Atraso na menstruação tem relação com alterações hormônais e do estilo de vida
Agência Canarinho/G1
Se a sua menstruação atrasou por esses dias, a culpa não é de uma frequência escondida na atmosfera nem de um acelerador de partículas na Europa.
Se você está nas redes sociais, provavelmente foi impactado com dois vídeos que alegam que mulheres ao redor do mundo estariam com o ciclo menstrual atrasado. Apesar de fisgar quem assiste com a mesma coisa, eles trazem respostas diferentes para essa “coincidência” mundial:
O primeiro deles diz que há uma relação com a ressonância de Schumann, fenômeno ondulatório que existe na ionosfera há bilhões de anos. Com o aumento de tempestades solares, as ondas dessa ressonância estariam afetando o corpo humano.
O outro alega que tem a ver com o LHC, do CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear. Ele é o maior e mais potente acelerador de partículas do mundo. A explicação que a pessoa no vídeo traz é que o experimento europeu seria capaz de alterar o tempo fora dele.
➡️ Mas, será? O g1 conversou com dois físicos, entre eles uma pesquisadora que atuou no CERN, e a resposta é a mesma: não existe qualquer evidência de que esses fenômenos possam alterar qualquer processo no corpo humano.
A ressonância que existe, mas não faz o que dizem
A ressonância de Schumann é real — isso ninguém discute. Ela acontece na ionosfera, camada da atmosfera entre 60 mil e 70 mil quilômetros de altitude, onde descargas elétricas acontecem o tempo todo e ficam ricocheteando entre a superfície e a parte de baixo dessa camada.
Para o professor de física pela Universidade de São Paulo (USP) Emerson Bezerra Conceição Junior, o problema começa na lógica do argumento. Se bastasse uma vibração da natureza para mexer com o corpo, ondas de rádio e microondas — presentes no ambiente o tempo todo — deveriam causar o mesmo efeito, e isso não acontece.
Ele explica que a ionosfera recebe esse nome porque é bombardeada por radiação solar bem forte, capaz de arrancar elétrons dos átomos que existem lá em cima — um processo chamado ionização.
Só que a ressonância em si é outra coisa: é uma onda fraca, de baixa frequência, que não tem energia para arrancar elétron de nada.
Se ressonância afetasse o corpo humano, microondas também afetariam
Freepik
Ela não ioniza — e é isso que a diferencia de um raio-X ou da radiação gama, que sim, têm força suficiente para alterar átomos e células do corpo humano. Por isso, a ressonância de Schumann não afeta o organismo, assim como ondas de rádio e micro-ondas também não afetam.
“Beira a loucura dizer que a ressonância está afetando o corpo humano. Não existe qualquer evidência de isso aconteça. Se acontecesse, com décadas de pesquisa, nós já saberíamos”, explica Emerson Bezerra.
No vídeo, a explicação que se dá é que agora isso estaria acontecendo porque há mais tempestades solares. O professor explica que a ionosfera pode variar de fato, quando há tempestades elétricas fortes ou explosões solares intensas. Mas mesmo assim, , o que muda é a intensidade do sinal, não sua frequência – o que faz com que ainda seja inofensiva ao ser humano.
LHC está desativado e volta a operar em 2030
Divulgação
O acelerador de partículas mudou o tempo e atrasou seu ciclo?
O segundo vídeo troca a atmosfera pelo maior experimento de física do planeta: o acelerador de partículas LHC.
O LHC (sigla em inglês para Grande Colisor de Hádrons) é um túnel circular de 27 quilômetros de extensão, construído pelo CERN na fronteira entre França e Suíça, cerca de 100 metros abaixo do solo.
Físicos conseguem transformar chumbo em ouro em experimento com acelerador de partículas
Entrou em operação em 2008 e, desde então, acelera partículas subatômicas a velocidades próximas à da luz para provocar colisões entre elas — um jeito de recriar, em laboratório, condições parecidas com as dos primeiros instantes do universo.
É verdade que, dentro do túnel, o tempo passa de forma diferente para essas partículas em altíssima velocidade. Mas isso não afeta a realidade fora dele. Do contrário, teríamos informações sobre isso há pelo menos 18 anos, desde que ele entrou em operação.
No vídeo, a pessoa explica que o LHC foi desativado no dia 29 de junho e que, depois disso, o tempo começou a correr de forma diferente, o que ocasionou o atraso no ciclo menstrual.
O LHC não funciona continuamente, mas em ciclos intercalados por longas paradas de manutenção, desde a sua inauguração. Agora, em junho de 2026, o ciclo atual foi encerrado e ele entra numa nova fase de atualização, batizada de Long Shutdown 3. Agora, ele só deve operar de novo em 2030.
A física Gabriela Bailas, que já atuou no CERN, diz que a explicação foge da realidade e que os experimentos no LHC não podem mudar o tempo fora dele.
“O LHC não altera o espaço-tempo, não tem como o que acontece no experimento afetar a vida fora dele. De tempos em tempos os estudos são pausados para novas rodadas, desde sempre, e isso não cria qualquer interferência sobre como sentimos o tempo”, explica.
Agora no g1
Por que então você pode ter sentido essa diferença por aí?
O ginecologista Marcelo Steiner explica que o eixo hormonal que rege o ciclo menstrual é sensível a uma série de fatores — e nenhum deles tem relação com fenômenos da atmosfera ou aceleradores de partículas. Segundo ele, os principais responsáveis por irregularidades no ciclo são:
Estresse e questões emocionais, já que o hipotálamo é bastante sensível ao sistema límbico, área do cérebro ligada às emoções
Alterações na tireoide, controlada pela hipófise, glândula que também participa desse eixo hormonal
Déficit energético, ligado a baixa ingestão calórica ou gasto físico muito alto
Síndrome do ovário policístico (SOP), condição ovariana comum por trás de ciclos irregulares
Sobrepeso, obesidade e má alimentantação
Para Steiner, esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que tantas mulheres relatam atrasos ao mesmo tempo — e por que é tão fácil um vídeo viral “acertar” o sintoma de quem assiste.
“O ciclo pode ter muitas variáveis, então as pessoas jogam esse tipo de coisa sobre o ciclo porque é fácil ter mulheres com algum atraso. E aí gera esse efeito de reconhecimento coletivo. Mas não há nenhuma evidência de que qualquer coisa dessa possa alterar o ciclo de uma mulher”, explica.
Se você percebeu alguma alteração no seu ciclo, a orientação é buscar ajuda médica..
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