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“A gente costumava exportar bastante para os EUA. Em 2024, a fazenda embarcou cerca de 50 paletes. No ano passado, esse volume caiu para apenas seis, apenas para completar um pedido. Neste ano, a expectativa é de que minhas exportações para lá praticamente zerem, a menos que os importadores americanos aceitem absorver parte do custo adicional das tarifas”, relata o produtor.
Uvas da fazenda de Rodrigo Pamponet — Foto: Crédito: Rodrigo Pamponet
Entre os segmentos do agronegócio atingidos estão as cadeias de uva, ovos, madeira, arroz e açúcar. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a medida coloca sob pressão US$ 4,6 bilhões em exportações do agronegócio brasileiro.
Redirecionar as exportações é uma das principais alternativas para os setores afetados pelas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump. Com a abertura de novos mercados, as exportações brasileiras não apenas mantiveram força, como encerraram o ano passado com o recorde histórico de US$ 348,7 bilhões.
Segundo análise da XP Macro Research, esse resultado foi possível porque os produtores conseguiram redirecionar parte das exportações para a China e outros mercados, compensando a redução das vendas aos EUA.
A estratégia dos produtores
Entre as frutas, a uva é a cadeia mais relevante entre as que ficaram fora da lista de isenções dos EUA, segundo análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
As exportações brasileiras de uva para os EUA já vinham perdendo espaço após a rodada anterior de tarifas, enquanto a Europa seguia como principal destino da fruta brasileira. Na prática, produtores como Rodrigo Pamponet já haviam iniciado esse redirecionamento.
nclusive, o produtor relatou ao g1 que atualmente, cerca de 70% da produção exportada pela fazenda segue para a União Europeia e 28% para a Argentina.
O mercado argentino ganhou espaço entre os produtores devido à proximidade geográfica e ao menor custo de transporte.
O reflexo aparece nos dados de comércio exterior: o volume de uvas brasileiras enviado ao país passou de 3,6 mil toneladas em 2024 para mais de 8 mil toneladas em 2025.
Enquanto isso, as compras dos EUA recuaram. O país, que adquiriu 13,8 mil toneladas de uva brasileira em 2024, com faturamento de US$ 41,5 milhões, reduziu as importações para 4,1 mil toneladas em 2025, o equivalente a US$ 12,8 milhões.

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Setor da uva teme freio nos investimentos
Principal polo da fruticultura irrigada do país, o Vale do São Francisco concentra cerca de 75% da produção nacional de uvas e responde por aproximadamente 95% das exportações brasileiras da fruta.
A cultura tem papel estratégico na economia regional e é uma das principais fontes de receita com exportações.
Embora a Europa continue como principal destino da uva brasileira, o mercado dos EUA é considerado estratégico pelos produtores devido à remuneração. Segundo o pesquisador João Ricardo Lima, da Embrapa Semiárido, os compradores americanos pagam mais por frutas de maior qualidade.
“O mercado americano é importante em termos de preço. Essas uvas pagam muito bem nos Estados Unidos, mais do que na Europa. Então, quando se perde esse mercado, o efeito para o produtor é maior”, afirma.
O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina (SPR), Jailson Lira, afirma que a abertura de novos mercados reduziu parte do impacto, mas não eliminou a preocupação do setor. Segundo ele, o momento ainda é de “muita tensão” entre os produtores.
Uma das principais preocupações envolve emprego e renda na região. Segundo o sindicato, a cadeia da uva gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos no Vale do São Francisco, e aproximadamente metade da mão de obra é formada por mulheres.
Apesar das incertezas, o setor mantém a expectativa de uma solução negociada antes de setembro, quando começa a principal janela de embarque de frutas do Vale do São Francisco para os EUA.
Outros setores também sentem os efeitos
Embora a fruticultura esteja entre as cadeias afetadas, a lista de produtos atingidos pela sobretaxa dos EUA inclui outros segmentos do agronegócio, como arroz, madeira e açúcar.
Em nota enviada ao g1, a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) informou que participou de audiências públicas em Washington para defender que o arroz brasileiro tem papel complementar no abastecimento dos EUA, já que a produção local não seria suficiente para atender toda a demanda.
Mas a exposição ao mercado americano é menor do que em outras cadeias. Os EUA não estão entre os principais destinos do cereal brasileiro, que tem como mercados mais relevantes países da América Latina e da África, como Venezuela, México e Senegal.
A entidade avalia que a medida pode aumentar o custo do alimento para os consumidores americanos, caso a tarifa seja repassada aos preços finais.
O g1 também conversou com Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que afirmou que a tarifa sobre ovos e carne suína preocupa o setor, mas destacou que o impacto prático varia entre os produtos.
No caso dos ovos, a nova tarifa tem efeito limitado porque o Brasil já havia reduzido significativamente as exportações para os EUA após a normalização da crise sanitária provocada pela gripe aviária.
No ano passado, o Brasil bateu recorde de vendas aos americanos justamente porque o país enfrentava uma redução da oferta interna. No caso dos ovos, cerca de 1% da produção nacional é exportada, em média.
Na carne suína, o mercado americano também tem participação reduzida. Os embarques, que chegaram a cerca de 60 mil toneladas em um período anterior, caíram para uma média anual próxima de 3 mil toneladas devido a barreiras comerciais.
Hoje, os EUA sequer estão entre os 10 principais destinos das exportações brasileiras do produto.
Por outro lado, a ABPA considerou positiva a decisão de manter a tilápia fora da lista de produtos sobretaxados.
“A decisão de manter a tilápia fora da medida demonstra que há espaço para o diálogo técnico e para a construção de soluções equilibradas no âmbito das relações comerciais entre os dois países”, afirmou a entidade.
O plano do governo
Para apoiar as empresas afetadas pelo tarifaço dos EUA, o governo federal anunciou a retomada de medidas voltadas aos setores prejudicados pelas novas barreiras comerciais, mas ainda não detalhou como elas funcionarão.
A iniciativa prevê linhas de crédito para capital de giro, financiamento de investimentos e ações para ajudar exportadores a redirecionar produtos para outros mercados.
A ApexBrasil prepara um plano de contingência para agosto, com investimento de R$ 130 milhões em ações de diversificação comercial. A estratégia prevê ampliar a presença de produtos brasileiros em mercados da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão, além de fortalecer as vendas para o Oriente Médio.
O governo também pretende aproveitar as oportunidades abertas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia para ampliar os destinos das exportações brasileiras e reduzir a dependência do mercado americano.
