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Raphinha tem lesão na coxa: por que é tão difícil de evitar esse tipo de problema no futebol?

por Gilberto Cruz
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Raphinha deixa o campo no jogo contra o Haiti, na sexta-feira (19), após sentir a coxa direita
AP Photo/Matt Slocum
Exames realizados neste sábado (20) constataram que Raphinha tem uma lesão muscular na coxa direita e vai desfalcar a Seleção brasileira. O comunicado da CBF não dá uma previsão de retorno.
Segundo informações apuradas pelo ge, a intenção é contar com o atacante a partir de uma eventual partida de oitavas de final, daqui a duas semanas, caso a Seleção avance na Copa do Mundo.
Raphinha deixou o campo ainda no primeiro tempo no jogo desta sexta-feira (19), em que a Seleção brasileira derrotou o Haiti por 3 a 0.
Ele sentiu dores na parte posterior da coxa direita, no quarto episódio na mesma região em menos de um ano.
O padrão é conhecido na medicina esportiva: uma vez lesionada, essa musculatura fica mais propensa a um novo problema. E a explicação está na anatomia do bíceps femoral, o músculo mais associado a esse tipo de lesão no futebol.
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O que é o bíceps femoral
A parte posterior da coxa é ocupada por um grupo de músculos chamado isquiotibiais —nome que vem da tuberosidade isquiática, ponto da bacia onde eles começam, e que termina na tíbia. Dentro desse grupo está o bíceps femoral.
“O bíceps femoral é biarticular: ele atua sobre duas articulações ao mesmo tempo, o quadril e o joelho, fazendo a extensão do quadril, a flexão do joelho e a rotação externa da tíbia”, explica o ortopedista Fabiano Nunes, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Por cruzar duas articulações, o músculo costuma ser alongado nas duas extremidades simultaneamente —uma característica anatômica que, segundo o especialista, já o torna mais sujeito a sobrecarga do que um músculo de articulação única.
O momento de maior risco
A maioria das lesões nesse músculo não vem de choques ou pancadas, mas de corridas em velocidade máxima. Pouco antes de o pé tocar o solo, na fase de aceleração da perna, o bíceps femoral precisa frear a hiperextensão do joelho, impedir a flexão excessiva do quadril e controlar a desaceleração da perna que avança —tudo isso por meio de uma contração excêntrica, quando o músculo se contrai com força ao mesmo tempo em que se alonga, em vez de encurtar.
“É exatamente nesse tipo de contração, que ocorre nos sprints de alta velocidade e nos movimentos de desaceleração, que se concentra o maior número de lesões musculares”, afirma Nunes.
Chutes de longa distância, cruzamentos e disputas de bola aérea exigem o mesmo tipo de esforço. É por isso que o músculo é tão solicitado ao longo de uma partida, mesmo fora dos momentos de sprint.
Raphinha deixa o campo ao final da partida entre Brasil e Haiti
AP/Matt Slocum
Lesão antiga facilita uma nova
A reincidência na mesma região tem explicação biológica. Segundo Nunes, ter uma lesão prévia é um dos fatores mais relevantes para uma nova lesão muscular:
“Alguns estudos apontam até 30% de risco de nova lesão em quem já lesionou a região, mesmo quando o tratamento e a reabilitação foram bem-feitos.”
Isso acontece porque toda lesão deixa marcas biológicas e biomecânicas no tecido. A cicatriz que se forma —a fibrose— deixa a área mais fraca e menos elástica, além de encurtar a musculatura e fazê-la trabalhar sempre no limite de sua capacidade.
Soma-se a isso a perda de força e a atrofia muscular que costumam acompanhar o período de afastamento. Há também uma redução no controle neuromuscular —a comunicação fina entre cérebro e músculo que ajuda a evitar movimentos lesivos.
“Quando o atleta fica parado sem reabilitar adequadamente, esse controle se perde em parte, o que facilita novas lesões”, diz o ortopedista.
Dor antiga ou lesão nova?
Um dos desafios mais comuns nesse tipo de quadro é diferenciar uma lesão recente de um desconforto remanescente de uma lesão anterior.
Segundo Nunes, quando o atleta sai de campo andando normalmente, sem o protocolo agudo de gelo e compressão que costuma acompanhar uma lesão recém-constatada, é possível que se trate apenas de uma dor que já vinha sentindo, e não de um rompimento de fibra novo. Mas isso só exames de imagem podem confirmar, e a diferença muda completamente o prognóstico.
A ressonância magnética é considerada o exame padrão-ouro, porque permite identificar a formação de hematoma, a extensão da fibra lesionada e a localização exata do dano —se está no ventre muscular, na transição com o tendão ou no próprio tendão.
O ultrassom também é usado, principalmente para acompanhar a evolução ao longo do tempo, mas depende mais da experiência de quem o realiza.
Quanto tempo o músculo leva para se recuperar
O tempo de recuperação varia de acordo com o tamanho da lesão, sua localização exata e o tipo de atividade do atleta. Lesões com apenas edema, sem rompimento de fibra, podem permitir o retorno em uma a duas semanas.
Já lesões com rompimento de fibra muscular dificilmente permitem a volta ao esporte em menos de três semanas —prazo que pode chegar a dois ou três meses, dependendo do grupo muscular envolvido.
Até a publicação desta reportagem, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não detalhou exames, diagnóstico ou extensão da lesão de Raphinha.
Em nota, a entidade confirmou apenas que o atacante sentiu dor na musculatura posterior da coxa direita e que iniciou tratamento, sem informar prazo de retorno.

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