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Por que o câncer de pâncreas é um desafio para médicos e pacientes

por Gilberto Cruz
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Tecnologia ajuda pacientes no tratamento do câncer de pâncreas
Apesar de relativamente raro, o câncer de pâncreas talvez seja um dos mais temidos por sua alta letalidade. Como o número de casos vem crescendo – embora sua incidência não se compare à de tumores mais comuns, como os de pulmão, mama e colorretal – achei importante trazer o assunto para a coluna. No Brasil, a estimativa é de 10.980 novos casos anuais para o triênio 2023-2025, com uma taxa de mortalidade preocupante devido, sobretudo, ao diagnóstico tardio. A busca por novas drogas para combater a enfermidade mobiliza a comunidade científica, como mostrou reportagem do g1 publicada na sexta-feira.
Eduardo Viana de Carvalho, membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e chefe do Serviço de Cirurgia do Hospital Federal de Ipanema, no Rio de Janeiro
Mariza Tavares
O perfil dos pacientes também está mudando. Embora a maioria dos diagnósticos ocorra após os 55 anos, um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e do Canadá revela que a incidência e a mortalidade pela doença em pessoas de até 49 anos devem aumentar nas próximas décadas. A análise foi baseada em dados do Global Burden of Diseases, Injuries, and Risk Factors Study (Estudo da Carga Global de Doenças, Lesões e Fatores de Risco), levantamento global que reúne informações de 204 países e territórios.
Para quem não lembra das lições de biologia: o pâncreas está localizado atrás do estômago, entre o duodeno e o baço. É classificado como uma glândula mista porque possui duas funções fundamentais e distintas: auxilia a digestão por meio da produção do suco pancreático; e regula os níveis de glicose no sangue através de hormônios como a insulina. Quem me deu uma aula sobre o tema foi o médico Eduardo Viana de Carvalho, membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e chefe do Serviço de Cirurgia do Hospital Federal de Ipanema, no Rio de Janeiro.
O senhor pode dar uma dimensão da mortalidade do câncer de pâncreas?
O grande problema é que 80% dos casos diagnosticados não permitem um tratamento cirúrgico curativo. Só conseguimos tratar 20%, quando o câncer está restrito ao pâncreas, isto é, quando não atingiu outros órgãos (metástase), nem invadiu estruturas vasculares que o tornam irressecável. Mesmo entre esses 20% tratáveis, somente 15% dos pacientes têm sobrevida acima de cinco anos.
Em que condição o tumor é irressecável?
Quando se diz que um câncer de pâncreas é irressecável, devido ao atingimento de estruturas vasculares, significa que o tumor cresceu a ponto de envolver ou invadir vasos sanguíneos vitais que passam muito próximos ao órgão. Esses vasos vitais são a artéria mesentérica e a veia porta. Para que a cirurgia aconteça, elas têm que estar livres ou em uma condição na qual seja possível fazer uma reconstrução do vaso – seja por meio de uma emenda ou da colocação de uma prótese.
Por que, ao contrário de outros tipos de câncer, o de pâncreas não costuma dar sinais claros de que há algo errado?
Justamente porque não há sintomas claros da doença, o diagnóstico pode demorar, mas é importante explicar que há duas regiões do pâncreas bastante distintas do ponto de vista cirúrgico: a cabeça e o corpo/cauda. A cabeça tem a peculiaridade de ser atravessada pela via biliar. Por isso, quando o tumor está localizado nessa região, um dos sinais precoces é a icterícia, caracterizada pelos olhos amarelados (esclera), urina escura e alteração nas fezes. As pessoas precisam saber que a icterícia é uma emergência médica e não deve ser negligenciada. Já no corpo e na cauda, os sintomas são ainda mais vagos: inapetência, emagrecimento sem causa aparente, dor inespecífica nas costas (muitas vezes confundida com problemas de coluna), ou um mal-estar interpretado como má digestão. Por ser agressivo, três meses de atraso no diagnóstico podem fechar a janela de oportunidade do tratamento.
O que faz com que esse câncer seja tão difícil de visualizar?
Noventa por cento dos casos de câncer de pâncreas surgem a partir de uma lesão microscópica chamada PanIN, sigla para Neoplasia Intraepitelial Pancreática (do inglês Pancreatic Intraepithelial Neoplasia). Ela não forma um nódulo visível em exames de imagem comuns, como a tomografia ou a ressonância magnética, mas sim uma alteração microscópica nas células que revestem os pequenos ductos do órgão. Um radiologista não consegue ver o PanIN; ele só é identificado por um patologista ao analisar o tecido no microscópio, geralmente após uma biópsia ou cirurgia feita por outro motivo.
E quando o diagnóstico detecta um cisto? Significa que ele inevitavelmente evoluirá para um câncer?
Não necessariamente. Se o PanIN responde por 90% dos casos, os cistos representam os outros 10%. Desde 2012, o Consenso Internacional de Fukuoka uniformizou a conduta para as chamadas Neoplasias Mucinosas Papilares Intraductais (IPMN em inglês). Diferentemente do PanIN, que é microscópico, as IPMNs são visíveis em exames de imagem e se caracterizam por ser a única lesão prevenível, que pode ser monitorada e removida a tempo. O número de diagnósticos tem crescido devido à melhoria dos exames de imagem.
Para facilitar a compreensão, imagine o pâncreas com um ducto principal e ductos secundários, como se fossem “espinhas do peixe”. Com essa imagem na cabeça, temos as seguintes possibilidades:
Alto risco: cisto no ducto principal que provoca uma dilatação maior que 1cm.
Preocupante: cisto no ducto principal que provoca uma dilatação entre 0,5cm e 1 cm.
Quando as lesões estão nos ductos secundários, na maioria das vezes só se tornam preocupantes se apresentarem um crescimento superior a 5mm ao ano; se atingirem mais de 3cm; e se contiverem um componente sólido em seu interior. Todo cisto pancreático exige acompanhamento médico regular, pelo menos por um período de tempo. É preciso que o médico se certifique se o cisto se mantém inalterado, ou se dobrou de tamanho em seis meses – crescimento é o critério de preocupação.
Quais são as causas conhecidas e os fatores de risco?
Apenas cerca de 10% dos casos têm um componente genético. O risco familiar é considerado alto quando o paciente tem dois ou mais parentes de primeiro grau, como avós, pais e irmãos, diagnosticados com a doença – a recomendação é o rastreamento periódico a cada seis meses. Há também os fatores ambientais reconhecidos: tabagismo, álcool e obesidade. O abuso prolongado de bebidas alcoólicas pode levar a uma pancreatite crônica: um fator de risco que aumenta em até 20 vezes as chances de um câncer. A pancreatite crônica difere da aguda (que produz aquela dor súbita e violenta, geralmente associada a pedras na vesícula). A crônica é silenciosa, acarretando a fibrose progressiva do órgão e a perda de suas funções. Além disso, embora ainda sem uma validação científica definitiva, a literatura médica mostra que dietas ricas em alimentos ultraprocessados colaboram para o surgimento da doença.
Como estão os avanços na cirurgia e no tratamento oncológico?
A cirurgia existe desde a década de 1940, mas, naquela época, a mortalidade operatória girava em torno de 50%. Hoje, em centros de referência, ela é inferior a 1%. O tratamento quimioterápico complementar é indispensável depois da operação e, frequentemente, tem sido indicado antes do procedimento. Na verdade, a técnica cirúrgica atingiu o seu limite técnico: ela já é a mais radical possível, combinada a reconstruções vasculares de última geração. Atualmente, a grande fronteira de inovação está na oncologia clínica, com o avanço da imunoterapia, das terapias-alvo e, inclusive, de vacinas terapêuticas que estão sendo testadas em centros de pesquisa internacionais.
Ilustração apresenta as diferenças entre as Neoplasias Mucinosas Papilares Intraductais e o câncer de pâncreas
IA por Eduardo Viana de Carvalho

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