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Cientistas da USP criam teste que detecta superbactéria em 6 horas e encurta o diagnóstico em até três dias

por Gilberto Cruz
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Um paciente entra em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e faz uma coleta de rotina para descobrir se carrega, no intestino, uma das bactérias mais temidas da medicina. Pelo método tradicional, a resposta leva de dois a três dias.
Durante a espera, ele fica isolado por precaução —ocupa um leito reservado, consome aventais e luvas— antes que a equipe saiba se o cuidado extra é mesmo necessário. E, se for portador, pode transmitir a bactéria em silêncio a outros pacientes vulneráveis nesse intervalo.
Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) desenvolveram e validaram uma estratégia que comprime essa espera para seis horas.
O trabalho, reunido em quatro estudos publicados em três periódicos científicos internacionais, mostra que um teste rápido de baixo custo —parecido com os de farmácia para Covid-19 ou gravidez— consegue apontar quem carrega esses microrganismos e cortar até 60 horas do diagnóstico convencional.
A ressalva que os próprios autores fazem questão de sublinhar é que essa velocidade não se converte automaticamente em menos contágio.
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As ‘superbactérias’ e por que assustam
As chamadas Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos (ERC) não são uma única bactéria, mas um grupo de micróbios intestinais comuns —como a Klebsiella pneumoniae e a Escherichia coli— que se tornaram resistentes aos carbapenêmicos, antibióticos reservados para as infecções mais graves. A Organização Mundial da Saúde (OMS) as classifica como ameaça de prioridade crítica à saúde humana.
Quando uma dessas bactérias deixa de apenas habitar o intestino e invade a corrente sanguínea, o pulmão ou o trato urinário de um paciente grave, as opções de tratamento encolhem.
O resultado é um atraso no início da terapia eficaz, internações mais longas e um risco de morte que dispara.
No Brasil, entre casos de sepse com confirmação laboratorial, infecções por ERC foram associadas a uma mortalidade de 63,8%, ante 33,4% nas sepses causadas por outras bactérias.
O infectologista Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da FMUSP e um dos autores dos estudos, explica que a resistência bacteriana —somadas todas as bactérias resistentes— esteve associada a mais de 4,7 milhões de mortes no mundo em 2021, segundo estimativa da OMS.
Nas infecções mais graves por ERC, como as da corrente sanguínea, a letalidade costuma variar de 30% a 50%, conforme o perfil do paciente e a rapidez do tratamento adequado.
Colonizado não é o mesmo que infectado
Boa parte das pessoas que carregam a bactéria não apresenta sintoma algum —é o que a medicina chama de colonização. O micróbio está presente, em geral no intestino, mas não provoca doença, e o paciente colonizado não precisa necessariamente de antibiótico.
O quadro muda quando esse paciente está internado e, sobretudo, quando está gravemente doente, imunossuprimido ou depende de dispositivos invasivos, como cateter venoso, sonda urinária ou ventilação mecânica.
Nessas condições, a mesma bactéria que apenas convivia com o organismo pode causar uma infecção. E pode ainda passar de um paciente a outro —pelas mãos dos profissionais de saúde, por equipamentos ou pelo próprio ambiente hospitalar.
É por isso que as UTIs testam quem chega.
Como funciona o teste

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O método parte de uma amostra coletada por swab retal, uma haste semelhante a um cotonete. Em vez de esperar a bactéria crescer em uma cultura de laboratório, o que consome dias, a amostra é mergulhada em um caldo nutritivo por apenas seis horas.
Depois, o material é aplicado diretamente no teste imunocromatográfico, que revela, por uma reação parecida com a dos testes de farmácia, se há produção das enzimas que destroem os antibióticos —as carbapenemases— e qual delas está presente.
Esse último dado tem peso operacional: saber que enzima o paciente carrega ajuda a equipe de controle de infecção a decidir se basta o isolamento ou se convém rastrear outros pacientes, sobretudo quando surge um tipo incomum na região. No Brasil, a enzima KPC responde pela ampla maioria dos casos.
Para Salomão, é a combinação de rapidez, simplicidade e baixo custo que dá ao teste seu maior trunfo.
“Ele entrega a velocidade de um teste molecular caro por uma fração do preço e sem depender de máquinas complexas. Isso abre a porta para que qualquer hospital público ou laboratório com poucos recursos, no Brasil e no mundo, identifique portadores mais cedo, economize ao suspender isolamentos desnecessários e proteja quem está internado”, afirma.
O que os estudos mostraram
A validação percorreu etapas.
Primeiro, em laboratório, o teste alcançou 100% de sensibilidade e especificidade para as cinco enzimas mais comuns quando as amostras foram incubadas por seis horas.
Depois, aplicado a amostras reais de pacientes de UTI, o desempenho variou conforme a qualidade do material: a sensibilidade ficou em 65% no conjunto geral, mas subiu para cerca de 82% quando o swab trazia quantidade adequada de fezes —um lembrete de que a técnica de coleta influencia o resultado.
O passo mais revelador veio quando os pesquisadores mediram o efeito da nova rotina dentro de duas UTIs. O teste rápido derrubou o tempo até o diagnóstico e permitiu suspender mais cedo os isolamentos preventivos: a espera para retirar da precaução um paciente que não era portador caiu de 47 para 23 horas.
Ainda assim, o número de pacientes que adquiriram a bactéria durante a internação não recuou de forma estatisticamente significativa.
Salomão não lê o resultado como fracasso, e sim como um recorte do problema. O teste faz uma parte do trabalho, não o trabalho inteiro.
“O diagnóstico rápido cria uma janela para agir mais cedo. O benefício final, porém, depende da qualidade das medidas tomadas a partir daquele resultado”, diz.
Ele pondera que a nova estratégia manteve a mesma capacidade de controle do sistema de vigilância por cultura usado havia cerca de dez anos no hospital, só que entregando a resposta dois ou três dias antes —o que sugere que o teste pode substituir o método convencional em determinados cenários.
Um quarto estudo, dedicado aos fatores de risco, ajuda a explicar por que identificar cedo não resolve tudo.
A análise de 751 pacientes mostrou que a colonização já presente na chegada à UTI se associa a internações recentes e a transferências entre hospitais, enquanto a aquisição da bactéria durante a internação está ligada ao uso de antibióticos de amplo espectro, à sonda urinária e, principalmente, à pressão de colonização —a proporção de pacientes já colonizados na mesma unidade.
Onde essa pressão é alta, os autores observaram que as precauções de contato, isoladamente, podem não dar conta.
Quem se beneficia e quanto custa
O maior ganho potencial está nos setores que reúnem pacientes de alto risco e nos quais uma transmissão tem consequências mais graves: UTIs, unidades de transplante, hematologia, oncologia e unidades de queimados, além de pacientes transferidos de outros serviços ou com histórico de colonização.
O teste imunocromatográfico é mais simples e tende a custar bem menos que os moleculares, como o PCR —rápidos e precisos, mas caros e dependentes de equipamentos complexos, barreira que os torna inviáveis para boa parte da rede pública.
Nas contas dos pesquisadores, embora a cultura convencional seja o exame individualmente mais barato, o teste rápido reduz os dias de isolamento desnecessário e pode gerar economia semanal estimada entre 2,4 mil e 3,9 mil dólares a cada 100 leitos de UTI.
Salomão vê espaço para a incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo em hospitais com grande circulação dessas bactérias. O caminho, porém, não é automático: a tecnologia precisaria estar regularizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e passar pela avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que pesa desempenho, benefício clínico, custo-efetividade e impacto no orçamento.
Só depois de eventual aprovação viriam o planejamento de compra, a distribuição e a capacitação dos laboratórios.
A engrenagem maior
Na avaliação de Salomão, o teste age em um ponto sensível: encurtar o intervalo entre coletar a amostra, reconhecer o risco e tomar uma decisão. “É uma mudança incremental, mas com potencial de transformação quando bem incorporada à vigilância. O teste isolado não elimina surtos — o que ele muda é a velocidade com que o hospital reconhece e responde a eles”, afirma.
Essa velocidade, contudo, só vira proteção se estiver amarrada a outras medidas. “Nenhum teste controla a transmissão sozinho. O resultado precisa estar ligado à higiene das mãos, às precauções de contato, à limpeza do ambiente, ao dimensionamento das equipes e ao uso racional de antibióticos”, diz o infectologista.
O controle das superbactérias, resume, não cabe em uma única ferramenta —depende de combinar diagnóstico, prevenção, vigilância e melhores condições de assistência.

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