Brasil terá 1º centro de protonterapia, técnica de precisão contra o câncer; paciente do SUS, porém, ainda vai esperar anos

Brasil terá 1º centro de protonterapia, técnica de precisão contra o câncer; paciente do SUS, porém, ainda vai esperar anos


Centro de protonterapia
Cortesia/IBA
O Brasil deu o primeiro passo para oferecer um dos tratamentos mais precisos que existem contra o câncer. Mas quem enfrenta a doença hoje não verá nada mudar tão cedo.
A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), aprovou um financiamento de R$ 132,6 milhões para ajudar a erguer o primeiro centro de protonterapia do país —uma modalidade de radioterapia considerada mais precisa do que a convencional em casos específicos.
A unidade, batizada de Centro de Protonterapia Mário Kroeff, será instalada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
O anúncio, porém, está longe de significar tratamento disponível. O centro ainda será construído, o equipamento virá da Bélgica e a previsão é atender os primeiros pacientes apenas em 2030.
Mesmo depois disso, o Ministério da Saúde ainda precisará decidir se incorpora a tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS) e definir como será o acesso —quem terá prioridade, como os pacientes serão encaminhados e se o sistema público vai custear transporte e hospedagem para quem mora longe do Rio.
Hoje, quem precisa de protonterapia tem de sair do Brasil. Segundo os responsáveis pelo projeto, de 20 a 30 brasileiros viajam todos os meses para se tratar no exterior, a um custo de R$ 765 mil (US$ 150 mil) a R$ 1,02 milhão (US$ 200 mil) por tratamento.
O centro será administrado pela Fundação Educacional Severino Sombra (FUSVE), em parceria técnica com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). O dinheiro da Finep cobre apenas parte da conta: somado à contrapartida de R$ 82,4 milhões da própria fundação, o aporte chega a R$ 215 milhões, de um custo total estimado em cerca de R$ 400 milhões.
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O que muda para quem tem câncer hoje
A construção ainda não começou. O projeto está na fase de engenharia, enquanto o equipamento apenas começa a ser fabricado pela empresa belga IBA. A área de 15 mil metros quadrados no Rio já foi comprada, mas o terreno ainda está vazio.
A máquina só deve chegar ao país no segundo semestre de 2029 e ainda levará cerca de um ano para ser instalada, testada e liberada antes de atender o primeiro paciente.
Também não há, por enquanto, garantia de tratamento gratuito. O projeto prevê reservar ao menos 60% da capacidade do centro para a rede pública, mas isso depende de uma decisão do Ministério da Saúde.
A entrada de novas tecnologias no sistema passa pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) —e só depois desse aval será possível definir quais pacientes terão indicação e como chegarão até o Rio.
Procurado pelo g1, o Ministério da Saúde afirma considerar positiva a chegada da tecnologia ao país, mas ressalva que a protonterapia ainda não foi formalmente apresentada à Conitec. Quando a submissão ocorrer, informou a pasta, a proposta será avaliada segundo o rito comum de incorporação, que considera segurança, eficácia, efetividade e custo-efetividade.
Afinal, o que é protonterapia?
Centro de protonterapia
Cortesia/IBA
Embora seja uma forma de radioterapia, a protonterapia se distingue pela partícula usada para destruir o tumor.
Quase toda radioterapia feita hoje usa fótons —os mesmos raios X dos exames de imagem, só que em doses muito maiores. Esses feixes entram no corpo, atravessam o tumor e seguem adiante, irradiando também os tecidos saudáveis que estão atrás dele.
A protonterapia troca os fótons por prótons, partículas com uma propriedade física peculiar: conseguem concentrar a maior parte da radiação exatamente no tumor e praticamente não continuam o percurso depois dele.
“O fóton atravessa o corpo e não tem freio: vai perdendo potência pelo caminho, mas segue em frente. O próton, não —ele chega ao tumor e para ali. Essa capacidade de frear é muito útil para o radioterapeuta”, explica Marcos Santos, radioterapeuta que atua em Goiânia e ex-presidente da Associação Ibero-Latino-Americana de Terapia Radiante Oncológica (Alatro).
Esse comportamento tem nome: pico de Bragg. É ele que permite depositar a dose no alvo e poupar o que está em volta.
Por que as crianças são a prioridade
Ser mais precisa, no entanto, não faz da protonterapia um tratamento superior para todos. Para a maioria, a radioterapia comum continua sendo a indicação —e não é, de forma alguma, uma opção inferior. O maior equívoco em torno da técnica, segundo Santos, é imaginar que os prótons vieram para substituir os fótons.
“Custar vinte vezes mais não significa ser vinte vezes melhor. É em um grupo específico de pacientes que a técnica realmente faz diferença: as crianças”, afirma.
O ganho aparece sobretudo em tumores pediátricos, especialmente os que ficam perto do cérebro, da medula espinhal ou de outros órgãos sensíveis à radiação.
Como a criança ainda está em formação e, se curada, tem décadas de vida pela frente, reduzir a exposição dos tecidos sadios pode evitar sequelas que só apareceriam anos depois: problemas de crescimento, alterações hormonais e cognitivas, infertilidade e até um segundo câncer provocado pela própria radiação.
“Não é que não cause dano. Causa menos dano, e por isso provoca menos efeitos a médio e longo prazo”, resume o especialista.
O centro nascerá com foco em sete tipos de câncer infantil que exigem esse nível de precisão, entre eles o meduloblastoma, o retinoblastoma e o glioma.
O Brasil registra cerca de 8,6 mil novos casos de câncer em crianças e adolescentes por ano; a estimativa do projeto é que perto de 15% tenham indicação para prótons.
Adultos com tumores complexos, tumores próximos a órgãos vitais ou que precisem de uma segunda irradiação também poderão ser atendidos, mas só depois de suprida a demanda pediátrica.
Mais qualidade de vida; não necessariamente mais cura
A protonterapia costuma ser apresentada como um tratamento mais moderno, o que leva à conclusão apressada de que ela cura mais. As evidências mais sólidas apontam outra coisa: menos efeitos colaterais e melhor preservação dos tecidos saudáveis.
“A redução dos efeitos secundários está bastante clara. Se isso se traduz numa maior chance de cura, ainda precisa ser rigorosamente comprovado”, pondera Santos.
A Finep, ao anunciar o centro, afirma que a protonterapia reduz em até 60% a dose total de radiação recebida pelo corpo, na comparação com a radioterapia convencional. O número, porém, não se aplica a todos os casos: segundo o diretor técnico do projeto, o físico-médico Hélio Salmon, essa economia varia conforme a região tratada e é apenas uma estimativa, já que cada paciente é único.
Em alguns tumores infantis do sistema nervoso central, pesquisadores acreditam que a menor toxicidade permita aplicar doses mais altas de radiação e, no futuro, talvez melhorar os resultados — hipótese ainda em estudo.
Imagem meramente ilustrativa do futuro Centro de Protonterapia Mario Kroeff
Divulgação
Um tratamento caro
Embora aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há anos, a protonterapia nunca havia saído do papel no Brasil. O motivo é o custo.
Além do acelerador de partículas, a tecnologia exige um prédio altamente especializado, blindagem contra radiação, manutenção complexa e equipes treinadas especificamente para operá-la. Só a manutenção do futuro centro deve custar cerca de US$ 1,2 milhão por mês.
“Com o valor de um centro de prótons, você constrói uns vinte serviços convencionais de radioterapia”, compara Santos.
Esse custo ajuda a entender por que a técnica é rara no mundo —são cerca de 142 centros em operação— e por que a América Latina ainda não tem nenhum funcionando.
Ainda assim, Santos defende que o investimento se justifica quando bem direcionado. Segundo ele, um único centro tem capacidade para tratar cerca de 600 crianças por ano e, ao longo de duas décadas de uso, dilui o custo por paciente a um patamar que o SUS já paga por outras terapias oncológicas.
Um centro não basta
Uma só unidade, na Barra da Tijuca, não dá conta de um país continental. O próprio projeto já prevê uma segunda sala de tratamento e estima que seriam necessárias cinco salas apenas para a demanda pediátrica nacional.
Para Santos, o desafio maior começa depois da obra: será preciso montar uma rede nacional capaz de identificar rapidamente as crianças que se beneficiam da técnica e encaminhá-las ao Rio.
“Hoje essas crianças são tratadas com fótons, que não é o melhor tratamento para elas. Vai ser preciso criar uma rede de encaminhamento e priorizar esses casos”, afirma.
O licenciamento nuclear da unidade está sob análise da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), que já iniciou as tratativas com a fundação —mais uma etapa a cumprir antes de a máquina entrar em operação.
Mesmo com a inauguração marcada para 2030, o obstáculo final será transformar uma tecnologia inédita em tratamento acessível: dependerá da incorporação pelo SUS, da definição dos critérios de prioridade e da capacidade do sistema de levar quem mais precisa até o único centro do país.
“É uma alternativa interessante, mas muito específica —não é o caso de o Brasil ter dezenas de centros de prótons”, diz Santos. “A iniciativa é louvável. Só lamento que comece apenas em 2030. Deveria ter começado antes.”

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