Smartwatches podem aumentar ansiedade ao monitorar sinais do corpo, diz estudo

Smartwatches podem aumentar ansiedade ao monitorar sinais do corpo, diz estudo


Smartwatches podem aumentar ansiedade ao monitorar sinais do corpo, diz estudo
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Milhões de pessoas usam dispositivos vestíveis para monitorar a saúde e exercícios. Esses aparelhos podem ser úteis para monitorar os níveis de atividade física, a qualidade do sono e a frequência cardíaca. Mas, para algumas pessoas, os dispositivos vestíveis podem ter consequências indesejadas no bem-estar.
Isso é algo que presenciei recentemente. Em uma palestra, conversei com um homem que me contou uma história que ficou na minha memória.
Ele tinha acabado de fazer uma longa caminhada e se sentia ótimo. Então, olhou para o seu smartwatch. Frequência cardíaca: 130 bpm. Pânico instantâneo. Cerca de 30 minutos depois, ele percebeu a causa: a altitude. Mas, naquele momento, ele passou de se sentir perfeitamente bem para se sentir péssimo — tudo por causa da leitura do smartwatch.
Esse homem não está sozinho. Alguns usuários descobriram que seus dispositivos vestíveis aumentavam tanto sua ansiedade que precisaram parar de usá-los.
Agora no g1
Uma das principais razões pelas quais os dispositivos de saúde vestíveis podem aumentar a ansiedade de algumas pessoas se resume a uma incompatibilidade entre a expectativa e o que o dispositivo indica.
Nosso cérebro é uma máquina de previsão. Ele gera e atualiza continuamente e de forma automática um modelo mental do nosso ambiente, comparando suas previsões com as informações sensoriais que recebe.
Processar cada estímulo sensorial do zero seria lento e ineficiente. Ao prever o que espera encontrar, o cérebro consegue interpretar informações sensoriais ruidosas de forma rápida e, geralmente, precisa.
Alguns exemplos disso incluem sentir seu celular vibrar quando você está esperando uma mensagem importante — apenas para descobrir que ele nem sequer tocou. Ou ser capza ed lre etsa farse apesar dos erros de digitação, porque seu cérebro prevê o que deveria estar ali.
O mesmo princípio se aplica aos nossos estados corporais. Nossos cérebros não se limitam a ler os estados corporais, eles os prevêem.
Passamos o dia com um modelo interno do que nosso corpo “deveria” estar fazendo: mais ou menos como nossa pulsação, temperatura e respiração normalmente se sentem quando estamos calmos, ativos ou nervosos.
Quando chega uma informação sensorial que não corresponde a essas expectativas — como ter uma frequência cardíaca mais alta —, o cérebro gera um “erro de previsão”. Isso nos alerta de que a informação sensorial não atende às nossas expectativas.
A maioria dos erros de previsão é trivial e consiste simplesmente em uma incompatibilidade entre a expectativa e a informação recebida. O cérebro frequentemente resolve esses erros automaticamente, atualizando seu modelo e ajustando suas previsões.
Como esse processo geralmente ocorre automaticamente, normalmente não o percebemos. Mas, se ele chegar no nível da nossa consciência, podemos procurar uma explicação para o motivo pelo qual nossas expectativas e nossa experiência diferem.
Portanto, se sua frequência cardíaca parecer mais rápida do que o esperado, você pode associar isso ao fato de ter bebido café em excesso. Como esperamos que nossas sensações corporais variem ao longo do dia, tais explicações podem ser suficientes para evitar que nos preocupemos com o erro de previsão.
O mesmo pode acontecer quando recebemos uma leitura de um dispositivo vestível que vai contra a expectativa. Mas como as leituras dos smartwatches parecem claras e objetivas, podemos dar mais peso a elas e talvez não descartemos uma leitura inesperada tão prontamente. Mesmo que você se sinta perfeitamente bem, ver uma frequência cardíaca elevada no seu smartwatch pode fazer você pensar que algo está errado e dar início a um ciclo de preocupação.
Minha pesquisa sugere que isso pode ser uma preocupação especialmente para pessoas propensas à ansiedade, que já tendem a prestar muita atenção aos sinais internos do corpo.
Uma pesquisa que meus colegas e eu conduzimos durante a pandemia de COVID-19 também descobriu que, quanto mais ansiosa uma pessoa era em geral, mais provável era que ela monitorasse seus estados corporais por meio de medidas objetivas (como medir a temperatura).
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Esse comportamento em pessoas com ansiedade não é surpreendente. A hipervigilância em relação ao corpo pode parecer protetora, uma forma de detectar problemas precocemente e reduzir a incerteza. Mas isso pode levar rapidamente a um ciclo de preocupação e busca por tranquilização.
Quando esse comportamento de busca por segurança é reduzido por meio da terapia, os sintomas de ansiedade tendem a diminuir — pelo menos em parte porque as pessoas ficam menos hiperconcentradas em seus corpos.
No entanto, a relação pode funcionar nos dois sentidos. Nesse mesmo estudo sobre a COVID-19, descobrimos uma ligação bidirecional entre a ansiedade e a atenção aos sinais corporais. Prestar mais atenção aos estados corporais aumentava a ansiedade, e a ansiedade aumentava a atenção aos estados corporais — um ciclo vicioso.
Pesquisas recentes sugerem que dispositivos vestíveis podem amplificar esse ciclo. Em um estudo com pessoas com fibrilação atrial, os monitores de frequência cardíaca foram associados a verificações mais frequentes dos sintomas e a maior ansiedade.
Um estudo maior, envolvendo uma amostra aleatória de cerca de 500 usuários de smartwatches, encontrou um padrão semelhante. As pessoas relataram sentir ansiedade quando seus dados fisiológicos pareciam anormais.
Alguns participantes chegaram a relatar sentir-se dependentes de seu monitor de saúde e ficavam frustrados quando não podiam usar o dispositivo ou se esqueciam de fazê-lo. Alguns reconheceram esse efeito e consideraram abandonar o dispositivo por completo.
Os dispositivos vestíveis, no entanto, não parecem ter o mesmo efeito em todas as pessoas. Para alguns, essas informações podem ser tranquilizadoras e até reduzir a ansiedade.
Fundamentalmente, não sabemos por que, para alguns, os dispositivos vestíveis proporcionam tranquilidade, enquanto para outros aumentam a ansiedade.
Evitando a ansiedade relacionada à saúde
Existem muitas razões pelas quais as pessoas podem querer usar dispositivos vestíveis. Muitas vezes, é porque essas informações de saúde podem ser úteis — como nos alertar sobre problemas que, de outra forma, poderíamos deixar passar. Mas monitorar o corpo dessa maneira também pode, às vezes, nos fazer sentir pior.
Em conjunto, as evidências atuais sugerem que esse efeito pode ser especialmente pronunciado em pessoas propensas à ansiedade, bem como em condições em que o monitoramento excessivo do corpo ou do comportamento pode ser mal-adaptativo — como distúrbios alimentares.
Como em muitas coisas na vida, tudo se resume à moderação. Se você perceber que está se preocupando mais com seus dados do que com seu bem-estar, faça uma experiência: deixe o dispositivo desligado por um dia ou oculte os dados para não receber feedback constante sobre seu corpo.
Observe como seu corpo se sente sem o monitoramento. Você pode descobrir o que aquele caminhante descobriu: que, às vezes, confiar no que você sente é melhor.
Jennifer Murphy é diretora da Jennifer Murphy Consulting Ltd, empresa que presta serviços gerais de consultoria em pesquisa. Anteriormente, ela prestou serviços de consultoria remunerados para a Healios relacionados à pesquisa sobre interocepção. Ela recebeu financiamento para pesquisas sobre interocepção da British Academy/Leverhulme Trust, do Medical Research Council e do Economic and Social Research Council.

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