
OMS alerta para explosão no uso de sachês de nicotina com sabores
Após mais de uma década de queda, o tabagismo voltou a crescer no Brasil. Dados da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que, pela primeira vez desde 2007, o percentual de fumantes aumentou cerca de 25% em termos relativos. Um dos fatores por trás desse movimento é a diversificação dos produtos de nicotina promovida pelas grandes multinacionais do tabaco, com foco principalmente no público jovem, segundo um estudo recomendado pela ONG ACT Promoção da Saúde.
Além dos cigarros eletrônicos, já populares entre adolescentes e jovens adultos, a indústria passou a investir também nos chamados sachês de nicotina, pequenas bolsas colocadas entre a gengiva e o lábio que liberam nicotina diretamente pela mucosa da boca. Para o pneumologista Paulo Corrêa, autor de um relatório da ACT, a estratégia combina marketing agressivo, influência das redes sociais e produtos formulados para aumentar a dependência química.
O cigarro convencional tem um miligrama de nicotina e os sachês de nicotina contêm de 4 a 18 miligramas da substância. Já o cigarro de tabaco aquecido tem 4,6 vezes mais nicotina do que o cigarro convencional.
O cigarro convencional tem um miligrama de nicotina e os sachês de nicotina contêm de 4 a 18 miligramas da substância
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O que são os sachês de nicotina
Conhecidos internacionalmente como “nicotine pouches”, os sachês de nicotina são pequenos saquinhos que ficam na boca para permitir a absorção da substância pela mucosa oral.
Esses produtos foram introduzidos no mercado em 2018 e são apresentados em embalagens atrativas, muitas vezes em latas colecionáveis, além de costumarem receber sabores e aditivos que facilitam o consumo.
Corrêa afirma que a absorção da nicotina pela boca é elevada e que já existem relatos de atendimentos em serviços de urgência nos Estados Unidos relacionados à intoxicação e overdose de nicotina provocadas por esses produtos.
Ele também destaca que a rotulagem nem sempre corresponde à quantidade real de nicotina presente nos produtos.
O cigarro convencional tem um miligrama de nicotina e os sachês de nicotina contêm de 4 a 18 miligramas da substância. Isso faz com que o jovem que inicia o uso desse produto se torne dependente rapidamente.
De acordo com a Anvisa, não existem produtos como esses registrados que possam ser regularmente comercializados no Brasil. Portanto, a comercialização desses produtos é irregular no país.
Jovens são alvo de estratégias de marketing
Documentos da própria indústria e investigações jornalísticas mostram que existem estratégias planejadas para atrair consumidores jovens, destaca o pneumologista.
O médico acrescenta que o início do tabagismo costuma estar ligado ao sentimento de pertencimento a grupos sociais. A influência de colegas, somada ao papel das redes sociais e de influenciadores digitais, cria um ambiente favorável à experimentação desses produtos.
O jovem é imediatista na obtenção de prazer e a região frontal do cérebro, responsável pelo controle de impulsos, ainda está em desenvolvimento durante a adolescência, tornando esse grupo mais vulnerável ao consumo de substâncias que provocam dependência.
Para o especialista, a combinação entre pressão social, marketing digital, minimização dos riscos e busca por prazer imediato forma uma “tempestade perfeita” para a iniciação ao uso de produtos de nicotina.
Dependência é a principal preocupação
Segundo Corrêa, todos os produtos que contêm nicotina provocam dependência, mas as versões mais recentes foram desenvolvidas para aumentar ainda mais a entrega da substância ao organismo.
Alguns produtos de tabaco aquecido conseguem fornecer quantidades significativamente maiores de nicotina do que os cigarros convencionais.
Além da dependência química, o médico destaca que a nicotina tem efeitos cardiovasculares e estudos recentes vêm investigando possíveis impactos relacionados ao câncer e a outras doenças.
Produtos são apresentados como mais seguros, mas mantêm riscos à saúde
O especialista afirma que a indústria costuma apresentar os novos produtos como alternativas mais seguras em comparação ao cigarro convencional.
No entanto, produtos de tabaco aquecido também geram substâncias cancerígenas durante o aquecimento, além de compostos capazes de reforçar a dependência da nicotina.
Corrêa cita ainda a presença de substâncias associadas a riscos cardiovasculares e afirma que os efeitos podem incluir aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca.
Para o médico, a ideia de que esses dispositivos produzem apenas vapor de água não corresponde à realidade. Trata-se de uma mistura extremamente complexa, segundo ele.
Cresce o uso combinado de diferentes produtos
O pneumologista destaca ainda que a indústria passou a oferecer uma ampla variedade de produtos contendo nicotina, incluindo itens dissolvíveis que se assemelham a produtos de higiene oral.
A estratégia favorece o chamado poliuso, quando uma mesma pessoa utiliza diferentes produtos para manter o consumo de nicotina em situações variadas.
Entre adolescentes de 13 a 17 anos, Corrêa afirma que cerca de 14% da amostra analisada em uma pesquisa conduzida por ele utilizava todos os seis tipos de produtos avaliados.
“A indústria está conseguindo criar uma nova geração de pessoas viciadas e não só adictas, mas poliadictas”, afirma.
Consequências podem aparecer ao longo da vida
Além da dependência, o especialista alerta para possíveis impactos respiratórios, cardiovasculares e relacionados ao desenvolvimento de câncer.
Ele afirma que o aumento do consumo entre jovens pode gerar sobrecarga futura para os sistemas de saúde, em razão do crescimento de doenças associadas ao uso de produtos derivados do tabaco e da nicotina.
Outros efeitos também podem ser percebidos mais cedo, como alterações estéticas, envelhecimento precoce da pele e disfunção erétil associada ao uso de cigarros eletrônicos.
Debate sobre regulamentação
Ao comentar o argumento de que a regulamentação desses produtos seria benéfica para a sociedade, o pneumologista afirma que cigarros eletrônicos e produtos de tabaco aquecido já são regulamentados no Brasil.
Segundo ele, a regulamentação adotada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabelece a proibição desses produtos após análise das evidências científicas disponíveis.
O especialista argumenta que os custos sociais e de saúde relacionados ao tabagismo superam amplamente a arrecadação obtida com impostos sobre produtos de tabaco.
Alerta para jovens e famílias
Corrêa recomenda que jovens sejam críticos em relação às mensagens divulgadas por influenciadores e pela indústria do tabaco e orienta pais, responsáveis e familiares a acompanharem os conteúdos consumidos pelos adolescentes e a conversarem sobre os riscos associados ao uso desses produtos.
Segundo o especialista, os dispositivos de nicotina são desenvolvidos para criar dependência e ampliar o mercado consumidor.
“Não utilizem esses produtos, não comecem a utilizar esses produtos. São produtos desenhados para tornar você dependente”, finaliza.
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