Glóbulos vermelhos do sangue.
Pixabay
Uma pesquisa com dados genéticos de mais de 28 mil pessoas identificou um mecanismo que pode abrir novos caminhos para o tratamento de doenças hereditárias do sangue, como a anemia falciforme e a beta-talassemia.
➡️O estudo, publicado na revista científica Nature e que contou com participação de pesquisadoras brasileiras da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), identificou o papel da proteína BACH2 na regulação da chamada hemoglobina fetal, uma forma de hemoglobina que predomina durante a gestação.
Segundo os pesquisadores, a proteína atua como um “freio” da produção de hemoglobina fetal. Ao reduzir a ação desse freio em células cultivadas no laboratório, os cientistas conseguiram aumentar a produção de hemoglobina fetal.
Ester Sabino, imunologista e titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, explica que já se sabia há muito tempo que, aqueles que possuem níveis altos de hemoglobina fetal durante a vida uterina, tendem a ter uma melhora no quadro de anemia falciforme.
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Assim, o aumento promovido a partir da descoberta da atuação da proteína pode ajudar a amenizar os efeitos de doenças hereditárias do sangue.
“Cada vez que você descobre um caminho pelo qual uma proteína é produzida, facilita encontrar caminhos de tratar os pacientes”, analisa Sabino.
A descoberta amplia o conhecimento sobre os mecanismos que controlam a produção dessa proteína e aponta um possível caminho para desenvolver novas estratégias terapêuticas.
Como funciona o mecanismo identificado
🩸A hemoglobina é a proteína presente nos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigênio pelo organismo. Durante o desenvolvimento humano, a hemoglobina fetal é gradualmente substituída pela forma predominante na vida adulta.
Em pessoas com anemia falciforme, uma alteração genética faz com que a hemoglobina adulta tenha um funcionamento anormal, levando à deformação dos glóbulos vermelhos.
Já a beta-talassemia é uma doença hereditária caracterizada pela produção reduzida ou ausente de uma das partes da hemoglobina adulta.
Os pesquisadores explicam que, nesses contextos, aumentar a produção de hemoglobina fetal é uma estratégia de interesse para o tratamento.
E o estudo investigou justamente os mecanismos genéticos envolvidos na regulação dessa produção e identificou a BACH2 como um dos fatores que a restringem.
Segundo o grupo, uma variante genética associada a níveis mais elevados de hemoglobina fetal reduz a expressão de BACH2. Nos experimentos realizados em laboratório, a redução ou inibição dessa proteína também aumentou a expressão da hemoglobina fetal.
Os resultados indicaram ainda que a BACH2 restringe a ativação promovida pela NRF2. Essa relação entre as duas proteínas constitui um mecanismo de regulação que pode ser explorado em pesquisas futuras.
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Análise genética reuniu dados de mais de 28 mil pessoas
Para investigar os fatores genéticos associados à produção de hemoglobina fetal, os pesquisadores realizaram uma análise que reuniu 28.279 pessoas de diferentes ancestralidades.
O estudo identificou 91 associações genéticas independentes distribuídas por 12 regiões do genoma. Em uma dessas regiões, os pesquisadores encontraram uma variante associada a níveis mais elevados de hemoglobina fetal e à redução da expressão de BACH2.
“Em estudos genéticos, para que se chegue a descobertas, é necessário um grande número de pessoas, de populações de lugares diferentes”, analisa Sabino.
A partir dessa pista genética, a equipe realizou experimentos para investigar se a proteína tinha um papel direto na regulação da hemoglobina fetal. Os resultados reforçaram a relação identificada na análise genética e ajudaram a esclarecer o mecanismo biológico envolvido.
A combinação de dados genéticos de pessoas e experimentos funcionais foi importante para relacionar a variante identificada à atuação de BACH2 na produção da hemoglobina fetal.
Combinação de estratégias apresentou resultado promissor
O estudo também investigou a relação entre BACH2 e BCL11A, outro regulador conhecido da produção de hemoglobina fetal e alvo de estratégias terapêuticas.
Os experimentos indicaram que as duas proteínas atuam por mecanismos independentes. Quando os pesquisadores reduziram a ação de BACH2 e de BCL11A simultaneamente, observaram um aumento da hemoglobina fetal superior ao obtido com a redução de cada uma das proteínas isoladamente.
O resultado sugere que atuar sobre diferentes mecanismos de regulação pode ser uma possibilidade para pesquisas voltadas ao aumento da hemoglobina fetal.
Apesar de promissora, a descoberta ainda precisa avançar antes que essa abordagem possa ser considerada uma alternativa de tratamento. Segundo os pesquisadores, os experimentos não demonstram, por si só, que a estratégia seja segura ou eficaz em pacientes.
“Esse é só o primeiro passo. Depois que a gente entende esses mecanismos, é preciso testar inicialmente em modelos animais e, depois, realizar estudos em humanos para só então desenvolver um tratamento seguro”, finaliza Ester Sabino.
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