Esses drones, frequentemente operados via Starlink e capazes de atingir alvos a dezenas de quilômetros além das linhas de frente de forma precisa e barata, transformaram a guerra na Ucrânia com ataques a uma distância entre 25 e 200 quilômetros.
Isso permitiu à Ucrânia infligir danos significativos à logística de abastecimento das tropas russas dentro do território ucraniano.
Reflexo disso é a Crimeia, península ucraniana anexada pela Rússia, que agora lida com a falta crônica de combustível após uma campanha coordenada das tropas de Kiev contra linhas de abastecimento, depósitos de combustível, instalações de defesa aérea e centros de comando.
Os ataques têm se concentrado nas rodovias que ligam Mariupol, Berdyansk, Melitopol e a Crimeia — as principais artérias que abastecem as forças russas que combatem no sul e no leste da Ucrânia.

Agora no g1
Comandantes ucranianos afirmam que sua ofensiva contínua forçou a Rússia a usar rotas de reabastecimento mais lentas e menos eficientes.
Os drones teriam tornado trechos do corredor terrestre que liga a Rússia à Crimeia perigosos demais, desacelerando o transporte de combustível, munição e reforços.
A resposta da Rússia veio com o sistema de interferência Volna Kupol Garant, que emite um sinal forte o suficiente para desestabilizar a conexão do Starlink em uma área de cerca de 20 km², relatou à Reuters Serhii Beskrestnov, conselheiro do Ministério da Defesa da Ucrânia.
Trata-se de um desenvolvimento significativo no conflito, já que a Starlink era até então considerada, em grande parte, imune a interferências.
Um drone de ataque de médio alcance Zozulia voa após ser lançado por militares ucranianos da companhia Sparta em um local não revelado no sul da Ucrânia — Foto: REUTERS/Valentyn Ogirenko
Virada na guerra com auxílio da Starlink
A virada a favor da Ucrânia na guerra ocorreu no início deste ano, quando a SpaceX cortou o acesso não autorizado das forças russas à Starlink, prejudicando as operações de drones e as comunicações da Rússia.
Isso deu uma vantagem à Ucrânia, permitindo que drones aprimorados evitassem detecção, resistissem à interferência e realizassem ataques com mais precisão, enquanto a Rússia corria para se adaptar.
“O bloqueio do Starlink para as forças russas foi um dos desenvolvimentos mais significativos no campo de batalha neste ano”, disse Rob Lee, pesquisador sênior do Programa Eurásia do Foreign Policy Research Institute, à agência de notícias Associated Press.
O sucesso dos ataques ucranianos de médio alcance é consequência dessa mudança.
“O que mudou é que agora oito em cada 10 missões são bem-sucedidas”, disse Pharaon. Há apenas alguns meses, a taxa de sucesso era o oposto, segundo ele.
Militares da companhia Sparta, das Forças Armadas da Ucrânia, preparam um drone de ataque de médio alcance Zozulia — Foto: REUTERS/Valentyn Ogirenko
A reação da Rússia
As forças russas foram pegas de surpresa quando a campanha ucraniana se intensificou há três meses. Mas começaram a mobilizar unidades móveis antiaéreas e recorrer a outras táticas para interceptar os drones, relataram comandantes e pilotos de drones ucranianos à Reuters.
Uma delas é justamente o uso de dispositivos eletrônicos sofisticados de interferência para bloquear as conexões usadas para pilotar os drones, alguns deles capazes de interromper os sistemas Starlink – o Ministério da Defesa da Ucrânia afirma ter detectado dez deles.
Alguns desses dispositivos de interferência foram instalados pela Rússia perto de cidades e instalações militares, disseram os militares ucranianos.
Equipamentos desse tipo são visados pelos soldados ucranianos por razões óbvias.
Um vídeo de um ataque ucraniano a um desses sistemas mostra uma grande explosão após um drone atingir um local contendo seis caixas grandes do tamanho de trailers.
“Assim que atingimos essa instalação, nossos drones equipados com Starlink voaram sem problemas”, disse um comandante do 422º Regimento de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia em operação na região sul de Zaporíjia.
Outras táticas a que a Rússia recorre para manter as linhas de frente abastecidas incluem esconder combustível e outros suprimentos militares em veículos civis, como caminhões que deveriam estar transportando água ou leite. A operação logística também envolveria pequenos carros civis, quadriciclos e motocicletas.
Além disso, as tropas russas estariam usando abrigos camuflados, prédios abandonados e estruturas agrícolas para esconder suprimentos, além de postos de gasolina civis para armazenar combustível militar.
Também teriam passado a escoltar comboios de caminhões de combustível com picapes armadas com metralhadoras e a usar estradas secundárias.
