “transformada em um centro de armazenamento e processamento de placentas”.
No Paquistão, a retirada de órgãos humanos para fins comerciais pode resultar em pena de até 10 anos de prisão
FIA
Os cinco suspeitos pagavam aos hospitais de Islamabad e Rawalpindi cerca de US$ 2,90 (aproximadamente R$ 16) por placenta, algo que teria sido impossível sem a cumplicidade de administradores hospitalares, disse Hina Kanwal, autoridade da Autoridade Paquistanesa de Transplante de Órgãos Humanos, à BBC News Urdu.
Segundo a FIA, essas placentas seriam exportadas e transformadas em injeções antienvelhecimento, cada uma vendida por cerca de US$ 2.530 (aproximadamente R$ 13,8 mil).
Há uma forte demanda por placentas humanas na cirurgia estética, afirma Kanwal, mas, no Paquistão, sua compra e venda são ilegais.
Quem for considerado culpado pela retirada de órgãos humanos para fins comerciais pode ser condenado a até 10 anos de prisão e ao pagamento de uma multa de até US$ 3.600 (aproximadamente R$ 19,7 mil).
Segundo a FIA, as atividades da rede se estendem a outras grandes cidades, como Lahore e Peshawar. A agência também investiga agentes da imigração, empresas de gerenciamento de resíduos e hospitais suspeitos de participação no esquema.
Os suspeitos alegaram inicialmente que as placentas eram de ovelhas.
FIA
A FIA afirma que já realizou “diversas ações contra o tráfico ilegal de órgãos humanos”, mas, segundo um porta-voz ouvido pela BBC News Urdu, este é o primeiro caso envolvendo uma “rede internacional organizada dedicada ao comércio de placenta humana”.
De acordo com as autoridades, os cinco suspeitos alegaram inicialmente que manipulavam placentas de ovelha, mas, após novos interrogatórios, admitiram que se tratava de placentas humanas.
Além disso, agentes da FIA no Aeroporto Internacional de Islamabad interceptaram 100 kg de placenta humana que seriam enviados ao Vietnã, onde o uso de placenta humana em produtos é proibido — embora o de origem animal seja permitido.
Até o momento, a FIA prendeu nove pessoas suspeitas de envolvimento no comércio de placenta humana. Todas permanecem sob custódia.
Durante a operação, foram apreendidos estoques de placenta humana em diferentes formas de processamento.
FIA
A ginecologista paquistanesa Sadaf Tariq afirma que normas rigorosas regulam o descarte da placenta, considerada um “resíduo hospitalar altamente infeccioso”.
Logo após o parto, a placenta é separada e cuidadosamente lacrada em um saco amarelo para resíduos biológicos, identificado como contendo placenta, explicou ela à BBC News Urdu.
Em seguida, ele é transferido da sala de parto ou do centro cirúrgico para a câmara fria central do hospital, para evitar a decomposição e o mau cheiro.
Segundo Tariq, a placenta pode ser armazenada por apenas 24 horas.
“Depois disso, todos os resíduos patológicos, como a placenta, são descartados por meio do procedimento padrão de incineração”, diz ela. “Seja em um hospital público ou privado, o tratamento é o mesmo.”
Segundo Tariq, empresas de gerenciamento de resíduos credenciadas pelo governo são responsáveis por esse processo. Sempre que um hospital entrega esse material, um registro é feito, e esses registros são inspecionados regularmente pelas autoridades.
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Uso na medicina tradicional
A placenta é um órgão temporário que se desenvolve no útero durante a gravidez e sustenta a vida do bebê. Ligado ao feto pelo cordão umbilical, ele fornece oxigênio e nutrientes, além de eliminar resíduos.
No parto normal, a placenta é expelida pelo canal de parto logo após o nascimento do bebê. Já na cesariana, ele é retirado cirurgicamente pelos médicos.
Mas algumas pessoas acreditam que a placenta, rica em proteínas, ferro e gorduras, também é nutritiva para adultos. Extratos de placenta são usados há séculos na medicina tradicional em diversas culturas.
Segundo a empresa americana de pesquisa de mercado Polaris, o comércio legal global de produtos à base de placenta, atualmente estimado em mais de US$ 700 milhões por ano, deve ultrapassar US$ 1,4 bilhão até 2034.
De acordo com a Polaris, esse crescimento é impulsionado pelo aumento da demanda por extratos de placenta de porco, ovelha, cavalo e também humano.
“A placenta não é apenas essencial durante a gravidez — ela também se tornou uma protagonista na medicina e na ciência”, afirma Nitin Tambe, analista sênior da Polaris. “Da nutrição infantil ao desenvolvimento de tratamentos médicos e inovações na área da beleza, seu potencial continua a crescer.”
Não há evidências científicas conclusivas sobre a eficácia antienvelhecimento da placenta humana
Paola Tellez/Getty Images
Paradoxalmente, considerando que a principal função do placenta é sustentar a vida em seus estágios iniciais, muitos produtos derivados desses extratos são voltados para problemas associados ao envelhecimento, como:
rugas;
queda de cabelo;
menopausa;
infertilidade;
artrite.
A placenta, que contém grandes quantidades de hormônios femininos, como estrogênio e progesterona, também é utilizada na fabricação de diversos medicamentos, alguns deles destinados ao tratamento da depressão pós-parto.
Além disso, já foi empregado no tratamento de doenças para as quais as terapias convencionais têm eficácia limitada, incluindo distúrbios autoimunes e neurológicos, como AVC, fadiga crônica, doença de Parkinson, esclerose múltipla e distrofia muscular, além de doenças hepáticas, doença de Crohn e até câncer.
“As pesquisas também sugerem que ele pode ser útil em medicamentos destinados a aumentar os níveis de ferro e tratar a anemia pós-parto”, afirma Tariq.
A placenta também tem sido transformada em comprimidos e injeções que, segundo alguns estudos, poderiam favorecer a regeneração dos tecidos.
“A camada interna da placenta, em especial, é conhecida por conter fatores de crescimento. Ela também é utilizada no tratamento de lesões cirúrgicas, como feridas profundas, queimaduras graves, úlceras e lesões oculares”, explica Tariq.
No entanto, as evidências científicas que sustentam essas aplicações variam, assim como a regulamentação sobre seu uso em diferentes países.
A empresa japonesa Japan Bio Products (JBP) exporta para diversos países da Ásia cápsulas com pó de placenta 100% puro, comercializadas como suplementos alimentares. Dependendo do mercado, elas são produzidas com placenta humana, suína ou equina.
“Os asiáticos tendem a ser mais receptivos aos produtos à base de placenta porque alguns povos, como os chineses, têm uma tradição de consumir placenta”, afirmou Winston Ooi, responsável pela JBP na região da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), ao site especializado NutraIngredients.
“Com a quantidade crescente de informações disponíveis na internet, as pessoas estão mais expostas aos produtos à base de placenta, e a demanda vem aumentando.”
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Comércio ilegal na China
Na China, apesar da proibição da venda comercial, a placenta humana fresca continua sendo comercializada no mercado clandestino e anunciada, sob diferentes nomes, em diversas plataformas online.
Um vendedor afirmou ao jornal Global Times que vendia uma placenta humana por mais de US$ 50.
“Posso reduzir o preço para US$ 40 se você comprar uma quantidade maior”, disse ao jornal, controlado pelo governo chinês. “Compramos a matéria-prima por US$ 30 o quilo.”
Segundo o especialista em direito Zhang Bo, ouvido pelo Global Times, pessoas flagradas nesse tipo de comércio costumam receber multas inferiores a cinco vezes o valor obtido com o lucro ilegal.
“Se a multa fosse elevada, por exemplo, para 50 vezes o valor do lucro obtido ilegalmente, os infratores pensariam duas vezes antes de cometer esse tipo de crime”, afirmou.
Yao, farmacêutico especializado em medicina tradicional chinesa em um hospital público da província de Hunan, no centro da China, disse ao Global Times que, na medicina tradicional chinesa antiga, a placenta humana era usada principalmente para fortalecer o sistema imunológico e tratar asma e bronquite.
Mas o ginecologista Huang Chengsheng, do Hospital Popular de Xangai, afirmou ao jornal que também é “possível contrair infecções ao consumir placentas sem condições adequadas de higiene”, que podem transmitir vírus como HIV, hepatite B e sífilis.
Ainda assim, segundo Huang, “muitas mães optam por levar a própria placenta para casa e consumi-la”, em vez de permitir que ela seja descartada.
Uma jovem mãe contou ao Global Times que tanto sua mãe quanto sua sogra perguntaram se poderiam comer sua placenta. “Não quero que elas comam”, disse ao jornal. “É nojento.”
Outra mulher, também de Xangai, afirmou ter pago cerca de US$ 7 a uma loja próxima ao hospital para transformar sua placenta em pó e encapsulá-lo. “Era para o meu sogro, que está com a saúde debilitada”, explicou.
Outra mulher, que oferece o mesmo serviço com entrega em domicílio na província de Zhejiang, no leste da China, disse ao jornal que seu negócio foi afetado pelas restrições à publicidade online, “mas a demanda real continua forte”.
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