
Psicodélico presente na ayahuasca pode ajudar o cérebro a produzir novos neurônios, indica pesquisa
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Durante boa parte do século XX, ensinou-se que nascemos com um número fixo de neurônios e que, dali em diante, a conta só diminui.
A história, hoje sabemos, não é bem assim. Muitos animais, inclusive humanos, mantêm, na vida adulta, uma pequena reserva de células-tronco neurais: células capazes de se multiplicar e, em princípio, originar novos neurônios. Na maior parte do tempo, elas ficam quietas, quase dormentes.
Se essa reserva existe no cérebro humano, seria possível estimular essas células a gerar novos neurônios? E uma molécula psicodélica poderia servir de estímulo?
Foi o que decidimos investigar.
Muito além da viagem
A dimetiltriptamina (DMT, ou N,N-dimetiltriptamina), é um psicodélico de ação rápida, conhecido por produzir alterações profundas da percepção, da experiência do tempo e da própria identidade, frequentemente descritas como uma dissolução das fronteiras do “eu”.
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É o principal componente psicodélico da ayahuasca, cuja história antecede em muitos séculos a investigação científica moderna. Diferentes povos originários da Amazônia utilizam preparações vegetais contendo a substância em contextos cerimoniais, espirituais e terapêuticos.
Embora a DMT tenha sido sintetizada pela primeira vez em 1931 pelo químico canadense Richard Manske, foi o pernambucano Oswaldo Gonçalves de Lima quem, em 1946, isolou da jurema-preta (Mimosa tenuiflora) uma substância que, mais tarde, demonstrou-se ser DMT, a partir de seus estudos sobre o tradicional “vinho da jurema” utilizado por povos indígenas do Nordeste brasileiro.
Os efeitos psicodélicos da DMT em seres humanos só seriam caracterizados experimentalmente na década de 1950, nos trabalhos do psiquiatra Stephen Szára.
Nos últimos anos, a atenção se deslocou da mente para a célula. E descobriu-se que os efeitos agudos da DMT vêm sobretudo de sua ação sobre um receptor de serotonina, o 5-HT2A.
Quase tudo isso, no entanto, foi observado em roedores. E o cérebro de um camundongo não é igual ao nosso.
Faltava perguntar o que a DMT faz às células neurais humanas, em especial a uma população menos badalada que os neurônios: as células progenitoras neurais.
O cérebro guarda uma reserva?
A ideia de que o cérebro adulto não se regenera tem uma origem ilustre.
Em 1913, Santiago Ramón y Cajal, um dos fundadores da neurociência, afirmou que, no sistema nervoso adulto, tudo pode morrer e nada se regenera. A sentença virou dogma por décadas. Só em 1998 surgiu a primeira evidência de que o cérebro humano adulto talvez fizesse o mesmo.
Um estudo de 2018 concluiu que a produção de novos neurônios despenca a níveis quase indetectáveis depois da infância. Porém, um outro estudo, de 2019, encontrou novos neurônios surgindo durante toda a vida adulta e outros pesquisadores também flagraram células progenitoras neurais se multiplicando. Desde então, vários outros grupos de pesquisa no mundo com técnicas moleculares mais modernas vêm reacendendo o antigo debate.
O consenso possível é que essas células-tronco neurais são raras e passam a maior parte do tempo em repouso. Difíceis de encontrar, e mais difíceis ainda de testar dentro de um cérebro vivo.
Para estudá-las, é preciso criatividade.
Como espiar um cérebro humano numa placa?
Recorremos a uma tecnologia reconhecida com o Nobel de 2012: a reprogramação celular.
É possível obter uma célula adulta humana, como a da pele, e reconduzi-la a um estado imaturo, semelhante ao embrionário. São as chamadas células-tronco de pluripotência induzida. A partir delas, com os estímulos certos, geramos células-tronco neurais.
São um modelo biológico vivo, como um avatar, que nos ajuda a perguntar, por exemplo, aquilo que não se pode fazer em uma pessoa: uma exposição breve à DMT basta para tirar células-tronco neurais do repouso?
O que a DMT fez às células?
Expostas à DMT por um dia, uma fração maior das células passou a se multiplicar. Medimos isso com um marcador que só entra no DNA quando a célula está copiando o próprio material genético. Outros indicadores contaram a mesma história.
A DMT também mexeu com a produção das moléculas que ajudam as células neurais a sobreviver e se adaptar. O Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (na sigla em inglês, BDNF), nome recorrente nas conversas sobre antidepressivos, subiu de forma marcante, tanto na expressão do gene quanto na quantidade de proteína dentro da célula, cerca de cinco vezes.
A verdadeira surpresa, porém, foi o Fator de Crescimento do Nervo (NGF). Seu gene foi o que mais aumentou sua expressão, quase dez vezes, embora costume viver à sombra do BDNF nesse campo.
No dia seguinte, reunimos as células em neuroesferas, agora sem nenhuma DMT no meio.
As células que haviam sido expostas previamente à DMT formaram neuroesferas maiores e metabolicamente mais ativas nos primeiros dias.
A molécula já não estava presente. Sua marca, sim.
Eram mais células, não células diferentes. A proporção dos tipos celulares dentro das neuroesferas continuou igual à dos controles. A DMT parece ter deixado as células mais dispostas a se multiplicar, sem alterar o rumo de sua maturação.
Se tudo terminasse numa placa, o resultado seria uma curiosidade elegante de laboratório
Mas pistas semelhantes vêm surgindo em animais. Em 2020, um grupo espanhol mostrou que a DMT estimula a neurogênese em roedores, embora com doses repetidas ao longo de semanas. Em 2026, pesquisadores brasileiros encurtaram a distância com os efeitos descritos depois de uma dose só em pessoas, ao observar que uma única dose bastou para restaurar marcadores de neurogênese em camundongos sob estresse crônico. Nas nossas células humanas, uma exposição única de 24 horas também foi suficiente.
Quando abordagens tão diferentes apontam para os mesmos processos, a hipótese deixa de parecer exótica. Porém, entre uma célula em cultura e um cérebro humano vivo há uma distância de complexidade.
Antes que alguém peça aos dados mais do que eles dizem, um lembrete. Fabricar um neurônio é uma jornada longa: a célula precisa “nascer”, precisa se multiplicar, sobreviver, amadurecer, virar neurônio e se integrar aos circuitos que já existem.
Nós observamos apenas o primeiro passo — mais células proliferando, e um sinal de crescimento que persistiu mesmo depois que a molécula saiu, acompanhado de outros mecanismos fisiológicos importantes.
Se essa reserva reage do mesmo modo dentro de um cérebro vivo, se essas células chegariam a virar neurônios funcionais, e se algo disso teria valor terapêutico, são perguntas ainda em aberto.
O que podemos dizer é mais modesto, e talvez mais interessante: uma molécula conhecida por dissolver as fronteiras do “eu” foi capaz de acordar, ainda que um pouco, o que costuma dormir.
Cabe mencionar que efeitos terapêuticos de DMT em humanos estão sendo testados por cientistas da UFRN e sugerem alívio rápido de sintomas depressivos após uma única dose.
No setor privado, uma formulação bucal de DMT sintética está atualmente em estudo clínico para depressão resistente ao tratamento.
Podemos especular que essa capacidade terapêutica poderia também fazer células-tronco neurais se multiplicarem, gerarem neurônios e novas conexões, como demonstramos em laboratório.
Psicodélicos não são atalhos para consertar o cérebro, mas estão se revelando lentes poderosas para observar, em células humanas, o que antes só podíamos supor.
A pesquisa relatada neste artigo contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfológicas da UFRJ, da Promega Corporation e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
O trabalho “Proliferative Effects of the Psychedelic N,N-Dimethyltryptamine (DMT) in Human Neural Stem Cells” está disponível para quem quiser saber mais.
Stevens Rehen é pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele recebeu financiamento da Ciência Pioneira/IDOR para esse estudo.
José Alexandre Salerno é professor do Departamento de Ciências Morfológicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Ele não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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