
Substância retirada da maconha pode ajudar no tratamento do Alzheimer
A Conferência da Associação Internacional de Alzheimer (AAIC 2026), que está sendo realizada em Londres, divulga os estudos mais recentes nesse vasto campo de conhecimento. Diante do volume de informações do evento, selecionei aquelas que mais me chamaram a atenção, principalmente porque estão relacionadas a avanços significativos para um grande contingente de pessoas. Os resultados principais do ensaio clínico de Fase 2 do Estudo LiBBY mostraram que a combinação de THC e CBD reduziu de forma consistente a agitação em pessoas nos estágios avançados de Alzheimer e outras demências.
Estudo apresentado na Conferência da Associação Internacional de Alzheimer mostrou que derivados da maconha reduziram a agitação em pessoas em estágios avançados de demência
Gadini para Pixabay
Em primeiro lugar, explicando essa “sopa de letrinhas”: LiBBY é “Life’s End Benefits of cannaBidiol and tetrahYdrocannabinol”, ou seja, “Benefícios do Canabidiol e Tetraidrocanabinol no Fim da Vida”. O tetraidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD) são os dois canabinoides mais estudados da planta Cannabis, a maconha, mas produzem reações distintas no organismo. O THC é um componente psicoativo, isto é, dá um “barato” e altera a percepção, a memória e a coordenação. Já o CBD não é intoxicante. Atua como um modulador, sendo capaz de amortecer e suavizar os efeitos de ansiedade ou paranoia que o excesso de THC pode causar.
Quase 9 em cada 10 participantes que receberam o tratamento tiveram melhora global nos sintomas ao final da experiência, na 12ª. semana. “Este é um ensaio controlado, randomizado e robustamente positivo que representa um grande passo no tratamento de uma população historicamente negligenciada na pesquisa clínica”, afirmou o psiquiatra Jacobo Mintzer, professor da Universidade da Carolina do Sul e investigador principal do estudo. “Agora temos evidências que apoiam uma abordagem nova e eficaz para a agitação, que pode ser indicada para pessoas nos estágios finais da demência, oferecendo-lhes dignidade e paz em um momento que é extremamente difícil para os pacientes e suas famílias”, acrescentou.
O estudo multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliou uma nova formulação oral (2 mg de THC / 100 mg de CBD dissolvidos em óleo digestível, fornecidos duas vezes ao dia) em 120 participantes com demência que apresentavam agitação clinicamente relevante. Tal arcabouço foi desenhado para blindar a ciência contra manipulações. Se um tratamento passa por esse teste e mostra benefício, a medicina ganha uma evidência sólida para começar a prescrevê-lo com segurança. Para se ter uma ideia, esse é o padrão-ouro de uma pesquisa:
Multicêntrico: significa que foi realizado em diversos hospitais e centros de pesquisa, uma indicação de sua amplitude.
Randomizado: vem do inglês random (aleatório). A divisão dos participantes foi feita por sorteio – geralmente por um programa de computador. Os pacientes são divididos em dois grupos: o que vai receber o remédio de verdade e o que vai consumir uma substância sem efeito (placebo).
Placebo: uma substância completamente inofensiva e sem efeito. Nesse caso, um óleo digestivo comum com o mesmo cheiro e sabor, mas sem os componentes THC e CBD.
Duplo-cego: nem o paciente e nem o médico/pesquisador que está aplicando o tratamento sabem quem está tomando o remédio real e quem está tomando o falso.
As principais descobertas:
Na Semana 2: os participantes que receberam THC/CBD exibiram uma redução 6,27 pontos maior nas pontuações de agitação do que os que receberam placebo, indicando um alívio rápido dos sintomas.
Na Semana 12: os benefícios se mantiveram, com o grupo que recebeu THC/CBD apresentando uma redução 8,23 pontos maior nas pontuações de agitação do que o grupo placebo.
Melhora global avaliada pelo médico: na Semana 2, 83,9% do grupo tratado apresentaram melhora, em comparação com 30,5% no grupo placebo. Na Semana 12, 87,2% do grupo tratado manifestaram melhora versus 23,6% no grupo placebo.
A agitação afeta cerca de metade das pessoas que vivem com demência perto do fim da vida, e mais de um terço continua a ter sintomas apesar do tratamento com benzodiazepínicos, opioides e antipsicóticos – terapias que trazem riscos significativos. Como os indivíduos nos estágios avançados da doença perdem a capacidade de se comunicar, a agitação muitas vezes serve como um sinal comportamental de desconforto físico, medo ou necessidades não atendidas. Os sintomas podem incluir: andar de um lado para o outro; movimentos repetitivos; explosões vocais altas e repentinas ou chamar continuamente; frases repetitivas; lamentos ou gemidos; hostilidade verbal; bater, chutar, arranhar, morder ou empurrar; atirar ou destruir objetos.
A enfermeira Brigid Reynolds, coinvestigadora principal do trabalho, observou: “Um dos aspectos mais importantes dessas descobertas é o potencial de proporcionar uma experiência mais humana e digna para pacientes e famílias. Reduzir a agitação ajuda a restaurar uma sensação de calma e conforto em um momento muito vulnerável. Comprovar o benefício claro do THC/CBD sobre o placebo pode trazer esperança para milhões.”
Estudo de US$ 100 milhões para prevenir o declínio cognitivo
A Associação de Alzheimer também anunciou o lançamento do Estudo PROTECT-Cog (“Prevention of Risk fOr cogniTive dEcline through Combined Therapy”) – em português, “Prevenção de Risco de Declínio Cognitivo por Meio de Terapia Combinada”. Trata-se de um ensaio clínico global inédito, com um orçamento de US$ 100 milhões (cerca de R$ 510 milhões), com um objetivo ambicioso: avaliar se a combinação de uma intervenção no estilo de vida com um medicamento focado no metabolismo, como um agonista de GLP-1, pode reduzir ainda mais o risco de declínio cognitivo, comprometimento cognitivo leve e demência em idosos em situação de vulnerabilidade.
Um número crescente de pesquisas indica que fatores – incluindo atividade física, nutrição, saúde cardiovascular, sono e engajamento social – desempenham um papel crítico na saúde cerebral e no risco de demência. O estudo U.S. POINTER já havia demonstrado que uma população representativa de idosos norte-americanos em situação vulnerável que seguiu uma intervenção estruturada de estilo de vida experimentou benefícios cognitivos significativos. As melhorias foram equivalentes a uma vantagem cognitiva de um a dois anos de vantagem cognitiva, juntamente com benefícios adicionais na redução da fragilidade e da apneia do sono, e na melhoria da regulação da pressão arterial.
Ao mesmo tempo, evidências emergentes sugerem que os agonistas dos receptores de GLP-1 – classe de medicamentos que inclui os populares antiobesidade – podem reduzir o risco de demência em 40% a 70% em comparação com outros remédios para diabetes. Pesquisas sugerem, inclusive, que eles são mais protetores contra a demência em pacientes com obesidade ou índice de massa corporal (IMC) elevado. O PROTECT-Cog recrutará idosos que apresentam risco aumentado de declínio cognitivo e comparará duas abordagens de intervenção no estilo de vida: um programa estruturado com acompanhamento e suporte intensivos e um programa simplificado com o mesmo conteúdo central, mas com menos pontos de contato com os participantes. Os participantes serão acompanhados por três anos, com avaliações cognitivas e de saúde realizadas a cada seis meses.
Jornal de Minas Ltda © Todos direitos reservados CNPJ: 65.412.550/0001-63
