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Sociedades médicas pedem à Anvisa proibição total de implantes hormonais manipulados no Brasil

por Gilberto Cruz | Repórter e Jornalista
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Médicos exploram brecha e seguem vendendo implantes anabolizantes para fins estéticos
Doze entidades médicas e científicas nacionais e internacionais pedem à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a proibição total dos implantes hormonais manipulados no Brasil, conhecidos popularmente como “chips da beleza”.
O pedido está na Carta do Rio de Janeiro, divulgada nesta quinta-feira (1º), durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, realizado na capital fluminense.
Entre as entidades que assinam o documento estão a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedade Internacional da Menopausa (IMS).
Também assinam a carta a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS), a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Associação Brasileira de Climatério (Sobrac) e as sociedades brasileiras de Mastologia (SBM), Reprodução Humana (SBRH), Cardiologia (SBC) e Hepatologia (SBH).
As entidades alertam que os implantes, frequentemente vendidos como solução para sintomas da menopausa, alterações na libido, emagrecimento e ganho muscular, não passaram por estudos clínicos de qualidade que comprovem os benefícios anunciados ou garantam a segurança de seu uso.
A carta também denuncia a expansão de um modelo comercial que envolve produção em escala, formação de estoques, treinamento de médicos para prescrever os produtos e divulgação nas redes sociais.

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Em maio, uma investigação do g1 revelou como esse mercado continua funcionando apesar das restrições sanitárias. A reportagem identificou médicos que prescrevem os implantes, oferecem cursos sobre sua utilização e mantêm vínculos comerciais com farmácias de manipulação.
Documentos obtidos pela reportagem mostraram que implantes comprados por cerca de R$ 200 chegam a ser revendidos às pacientes por valores entre R$ 4 mil e R$ 12 mil.
Agora, as entidades querem que a proibição seja acompanhada de fiscalização mais rigorosa, fortalecimento da notificação de efeitos adversos e responsabilização dos envolvidos na cadeia comercial.
O que está proibido e o que pode mudar?
A discussão se arrasta desde outubro de 2024, quando a Anvisa determinou a suspensão da manipulação, comercialização, propaganda e uso de todos os implantes hormonais manipulados.
Após uma série de recursos administrativos apresentados por médicos, clínicas e farmácias, a agência voltou atrás no mês seguinte e substituiu a proibição total por regras mais restritivas.
Desde então, permanece proibida a comercialização e o uso de implantes hormonais manipulados à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo.
A manipulação, entretanto, continua permitida em condições específicas para outras finalidades terapêuticas.
Na investigação publicada em maio, o g1 revelou como essa possibilidade abriu espaço para que implantes com ação anabolizante continuassem sendo oferecidos como tratamento para menopausa, endometriose e síndrome dos ovários policísticos, apesar da falta de evidências robustas para essas indicações nessa forma de uso.
As sociedades médicas defendem que a autorização excepcional para a manipulação individualizada não pode servir para manter um mercado de produtos sem os estudos exigidos dos medicamentos registrados.
“Prescrição individualizada não significa experimentação sem evidência e segurança”, afirmam.
A nova carta solicita que a Anvisa proíba a manipulação, a formação de estoques, a comercialização, a distribuição, a publicidade e o uso dos implantes hormonais manipulados, independentemente da finalidade.
Por que implantes preocupam médicos?
Um dos principais problemas está na própria forma de administração. Inseridos sob a pele, os implantes podem continuar liberando hormônios durante meses.
Diferentemente de tratamentos em comprimidos ou géis, que permitem ajustes na dose ou interrupção do uso, os implantes nem sempre podem ser retirados completamente.
Caso a paciente apresente uma reação adversa ou seja exposta a concentrações hormonais excessivas, pode não ser possível interromper imediatamente o tratamento.
As entidades também alertam para a ausência de estudos que comprovem a qualidade farmacêutica, a estabilidade, a esterilidade e a velocidade de liberação hormonal desses produtos.
Além disso, permanecem sem respostas questões sobre a segurança a longo prazo, incluindo riscos cardiovasculares, hepáticos, trombose, AVC e possíveis consequências para as mamas e o endométrio.
A gestrinona, um esteroide sintético presente em alguns implantes, também pode provocar acne, crescimento excessivo de pelos, queda de cabelo, alterações da voz e aumento do clitóris. Algumas dessas alterações podem persistir mesmo após a interrupção do tratamento.
Os riscos já aparecem nos consultórios. Em entrevista ao g1, o endocrinologista Clayton Macedo, doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), relatou que atende pacientes com complicações graves após o uso desses produtos.
“Muitas dessas pacientes chegam internadas e não sabem exatamente o que foi implantado. E, diferentemente de outros tratamentos, não dá para simplesmente suspender — o hormônio continua sendo liberado no corpo. Em alguns casos, nem a retirada é possível”, afirmou.
Proibição atingiria todos os tratamentos hormonais?
As sociedades médicas ressaltam que o pedido não representa uma oposição à terapia hormonal, que tem eficácia e segurança respaldadas por evidências científicas quando corretamente indicada e acompanhada.
Existem medicamentos registrados e estudados, disponíveis em apresentações como comprimidos, géis, adesivos e formulações vaginais, que permitem ajustar as doses e interromper o tratamento quando necessário.
implantes hormonais
Arte/g1
No caso da testosterona, a única indicação para mulheres respaldada por consensos internacionais é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após avaliação clínica cuidadosa e com doses que mantenham os níveis hormonais dentro da faixa fisiológica feminina.
Não há evidências que justifiquem seu uso para emagrecimento, ganho muscular, aumento da energia ou longevidade.
O pedido das entidades também não abrange os implantes contraceptivos registrados na Anvisa, como o de etonogestrel, utilizado para prevenir a gravidez.
O objetivo é proibir especificamente as formulações hormonais manipuladas na forma de implantes que não passaram pela mesma avaliação de segurança e eficácia exigida dos medicamentos registrados.

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