A PSICANÁLISE DOS CANDIDATOS
Por: Mauro Falcão | pesquisador e escritor brasileiro
Estamos nos aproximando de mais uma eleição — acontecimento rotineiro para alguns, decisivo para outros —, mas de consequências profundas para todos. A cada ciclo eleitoral, escolhemos aqueles que ocuparão posições capazes de interferir na economia, na segurança, na educação, na saúde e, sobretudo, no destino coletivo.
Mas há uma questão raramente enfrentada: qual é o perfil psicológico de quem deseja governar?
Algo parece ter mudado no processo político contemporâneo. O sucesso eleitoral já não depende apenas de competência, experiência, equilíbrio ou capacidade de formulação. A polêmica tornou-se ativo político. Quanto mais controverso o personagem, maior a atenção; quanto maior a atenção, maior a audiência; quanto maior a audiência, maior o valor comercial da exposição. A lógica da comunicação transforma o conflito em espetáculo e o espetáculo em mercadoria.
Instala-se, assim, um círculo perverso: a audiência precisa da controvérsia, o político precisa da visibilidade e o público é capturado pelo conflito. No final, todos recebem sua parcela de recompensa — exceto a qualidade do debate público.
A consequência é uma inversão silenciosa de critérios. Aquilo que poderia ser interpretado como desequilíbrio emocional, impulsividade, narcisismo, intolerância à frustração, necessidade excessiva de aprovação ou comportamento agressivo pode ser convertido em personalidade eleitoral. O que seria observado com cautela em um executivo passa, no ambiente eleitoral, a ser celebrado como autenticidade.
Façamos então um exercício de racionalidade. Quantos candidatos seriam aprovados em um rigoroso processo de seleção para administrar uma grande empresa? Quantos demonstrariam estabilidade emocional, capacidade de ouvir, tolerância ao contraditório, autocontrole, pensamento estratégico e responsabilidade diante das consequências de suas decisões?
E, principalmente: por que exigimos critérios psicológicos e comportamentais de quem administra organizações privadas, mas aceitamos padrões infinitamente inferiores de quem pretende administrar milhões de vidas?
Não se trata de diagnosticar patologias. Diagnósticos exigem avaliação profissional. O problema é outro: transformamos comportamentos potencialmente disfuncionais em capital político e, depois, chamamos isso de democracia.
Enquanto isso, nas ruas e nas redes sociais, cidadãos defendem apaixonadamente seus candidatos, muitas vezes não por suas propostas, mas porque se identificam com seus símbolos, sua agressividade, sua indignação ou sua capacidade de atacar o adversário. O pensamento cede lugar à identificação; o argumento, à torcida; a cidadania, ao pertencimento.
Talvez a crise institucional não esteja apenas nos candidatos, mas também nos critérios psicológicos com que escolhemos nossos líderes. Porque uma sociedade revela sua maturidade pelos comportamentos que decide premiar.
É justamente aqui que surge a questão que ninguém parece querer enfrentar: o que precisará acontecer para voltarmos ao equilíbrio — ou estamos construindo uma nova normalidade, na qual os desequilibrados conduzem e os cegos escolhem?
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