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Por que você nunca realmente supera a época de ensino médio: ‘São lembranças que voltam o tempo todo’

por Gilberto Cruz
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Por que você nunca realmente supera a época de ensino médio: ‘São lembranças que voltam o tempo todo’
Emmanuel Lafont/BBC
A popularidade, uma das principais obsessões da adolescência, parece ficar gravada em nossa consciência por décadas depois que deixamos a escola.
Antes de virar amiga de Georgia*, eu tinha medo dela.
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Um episódio ficou na minha memória. Nós tínhamos 14 anos, e minha melhor amiga na época estava dando uma festa, daquelas que acontecem em um salão de igreja alugado e todos os alunos da série comparecem. Mas havia um grupo de pessoas que minha amiga tinha esquecido de convidar.
Georgia e seu grupo vieram em nossa direção pelo pátio, enquanto as pessoas ao redor se viravam para olhar. Ela era uma assustadora combinação de bronzeamento artificial, extensões de cabelo descolorido e roupas esportivas fluorescentes. O que alguém como ela poderia querer com gente como nós?
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“Estamos convidadas para a sua festa, né?”, exigiu Georgia à minha amiga. “Sim, claro”, minha amiga conseguiu responder, gaguejando. Satisfeita, Georgia deu meia-volta e saiu marchando.
Outra garota que estava por perto murmurou: “Você não precisa convidá-las se não quiser”. Mas todas nós sabíamos que sim, ela precisava.
Provavelmente você também tem lembranças parecidas do ensino médio e da parte cruel das disputas políticas da escola. Talvez tenha lembranças de uma Georgia na sua vida, uma garota popular que conseguia provocar medo com um simples olhar. Talvez você mesmo tenha sido uma Georgia.
Seja como for, você provavelmente tem memórias marcantes dessa época. Depois de conversar com centenas de pessoas sobre suas experiências no ensino médio, Mitch Prinstein, professor de psicologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, nos Estados Unidos, descobriu que as lembranças das pessoas que um dia dominaram os corredores da escola (as garotas populares, os ‘príncipes’ das festas, os atletas estrelas) eram extraordinariamente fortes.
Mesmo décadas depois de deixar a escola, a maioria das pessoas consegue se lembrar sem esforço do nome do aluno mais popular de seu ano. Com mais facilidade, inclusive, do que dos nomes de professores e de outros colegas de classe, escreveu Prinstein em seu livro de 2017 Popular: The Power of Likability in a Status-Obsessed World (Popular: o poder de ser gostado em um mundo obcecado por status, em tradução livre).
E não são apenas as lembranças que permanecem. Podemos imaginar que a hierarquia do ensino médio se torna irrelevante depois que atravessamos os portões da escola pela última vez. Mas, ao que parece, ela pode continuar exercendo em nós um domínio estranho e persistente.
Pesquisas mostram que o quanto éramos populares e queridos na adolescência pode influenciar nossas vidas por muitos anos, afetando desde a maneira como interpretamos nossas interações sociais até a qualidade de nossos relacionamentos amorosos, nossa satisfação com a vida e até mesmo nossa saúde.
Repensando a popularidade
Foi o psicólogo americano John Coie quem mudou a maneira como os pesquisadores pensavam na popularidade.
Seus estudos, hoje considerados fundamentais, realizados no início dos anos 1980, começaram com duas perguntas simples feitas a crianças em idade escolar sobre seus colegas:
De quem você mais gosta? De quem você menos gosta?
Lendo as respostas de caligrafia infantil em centenas de pedaços de papel, Coie identificou novos insights sobre o comportamento social humano.
Uma possível suposição é que algumas crianças seriam, de modo geral, mais queridas pelos colegas, enquanto outras seriam mais rejeitadas.
Mas Coie e os outros pesquisadores também perceberam algo diferente. Algumas crianças eram ao mesmo tempo queridas e rejeitadas por alunos diferentes; enquanto outras não eram nem queridas nem rejeitadas.
Ou seja, alguns eram mencionados muitas vezes pelos colegas, sendo altamente visíveis, quase como pequenas celebridades. E outros mal apareciam nas respostas.
Coie então usou as respostas das crianças para propor, pela primeira vez, cinco categorias sociais.
“Aceitas” e “rejeitadas” para aquelas que eram amplamente queridas ou rejeitadas, respectivamente.
“Controversas” para aquelas que recebiam um grande número tanto de “curtidas” quanto de “descurtidas”.
“Negligenciadas” para aquelas que quase não eram mencionadas de nenhuma das duas formas.
E “medianas” para crianças que não se destacavam demais em nenhuma direção.
Muitos estudos confirmaram a utilidade desses rótulos. Em geral, eles mostram que cerca de 40% das crianças são “médias” e 60% se encaixam em uma das outras quatro categorias.
As crianças mais queridas tendem a ser vistas pelos colegas como gentis, incentivadoras e solidárias, enquanto as “negligenciadas” tendem a ser quietas e retraídas.
As crianças “rejeitadas” tendem a ser agressivas e praticam bullying contra os outros, ou são pouco assertivas, socialmente ansiosas e vítimas de bullying.
As “controversas”, o grupo mais raro, dividem as opiniões, geralmente sendo vistas como os palhaços da turma ou os rebeldes.
Nos primeiros anos de escola , os valores das crianças costumam estar alinhados aos dos adultos que as supervisionam. No ensino médio, isso muda
Emmanuel Lafont/BBC
De maneira surpreendente, Coie descobriu que os rótulos atribuídos às crianças permaneciam, em grande parte, iguais mesmo quando elas eram apresentadas a novos grupos de colegas. E, embora a pesquisa inicial tenha sido feita com crianças do ensino fundamental, muitos estudos reproduziram os resultados com adolescentes. Um deles descobriu que cerca de metade das crianças mantém, cinco anos depois, no ensino médio, o mesmo rótulo que tinha no ensino fundamental.
“Eu tinha tido uma fase muito ruim no ensino fundamental, e sempre me lembro da minha mãe dizendo: ‘Vai ser melhor quando você for para o ensino médio'”, conta Connie*, outra amiga com quem conversei sobre experiência escolar. “Mas acho que, quando você sofre bullying, ou se tem alguma coisa que faz você parecer visivelmente diferente… É como se virasse um alvo fácil.”
Depois de ser alvo de bullying nos primeiros meses do ensino médio, por motivos que incluíam não ser branca em uma instituição predominantemente branca, Connie mudou de escola. Na nova escola, porém, logo encontrou um padrão semelhante.
O ‘efeito Regina George’
Embora os rótulos permaneçam os mesmos, a dinâmica social muda drasticamente entre o ensino fundamental e o ensino médio. No ensino fundamental, as crianças “populares” são simplesmente aquelas de quem os outros mais gostam, e muitas vezes as que se comportam bem e se destacam na escola, porque, nessa fase, os valores das crianças normalmente estão alinhados aos dos adultos que as supervisionam.
No ensino médio, isso muda.
Os adultos e tudo o que eles representam se tornam profundamente indesejáveis. Um aluno consciente e extremamente dedicado pode acabar relegado à condição de “nerd”, enquanto um aluno mais rebelde e divisivo pode, inesperadamente, ter uma ascensão social.
Conversando no telefone com o terror da minha escola, que agora é minha amiga próxima, Georgia, pergunto se ela se considerava popular no ensino médio. Ela diz que não pensava em si mesma dessa maneira.
“‘Popular’ dá a impressão de que as pessoas gostam de você, e não acho que necessariamente gostassem da gente”, ela responde. “Talvez fosse mais uma coisa de ser… meio infame, sabe? Barulhenta e querendo chamar atenção.”
Quando adolescente, Georgia encarnava o arquétipo da “controversa”. Ela tinha comportamentos agressivos e perturbava as aulas. Para todos aqueles que a adoravam, provavelmente havia muitos que não gostavam dela. Digo a ela que as pessoas, inclusive eu, tinham bastante medo dela em determinado momento. Mas ela está errada ao achar que isso a desqualificava do rótulo de “popular”.
Dadas as suas peculiaridades, é impressionante como usamos com tanta frequência o ensino médio como referência para as relações entre adultos
Emmanuel Lafont/BBC
“Nós começamos a prestar atenção em quem está recebendo mais atenção, quem pode ser mais dominante ou ‘legal'”, diz Prinstein. “Aqueles que começam a se tornar fisicamente mais atraentes, ou que se encaixam nas normas do grupo, [como] os que se vestem bem ou são bons nos esportes.”
Adotar comportamentos “pseudomaduros”, ações associadas a adolescentes mais velhos ou adultos, é outro caminho rápido para conquistar status. Adolescentes que bebem álcool, usam drogas e se envolvem precocemente em comportamentos românticos têm maior probabilidade de serem considerados populares — pelo menos por algum tempo.
Por volta dos 15 anos, esses comportamentos deixam de conferir status na mesma medida.
À medida que os adolescentes amadurecem, a busca explícita por status se torna menos vantajosa socialmente, e a “simpatia” começa a recuperar seu papel como importante determinante da posição social. Mas os efeitos dessas primeiras experiências de estratificação social extrema podem ser significativos.
“As experiências que temos quando somos crianças — se somos queridos, se somos populares ou temos alto status — parecem ter um efeito duradouro sobre nós mesmo 40 anos depois”, diz Prinstein.
“Simpatia e status têm efeitos praticamente opostos. Ser querido é bom. Em geral, isso leva a todo tipo de resultado positivo na saúde, no trabalho, na vida acadêmica e na saúde psicológica.
“Mas ter alto status, na verdade, leva ao oposto.”
A cultura das panelinhas
Os pesquisadores costumavam pensar na cultura do ensino médio como uma versão imatura da sociedade adulta.
Mas, na década de 1960, começaram a entender que essa “cultura dos grupinhos” era algo muito mais estranho, um mundo paralelo movido por suas próprias fascinações excêntricas e conjuntos de códigos.
Em vez de uma simples hierarquia, o cenário social do ensino médio apresenta um sistema dinâmico de panelinhas. Os principais arquétipos se repetem na cultura popular, desde filmes como American Pie e Clube dos Cinco a seriados como Malhação: os populares, os desajustados, os rejeitados e os nerds.
Durante os primeiros anos do ensino médio, as fronteiras entre as panelinhas tendem a ser rígidas. “Os jovens podem se tornar extraordinariamente tribais, intolerantes e cruéis ao excluir aqueles que são ‘diferentes'”, escreveu o psicanalista germano-americano Erik Erikson em seu livro de 1959, Identity and the Life Cycle (“Identidade e o ciclo de vida”, em tradução livre).
Essa intolerância, argumentava Erikson, talvez fosse “uma defesa necessária” contra a perda da identidade que se tinha quando criança, combinada a uma desconcertante onda de mudanças hormonais e à natureza avassaladora do futuro, com todas as suas possibilidades e escolhas.
Os adolescentes ajudam uns aos outros a atravessar esse desconforto “formando panelinhas e estereotipando a si mesmos”, sugeriu ele. Essa classificação espontânea facilita a navegação dos adolescentes por seus mundos sociais, porque a “categoria” relativa de cada pessoa determina como ela deve ser tratada.
Uma coisa que é ignorada na cultura popular, porém, é a grande parcela de adolescentes que não aderem a nenhuma subcultura específica. Um estudo de 1985 descobriu que cerca de 45% dos alunos do ensino médio se definiam simplesmente como “normais”. Enquanto os jovens populares diziam que sua vida girava em torno de estar bem-vestido e ir a festas, os “normais” que se autodefiniam assim diziam coisas como: “Sou apenas um adolescente comum”.
Ser “anormal” e se destacar pelos motivos errados pode ser socialmente catastrófico. Connie se lembra de chegar à nova escola aos 13 anos e achar impossível conquistar um espaço naquela estrutura social escorregadia. Ela descreve suas tentativas de enfatizar diferentes aspectos de si mesma em busca da panelinha certa.
“Lembro de tentar fazer amizade com as meninas nerds. Lembro de tentar fazer amizade com as meninas legais”, diz ela. “Eu pensava: ‘Ah, sou muito estudiosa, faço toda a minha lição de casa’. E aí isso não funcionava, então era tipo: ‘Ah, eu uso maquiagem, arrumo o cabelo’, esse tipo de coisa. Tentei me encaixar com o pessoal da música. Comecei a tocar trompete.”
Mas não adiantou. “Acho que eu sabia, no fundo, que simplesmente não estava funcionando”, diz ela. “Não havia lugar para eu me encaixar. No fim, eu era completamente ignorada por todo mundo.”
O ensino médio amadurece
Perto do fim do ensino médio, a rígida hierarquia social começa a relaxar um pouco.
No início dos anos 1990, o pesquisador David Kinney realizou um estudo etnográfico no qual se inseriu em uma escola para observar de perto as mudanças nas fronteiras entre as panelinhas. Ele acompanhou antigos “nerds” que conseguiram fazer a transição para o grupo dos “normais”.
A rigidez das panelinhas no início do ensino médio pode refletir as capacidades cognitivas limitadas dos adolescentes mais jovens, observou ele.
Embora os adolescentes mais novos estejam cada vez mais capazes de refletir sobre si mesmos, muitos não conseguem diferenciar entre a frequência com que pensam em si mesmos (muito) e a frequência com que os outros pensam neles.
Para muitos dos jovens “nerds” com quem Kinney conversou, isso resultava em uma atenção excessiva a si mesmos, debilitante, e em certa paralisia nas interações sociais.
Com o tempo, o desenvolvimento cognitivo permitiu que os antigos nerds se sentissem menos amedrontados e se cercassem de colegas que lhes ofereciam feedback positivo.
Se sentir “aceito”, tanto no ensino médio como fora dele, é um dos mais fortes indicadores de resultados positivos na vida
Emmanuel Lafont/BBC
À medida que os adolescentes amadurecem, as barreiras que vêm da vontade de se encaixar começam a diminuir.
Os jovens populares podem até ser desafiados por colegas alternativos e rebeldes. O estudo de Kinney descobriu que, nos últimos anos da escola, os “moderninhos” eram desafiados por estudantes com “aparência extravagante e comportamento turbulento”, que “competiam com eles pela popularidade em toda a escola”.
Algumas dessas mudanças sutis já deviam estar acontecendo quando, aos 15 anos, Georgia me chamou pela primeira vez para sair com ela, mas ainda me lembro da confusão e da incredulidade que senti.
Naquela época, eu fazia parte de um grupo predominantemente masculino de maconheiros. Georgia estava tentando pregar algum tipo de peça em mim? Eu seria atraída para fora do meu grupo apenas para ser humilhada de alguma maneira?
Quase 20 anos depois, pergunto a Georgia por que ela queria ser minha amiga, algo que nunca havia perguntado antes. Fico pensando quais dos meus atributos extraordinários poderiam ter chamado sua atenção — minha inteligência, meu charme?
“Acho que havia uma estranheza que todos nós compartilhávamos”, diz ela, hesitante. “Tipo, nenhum de nós era normal.”
Escola, exército e prisão
Dadas todas as suas peculiaridades, é impressionante como usamos com frequência o ensino médio como referência para nossas interações na vida adulta.
Quando Lucy Foulkes, psicóloga da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e autora de Coming of Age: How Adolescence Shapes Us (‘Chegando à idade adulta: como a adolescência nos molda’, em tradução livre), publicou nas redes sociais um texto sobre o efeito das “garotas maldosas”, recebeu uma enxurrada de pessoas dizendo que se identificavam.
“Muita gente dizia: não são apenas os adolescentes, eu vejo isso no ambiente de trabalho… Vejo isso entre as mães no portão da escola”, diz Foulkes.
“É um fenômeno humano: algumas pessoas conquistam mais poder social e dominância sobre outras. Há algo particularmente intenso nisso durante a adolescência.”
Foulkes observa que os adolescentes estão cercados pelas mesmas pessoas quase todos os dias durante anos, de uma maneira que “simplesmente não acontece na vida adulta, exceto no exército ou na prisão. Existe uma intensidade nesse ambiente que vai além do que está acontecendo dentro do cérebro deles”.
É justamente essa intensidade que explica, em parte, por que essas experiências permanecem gravadas dentro de nós, diz Prinstein, moldando a maneira como interpretamos encontros sociais por muitos anos.
“Estamos recorrendo àquelas experiências de quando tínhamos 14 anos para usá-las como uma espécie de modelo através do qual enxergamos o mundo”, diz Prinstein.
Ele aponta para estudos que sugerem que o modelo mental que usamos para processar nosso mundo social começa a se formar na infância e que as regiões do cérebro responsáveis pelo processamento da memória ficam ativas quando as pessoas pensam sobre comportamento social.
“Essas lembranças estão sendo trazidas de volta o tempo todo.”
Onde estão os jovens populares hoje
Muitos de nós provavelmente já nos perguntamos o que aconteceu com os “jovens legais” que conhecemos na adolescência.
Em um estudo de 2015, Joseph Allen, professor de psicologia da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, tentou descobrir. Suas descobertas não foram muito promissoras para os jovens que um dia foram populares.
Acompanhando 184 adolescentes do sudeste dos Estados Unidos dos 13 aos 23 anos, Allen descobriu que jovens obcecados por status que adotavam comportamentos ‘pseudomaduros’ no início da adolescência apresentavam maior risco de enfrentar dificuldades de longo prazo em relacionamentos próximos, além de comportamentos criminosos.
A iniciação precoce ao álcool e às drogas estava associada a uma maior vulnerabilidade ao abuso de substâncias e a problemas de dependência mais tarde na vida.
E o foco no status desde cedo levava a vínculos mais superficiais e dificuldades para manter amizades e relacionamentos amorosos.
A experiência da rejeição também pode deixar cicatrizes. A pesquisa de Prinstein descobriu que alunos rejeitados no ensino médio tinham maior probabilidade de se tornarem mais deprimidos com o passar do tempo. Ele levantou a hipótese de que havia um ciclo de feedback negativo em ação, no qual a experiência de rejeição gera mais isolamento, que por sua vez intensifica os sentimentos de rejeição.
Em contraste, a “simpatia” — ser “aceito”, tanto no ensino médio como fora dele — é um dos mais fortes indicadores de resultados positivos na vida, como uma carreira bem-sucedida, boa saúde e relacionamentos sólidos, até mesmo quando comparada a fatores como inteligência e origem socioeconômica.
Ainda assim, pessoas que vivenciam a rejeição também podem desenvolver qualidades importantes, como se tornar mais hábeis em identificar o que os outros estão sentindo ou mais conscientes de quando outras pessoas estão sendo maltratadas. Essa inteligência emocional já demonstrou ser útil para lidar com relacionamentos pessoais e com o mundo do trabalho.
E uma criança não precisa ser “aceita” para desfrutar de uma vida social satisfatória na idade adulta. Estudos descobriram que até mesmo ter um ou dois bons amigos na adolescência pode exercer um efeito protetor e fortalecer relacionamentos futuros.
Mudando o roteiro
O mais importante é que podemos manejar a maneira como nossas primeiras experiências nos afetam.
Segundo Prinstein, os roteiros sociais desenvolvidos no ensino médio que usamos para abordar as interações podem se tornar uma profecia autorrealizável.
“Quando entramos em um contexto social, podemos nos concentrar nas informações que confirmam nossas piores expectativas”, diz ele. “Então, podemos nos comportar de maneiras que, na verdade, incentivem mais experiências negativas.”
Ao escolher atualizar esses modelos (por exemplo: decidir que um comentário ambíguo de um colega provavelmente não tinha a intenção de nos chatear) podemos nos ajudar a ter experiências mais gratificantes, afirma ele.
Como uma adolescente que tinha alto status e que, desde cedo, adotava comportamentos arriscados e pseudomaduros, Georgia diz: “Sinto uma certa tristeza pela minha versão mais jovem, por nunca ter tido a oportunidade de simplesmente ser uma criança normal”.
Ela conta que uma experiência precoce em que viu uma amiga ser espancada, combinada ao comportamento abusivo em casa, a convenceu a agir de forma agressiva para transmitir uma imagem de invulnerabilidade.
Ela lamenta não ter recebido mais apoio naquela idade e, em vez disso, ter sido rotulada pelos professores como uma “aluna problemática”. “Isso moldou completamente minha trajetória profissional e minha defesa ferrenha das pessoas vulneráveis”, diz ela.
Connie, por sua vez, diz que suas primeiras experiências de rejeição acabaram alimentando um padrão de autossabotagem.
“Acho que, de muitas maneiras, eu tinha desistido de mim mesma, e tinha tantos comportamentos autodestrutivos que acabou ficando difícil manter amizades”, diz ela.
Isso culminou em um período de crise no fim da adolescência, do qual ela desde então tem trabalhado arduamente para se recuperar. Mais de uma década depois, ela descobriu o que ama, incluindo uma prática criativa e uma carreira gratificante, e diz que raramente pensa em seus dias de escola.
Tanto Connie quanto Georgia são uma prova de que os rótulos que carregávamos no ensino médio não precisam ser uma sentença para a vida toda.
“As pessoas podem absolutamente mudar o rumo das coisas”, concorda Prinstein. “O problema é que não passamos muito tempo falando sobre isso… O que significa que temos maior probabilidade de repetir nossos padrões.”
* Os nomes foram alterados.

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