
Canetas antes da bariátrica não trazem perda de peso adicional após um ano, diz estudo
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O uso de medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, antes de uma cirurgia bariátrica não deve aumentar – nem prejudicar — a perda de peso obtida com o procedimento. A conclusão é apontada por um estudo com 383 pacientes publicado nesta quarta-feira (12) na revista científica “JAMA Surgery”.
Após 12 meses, pacientes que usavam esses medicamentos antes da operação haviam perdido, em média, 24% do peso corporal, enquanto aqueles que não faziam uso perderam 25%. A diferença não foi estatisticamente significativa. Em quilos, as perdas médias foram de 30 kg e 32 kg, respectivamente.
O trabalho, realizado por pesquisadores ligados à Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF) e ao Cleveland Clinic Martin North Hospital, na Flórida, investigou justamente uma questão que ganhou importância com a expansão do uso dos agonistas de GLP-1: o que acontece quando uma pessoa que já utiliza esse tipo de medicamento decide fazer uma cirurgia bariátrica?
Segundo os autores, embora cada vez mais pacientes cheguem à cirurgia usando essas medicações, ainda não está claro como a exposição aos agonistas de GLP-1 antes da operação influencia a perda de peso posterior. O material de divulgação do artigo descreve o trabalho como um estudo de coorte destinado a investigar a associação entre a perda de peso após a bariátrica e o uso pré-operatório desses medicamentos.
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Um em cada quatro pacientes usava GLP-1 antes da cirurgia
Os pesquisadores analisaram retrospectivamente todos os pacientes submetidos a uma primeira cirurgia bariátrica no centro estudado entre 2022 e 2024.
Ao todo, foram avaliadas 383 pessoas. Dessas, 92 — o equivalente a 24% — usavam um agonista do receptor de GLP-1 antes da operação.
A semaglutida injetável era a medicação mais frequente: 58 dos 92 pacientes, ou 63% do grupo, utilizavam o medicamento semanalmente.
Também havia pacientes usando:
liraglutida: 20 pessoas (22%);
dulaglutida: 7 (8%);
tirzepatida: 4 (4%);
semaglutida oral: 3 (3%).
A maioria não estava utilizando a dose máxima dos medicamentos. Os pesquisadores incluíram a tirzepatida no grupo dos agonistas de GLP-1, embora o próprio artigo a descreva como um agonista duplo dos receptores de GLP-1 e GIP.
Para os pacientes que utilizavam esses medicamentos, a equipe recomendava a interrupção do tratamento depois da cirurgia para prevenir vômitos.
Perda de peso foi praticamente a mesma
O principal objetivo dos pesquisadores era descobrir se o uso dessas medicações antes da bariátrica estava associado a uma diferença na porcentagem total de peso corporal perdida 12 meses depois da operação.
O resultado não mostrou vantagem significativa para quem já chegava ao procedimento utilizando GLP-1.
Depois de um ano, os pacientes que haviam usado esses medicamentos perderam, em média, 24% do peso corporal total, ante 25% entre os que não haviam utilizado. A análise estatística indicou que a diferença poderia ser atribuída ao acaso.
Quando os pesquisadores analisaram a perda do excesso de peso, o cenário foi semelhante: 60% entre quem usava GLP-1 antes da cirurgia e 62% no grupo que não utilizava. Novamente, não houve diferença estatisticamente significativa (P = 0,65).
Em valores absolutos, os pacientes que haviam utilizado GLP-1 perderam, em média, 30 kg no primeiro ano depois da cirurgia, contra 32 kg no outro grupo. A diferença também não foi significativa.
O acompanhamento dos participantes aos 12 meses chegou a 88%.
Resultado se manteve mesmo após ajustes
Uma das dificuldades desse tipo de comparação é que os dois grupos não eram idênticos.
Embora apresentassem idade, IMC, sexo e diversas outras características semelhantes, havia diferenças importantes.
O diabetes tipo 2, por exemplo, estava presente em 51% dos pacientes que utilizavam GLP-1, contra 16% daqueles que não utilizavam. A hemoglobina A1c média também era maior no primeiro grupo: 6,5%, ante 5,7%.
Já o tabagismo nos 12 meses anteriores era menos frequente entre os usuários dos medicamentos: 3% contra 11%. A composição racial dos dois grupos também apresentava diferenças.
Por isso, os pesquisadores realizaram uma análise levando em consideração fatores como idade, IMC, sexo, raça e etnia, diabetes, tabagismo e tipo de cirurgia.
Mesmo depois desses ajustes, o uso de agonistas de GLP-1 antes da bariátrica não apareceu como um fator capaz de prever a porcentagem de peso total perdida aos 12 meses.
Na análise, um IMC inicial mais elevado e o sexo masculino foram associados independentemente a uma maior porcentagem de perda de peso total aos 12 meses.
Diabetes e a realização de gastrectomia vertical (sleeve), por sua vez, foram associados a uma perda percentual menor.
Sem diferença nas complicações
Os pesquisadores também procuraram saber se o uso prévio desses medicamentos poderia estar relacionado a outros resultados da cirurgia.
Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos no tempo da operação, duração da internação, procura por atendimento em pronto-socorro nos primeiros 30 dias ou complicações.
O controle do diabetes, avaliado pela hemoglobina A1c, também foi semelhante depois de um ano.
A média do indicador ficou em 5,4% entre os pacientes que haviam usado GLP-1 e 5,3% entre os demais, sem diferença estatisticamente significativa.
Alguns pacientes voltaram a usar os medicamentos
A maioria dos participantes não utilizou agonistas de GLP-1 durante os 12 meses seguintes à cirurgia, mas 15 pacientes retomaram o tratamento.
Cinco voltaram a utilizar a medicação para controlar o diabetes, oito para controle do peso e, em dois casos, o motivo não pôde ser determinado.
Nesse pequeno grupo, a perda média de peso corporal total aos 12 meses foi de 22%. O resultado também não apresentou diferença estatisticamente significativa em relação aos 25% registrados entre os pacientes que não usavam agonistas de GLP-1.
Medicamento antes da cirurgia não mostrou benefício adicional
Na discussão dos resultados, os pesquisadores afirmam que a popularização dos agonistas do receptor de GLP-1 para o tratamento da obesidade levantou dúvidas sobre uma possível combinação dos efeitos desses medicamentos com os da cirurgia bariátrica.
Os dados deste trabalho, no entanto, indicam que usar GLP-1 antes da operação não aumentou nem reduziu a perda de peso proporcionada pela cirurgia durante o primeiro ano após o procedimento.
Os autores afirmam que os resultados são compatíveis com outros dois estudos citados no artigo, que também não encontraram diferenças na porcentagem de perda de peso total aos 12 meses após a bariátrica entre usuários pré-operatórios de GLP-1 e pacientes do grupo de comparação.
O artigo menciona ainda um terceiro trabalho, no qual pacientes que perderam aproximadamente 4% do peso corporal usando semaglutida antes da cirurgia posteriormente perderam menos peso com a operação do que pacientes semelhantes sem histórico de uso de GLP-1.
No entanto, aos 12 meses, a perda total de peso dos dois grupos acabou sendo semelhante. Nesse estudo anterior, os autores concluíram que usar GLP-1 como estratégia antes da cirurgia não trouxe benefício adicional em relação à operação isoladamente.
Estudo tem limitações
Os próprios pesquisadores destacam limitações importantes que impedem conclusões mais amplas.
Uma delas é que não foi possível quantificar quanto peso os pacientes haviam perdido com os medicamentos antes da cirurgia. Isso significa que o estudo não permite avaliar toda a trajetória de emagrecimento desde o início do tratamento medicamentoso até um ano após a operação.
A equipe também não conseguiu determinar com precisão, nos prontuários médicos, quando cada paciente começou a utilizar os agonistas de GLP-1. Dessa forma, não foi possível avaliar se a duração do tratamento antes da cirurgia interferiu nos resultados.
Além disso, o número de participantes não era suficiente para análises detalhadas separando os dois procedimentos realizados — gastrectomia vertical e bypass gástrico em Y de Roux. Assim, os pesquisadores não conseguiram determinar se o efeito do uso pré-operatório dos medicamentos poderia variar conforme a técnica cirúrgica.
Dos 383 participantes, 332 fizeram gastrectomia vertical: 256 entre os que não utilizavam GLP-1 e 76 entre os usuários. Outros 51 fizeram bypass gástrico: 35 e 16, respectivamente.
Segundo os autores, serão necessárias novas pesquisas para descobrir qual é a melhor sequência e combinação entre a cirurgia bariátrica e os agonistas do receptor de GLP-1 para maximizar a perda de peso.
O estudo foi aceito para publicação em 4 de junho e publicado on-line em 12 de agosto de 2026 no JAMA Surgery. Os autores declararam não ter conflitos de interesse. O trabalho também foi apresentado em fevereiro no encontro da Pacific Coast Surgical Association, no Havaí.
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