Jornal de Minas
05/11/2026

Por que grávidas têm desejos por determinados alimentos? O que a ciência já sabe

por Redação
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Gravidez: por que grávidas têm desejos por determinados alimentos? Estudo pode ter indício da resposta
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Vontade de chocolate, de um sorvete específico, de determinado lanche ou até de um alimento que antes nem despertava tanto interesse. Os famosos desejos da gravidez são comuns, mas, apesar de fazerem parte do imaginário em torno da gestação, a ciência ainda não tem uma explicação única para eles.
O que se sabe até agora é que essa vontade intensa por uma comida específica, conhecida como food craving, provavelmente nasce de uma combinação de fatores.
Alterações hormonais e metabólicas, necessidades energéticas, mudanças na percepção de sabores, aspectos psicológicos e culturais e até modificações nos circuitos cerebrais ligados à motivação, ao apetite e à recompensa podem participar do fenômeno.
Um novo estudo publicado na revista científica “Nature Neuroscience” trouxe uma nova pista para entender esse fenômeno. Em experimentos com camundongos, pesquisadores encontraram alterações em neurônios produtores de serotonina durante a gestação que aumentaram a motivação dos animais para buscar alimentos ricos em gordura, açúcar e proteínas. O resultado aponta para um possível componente neurobiológico dos desejos, mas ainda não permite afirmar que o mesmo mecanismo explique o fenômeno em mulheres grávidas.
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Para especialistas ouvidos pelo g1, a principal mensagem é que os desejos não devem ser tratados simplesmente como “falta de controle” da gestante. Ao mesmo tempo, ter vontade de um alimento não significa que o organismo esteja necessariamente “pedindo” determinado nutriente.
“Os desejos alimentares da gravidez provavelmente não têm uma única causa. Eles parecem resultar da combinação de alterações hormonais, mudanças metabólicas, necessidade energética, fatores psicológicos e modificações nos circuitos cerebrais que regulam apetite e recompensa”, explica Eduardo Cordioli, diretor técnico de obstetrícia do Hospital e Maternidade Santa Joana.
Desejo não é a mesma coisa que fome
A primeira diferença importante para entender o fenômeno está justamente na distinção entre fome e desejo alimentar.
A fome surge de uma necessidade do organismo por energia. O craving, por outro lado, é direcionado: a pessoa sente uma vontade intensa de consumir determinado alimento, mesmo que não esteja propriamente com fome.
“Fome é uma necessidade básica: o organismo precisa de energia. O craving ou desejo de comida é mais específico, é aquela vontade de comer determinada coisa mesmo sem estar propriamente com fome”, explica Cordioli.
Iara Linhares, orientadora da Pós-Graduação em Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP, define o food craving como um desejo intenso e frequentemente irresistível por um ou mais alimentos específicos.
Segundo a especialista, o fenômeno envolve uma interação complexa entre diferentes dimensões: a cognição, com pensamentos sobre determinada comida; a emoção, ligada à vontade de consumi-la; o comportamento de procurar e ingerir aquele alimento; aspectos fisiológicos, como alterações hormonais e eventualmente deficiências nutricionais; e a cultura.
Na prática, o desejo pode ser extremamente específico. Pode ser aquele chocolate favorito, um sanduíche de determinado restaurante, um tipo de sorvete ou um pacote de batata chips. Frutas e vegetais também podem aparecer entre as preferências. Em outros casos, o desejo não é seletivo e se manifesta como uma vontade exagerada de comer.
As escolhas também podem variar conforme hábitos culturais e diferenças regionais. Ainda assim, Linhares afirma que, em muitos países, é comum a preferência por alimentos ricos em gordura e carboidratos e de sabor doce.
Hormônios explicam tudo?
Uma das explicações mais conhecidas para os desejos da gravidez envolve os hormônios. Mas atribuir toda a vontade de comer chocolate, por exemplo, a uma mudança hormonal específica seria uma simplificação.
A gestação provoca profundas transformações hormonais, metabólicas, fisiológicas e psicológicas. Segundo Linhares, flutuações de estrogênio e progesterona podem alterar tanto a percepção do sabor quanto a percepção cerebral de saciedade. Necessidades energéticas, eventuais deficiências nutricionais e fatores culturais e sociodemográficos também podem contribuir.
Cordioli ressalta que a gravidez representa uma grande transformação endocrinológica e metabólica e que o cérebro também participa dessa adaptação.
Isso significa que os hormônios provavelmente fazem parte de uma rede mais ampla, que envolve cérebro, metabolismo e comportamento.
“Não se trata de uma relação simples do tipo ‘a progesterona provoca vontade de chocolate’”, explica o obstetra.
Além das alterações hormonais, Linhares destaca que a própria gestação induz modificações cerebrais que podem contribuir para os desejos. Estudos em animais apontam reorganização em centros gustatórios, sensitivos e de recompensa, enquanto pesquisas em humanos já observaram certo grau de plasticidade cerebral durante a gravidez.
Como o craving reúne componentes emocionais, sensoriais e cognitivos, essas alterações podem participar do fenômeno.
O que o novo estudo encontrou no cérebro
É justamente nesse ponto que entra a nova pesquisa publicada na Nature Neuroscience.
Pesquisadores do Pennington Biomedical Research Center, da Universidade Estadual da Louisiana (LSU), em colaboração com cientistas da Universidade de Illinois Chicago e do Baylor College of Medicine, estudaram o comportamento alimentar de camundongos durante a gestação.
Os cientistas observaram que os animais grávidos apresentavam maior motivação para buscar alimentos altamente palatáveis.
E não se tratava simplesmente de fome. Nos experimentos, os animais estavam alimentados. Quando podiam consumir as dietas ricas em proteína, gordura ou sacarose, as fêmeas grávidas faziam refeições maiores e mais frequentes.
Quando conseguiam ver e sentir o cheiro da comida, mas não alcançá-la, procuravam mais vezes o local onde ela estava e passavam mais tempo tentando obtê-la. Para os pesquisadores, esse comportamento indicava maior motivação pela recompensa alimentar.
A investigação levou a equipe a neurônios produtores de serotonina localizados no núcleo dorsal da rafe. Durante a gestação, esses neurônios se tornaram menos ativos. Os pesquisadores identificaram ainda aumento da atividade de um canal de potássio chamado SK3, que ajudava a “frear” os disparos desses neurônios.
Em termos simplificados, os experimentos apontaram para a seguinte sequência: a gravidez aumentava a atividade do SK3; isso diminuía a atividade dos neurônios de serotonina; e, com esses neurônios menos ativos, aumentava o comportamento semelhante ao desejo por alimentos palatáveis.
A equipe também identificou uma conexão desses neurônios com a área tegmental ventral, região cerebral envolvida em recompensa e motivação. Quando essa via era estimulada nos animais grávidos, o comportamento semelhante ao desejo diminuía. Quando era inibida em fêmeas não grávidas, ocorria o contrário.
Mas camundongos não sentem “vontade de chocolate”
Apesar dos resultados, os especialistas fazem uma ressalva fundamental: o experimento não demonstrou a causa dos desejos alimentares em mulheres grávidas.
Os pesquisadores estudaram um comportamento “semelhante ao craving” em camundongos. Isso significa que os animais não podem relatar uma vontade específica.
A motivação é avaliada a partir de comportamentos como a quantidade consumida, a frequência com que procuram a comida e o tempo que passam tentando alcançá-la.
“O camundongo não pode nos dizer que está com uma vontade ‘irresistível’ de comer chocolate”, exemplifica Cordioli.
Além disso, a alimentação humana envolve elementos que não podem ser reproduzidos integralmente nesse tipo de experimento: cultura, memória, cheiro, disponibilidade de comida, emoções e contexto familiar e social, além dos componentes hormonais e metabólicos.
Por isso, Cordioli considera o trabalho uma demonstração de um possível mecanismo biológico, e não a descoberta definitiva da causa dos desejos das gestantes.
Linhares faz a mesma ponderação: embora o estudo em animais seja detalhado, ainda não há elementos que permitam extrapolar os resultados para os mecanismos complexos que ocorrem no cérebro humano durante a gravidez.
Quando os desejos ficam mais fortes?
Os desejos podem aparecer desde o início da gravidez, mas Linhares afirma que o pico de frequência costuma ocorrer durante o segundo trimestre. No terceiro, eles tendem a diminuir ou até desaparecer.
Cordioli relata uma observação semelhante na prática clínica: segundo ele, desejos intensos são mais frequentes entre 14 e 20 semanas.
O novo estudo não pode ser usado para determinar em qual trimestre o fenômeno é mais intenso em mulheres. Nos camundongos, o comportamento semelhante ao craving apareceu claramente por volta do 14º dia de gestação, mas não havia diferença significativa no sétimo dia.
“Não podemos simplesmente converter ‘dia 14 do camundongo’ em ‘segundo trimestre’ da mulher”, ressalta Cordioli.
Desejo na gravidez é motivo de preocupação?
Na maioria das vezes, não. Um desejo ocasional, quando inserido em uma alimentação equilibrada, geralmente faz parte da gestação. O problema pode surgir quando a vontade frequente se transforma em consumo habitual de alimentos muito calóricos e passa a interferir na dieta.
“Eu ficaria mais atento quando o comportamento começa a substituir refeições, gerar ganho ou perda excessiva de peso, produzir episódios de compulsão ou impedir que a gestante mantenha alimentação nutricionalmente adequada”, diz Cordioli.
Linhares também alerta que a ingestão excessiva de alimentos altamente calóricos pode favorecer ganho de peso além do adequado. Entre as possíveis consequências descritas pela especialista estão maior possibilidade de diabetes gestacional, aumento da pressão arterial e dificuldades no parto.
Por isso, a ideia de que a grávida precisa “comer por dois” não deve servir como justificativa para aumentar indiscriminadamente a quantidade de comida.
“A demanda nutricional aumenta na gravidez, mas isso não significa duplicar a ingestão calórica”, destaca Cordioli.
Quando é preciso procurar avaliação médica?
Mais importante do que o alimento desejado é observar a intensidade do comportamento e quanto ele está interferindo na alimentação e na saúde da gestante.
Desejos que passam a substituir refeições, provocam ganho ou perda excessiva de peso ou estão associados a episódios de compulsão merecem atenção. Alterações acompanhadas de vômitos persistentes, incapacidade de se alimentar ou perda de peso também precisam ser investigadas.
Há ainda uma situação diferente dos desejos comuns da gravidez: a vontade persistente de ingerir substâncias que não são alimentos, como terra, sabão, giz ou gelo. O quadro é conhecido como síndrome da pica e, segundo os especialistas, merece avaliação médica, podendo estar associado a deficiências nutricionais.
O conhecimento disponível aponta para um fenômeno muito mais complexo do que uma simples “vontade de comer”.
Hormônios, metabolismo, cérebro, emoções e cultura podem se combinar para alterar a relação da gestante com a comida. O novo estudo acrescenta evidências de que circuitos ligados à recompensa e à motivação também podem participar desse processo, mas, por enquanto, essa parte da explicação foi demonstrada apenas em animais.
“O desejo alimentar da gestante não é simplesmente uma questão de vontade ou falta de controle. A gravidez parece modificar também os circuitos cerebrais que regulam recompensa, motivação e saciedade”, resume Cordioli.

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