
Torcedores brasileiros reagem ao final da partida das oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 entre Brasil e Noruega, no Estádio Nova York/Nova Jersey, em East Rutherford, em 5 de julho de 2026
CHARLY TRIBALLEAU / AFP
Raiva, frustração, tristeza e até apatia. A segunda-feira amanheceu mais pesada para milhões de brasileiros após a eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo de 2026. A derrota por 2 a 1 para a Noruega encerrou a campanha do Brasil com a pior classificação da equipe desde a Copa de 1990, na Itália, e deixou torcedores tentando lidar com uma sensação de vazio que vai além do resultado em campo.
Para especialistas ouvidos pelo g1, esse sofrimento tem nome: luto esportivo. Embora não seja um diagnóstico clínico, o termo descreve a reação emocional provocada pela perda de um sonho coletivo e explica por que, para muitas pessoas, a eliminação da seleção pode provocar emoções intensas.
Para elaborar essa perda, psicólogos reforçam que é preciso aceitar que a tristeza faz parte da experiência de torcer e evitar reviver a derrota continuamente, o que é mais difícil em tempos de redes sociais.
O momento também representa uma oportunidade para os adultos ensinarem às crianças que admirar alguém não significa esperar perfeição.
Agora no g1
O que é o luto esportivo?
Segundo o psicólogo esportivo João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, o torcedor não perde apenas uma partida.
“O torcedor perde uma expectativa, uma fantasia construída durante semanas ou meses. Sob a perspectiva da Psicologia, isso pode desencadear um processo de adaptação muito semelhante ao que ocorre em outras perdas simbólicas”, explica.
Na prática, o que desaparece é um projeto emocional. Além da expectativa de comemorar um título, muitos deixam de viver momentos que imaginavam compartilhar com amigos e familiares. Em alguns casos, a eliminação também afeta uma parte importante da identidade construída em torno da seleção.
Por que algumas pessoas sofrem muito mais?
Nem todos reagem da mesma forma a uma derrota esportiva. De acordo com Cozac, isso depende do investimento emocional que cada pessoa faz no futebol. Para alguns, trata-se apenas de entretenimento. Para outros, representa pertencimento, tradição familiar, identidade e até uma importante fonte de autoestima.
Quanto maior esse vínculo afetivo, maior tende a ser o impacto da eliminação.
O sofrimento é “exagerado”?
Os especialistas afirmam que não. Segundo Cozac, os seres humanos criam vínculos afetivos não apenas com pessoas, mas também com grupos, símbolos e instituições.
Como o futebol mobiliza identidade, memória, pertencimento e emoção, sofrer após uma eliminação é considerado uma resposta esperada quando existe forte envolvimento afetivo.
Ele acrescenta que estudos em neurociência mostram que perdas simbólicas podem ativar circuitos cerebrais relacionados ao sofrimento emocional. Embora perder uma Copa do Mundo não seja comparável à perda de um familiar, alguns mecanismos emocionais envolvidos apresentam semelhanças.
Da incredulidade à aceitação
As emoções mais frequentes após uma eliminação são tristeza, frustração, raiva, decepção e incredulidade. Algumas pessoas também sentem vergonha, especialmente quando a derrota ocorre diante de rivais históricos ou depois de uma grande expectativa de conquista.
Segundo o psicólogo, essas emoções costumam surgir em uma sequência relativamente comum:
primeiro aparece a incredulidade ou a negação;
depois surgem a raiva, a busca por culpados e a frustração;
por fim, a tristeza tende a dar lugar, gradualmente, à aceitação.
Nem todos vivenciam esse processo da mesma forma, mas esse padrão é frequente.
Por que fica uma sensação de vazio?
Durante uma Copa do Mundo, muitas pessoas reorganizam parte da rotina em função dos jogos. Há expectativa, planejamento e uma intensa mobilização emocional.
Quando a competição termina de forma inesperada, esse investimento psicológico é interrompido de maneira brusca, o que pode provocar uma sensação de vazio semelhante ao encerramento de um projeto muito aguardado.
“Nós perdemos”: por que a derrota parece pessoal?
Mesmo quem nunca entrou em campo costuma dizer “nós perdemos”.
Segundo Cozac, esse fenômeno é explicado pela identidade social. O cérebro incorpora o grupo à própria identidade. Assim, quando a seleção vence, o torcedor sente que faz parte daquela conquista. Quando perde, também vivencia a derrota como algo parcialmente seu.
O algoritmo pode prolongar a tristeza
Se antes a derrota diminuía com o passar dos dias, hoje as redes sociais podem tornar esse processo mais lento.
Segundo Cozac, os algoritmos mantêm o torcedor constantemente exposto aos mesmos conteúdos: melhores momentos da partida, críticas, memes, provocações e discussões reaparecem repetidamente.
Em vez de permitir que o cérebro se afaste emocionalmente do evento, a pessoa revive a derrota diversas vezes ao longo do dia, mantendo o estresse e a frustração ativos por mais tempo.
Como lidar com a eliminação?
O psicólogo recomenda algumas estratégias para elaborar essa perda:
aceitar que a tristeza faz parte da experiência de torcer;
evitar reviver a derrota continuamente;
reduzir a exposição às discussões nas redes sociais;
retomar rapidamente a rotina, o trabalho, a família e outras atividades;
lembrar que a vida possui diversas outras fontes de significado além do futebol.
Segundo ele, para a maioria das pessoas, a intensidade dessas emoções diminui significativamente ao longo de alguns dias. Caso o sofrimento permaneça intenso por muito tempo e passe a comprometer o funcionamento da pessoa, vale investigar outros fatores emocionais associados.
Como ajudar as crianças a enfrentar a derrota
No Rio de Janeiro, o jovem Enzo Lembo, de 13 anos, chorou por cerca de uma hora após a eliminação do Brasil, neste domingo. A mãe do estudante, Renata Lembo, contou ao g1 que a maior frustração do filho foi ver que o Neymar não conquistou o título antes de se aposentar.
“Ele ficou arrasado com a eliminação e, também depois, assistindo aos vídeos sobre da carreira do Neymar, que vai se aposentar. Eu expliquei que vão ter outras gerações de jogadores bons e que ele ainda vai ver o Brasil se campeão”, disse Renata.
Para a psicóloga e psicanalista especialista em infância e adolescência Roseli Moreno, as crianças costumam viver esse tipo de eliminação de forma muito particular.
Na infância, é comum que atletas e seleções ocupem o lugar de heróis. Quando esses ídolos perdem, a criança pode sentir tristeza, frustração e até raiva.
Segundo Moreno, o momento também representa uma oportunidade para os adultos ensinarem que admirar alguém não significa esperar perfeição.
Quando pais e responsáveis acolhem os sentimentos da criança, dão nome à tristeza e evitam minimizar a dor com frases como “é só um jogo”, ajudam no desenvolvimento da tolerância à frustração e da resiliência.
Roseli também faz um alerta sobre o ambiente digital. A repetição constante de memes, críticas e vídeos da derrota pode prolongar o sofrimento infantil. Por isso, ela recomenda equilibrar a exposição a esse tipo de conteúdo e incentivar outras atividades, para que a criança compreenda que a tristeza faz parte da experiência, mas não precisa definir seu dia nem sua relação com o esporte.
Jornal de Minas Ltda © Todos direitos reservados CNPJ: 65.412.550/0001-63
