Caso envolve uma jovem de 28 anos, Darya Shipilova, que morreu em 2 de outubro em Shelekhov, na Rússia
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O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, instou a Rússia a divulgar mais informações sobre a morte de uma funcionária de laboratório em um centro de pesquisa sobre a peste na Sibéria.
O incidente gerou uma onda de especulações sobre as circunstâncias da morte da mulher, de 28 anos.
Autoridades russas inicialmente associaram a morte dela à peste, mas agora negam a ligação, apesar de relatos de veículos de imprensa independentes sobre quarentenas locais.
“Acredito que cabe à Rússia, obviamente, compartilhar mais informações com o mundo”, disse Rubio a jornalistas. “Estamos acompanhando a situação bem de perto, hora a hora.”
Na sexta-feira (2/10), surgiram as primeiras informações de que quase 200 pessoas haviam sido colocadas sob observação na região de Irkutsk, na Sibéria, após a morte.
A funcionária do laboratório, identificada pela mídia russa como Darya Shipilova, teria adoecido alguns dias antes.
Agora no g1
O que se sabe até o momento
Darya Shipilova, de 28 anos, que trabalhava no Instituto Antipeste da Sibéria e do Extremo Oriente, foi levada ao hospital no fim de setembro. Ela morreu três dias depois em Shelekhov, cidade nos arredores da capital regional, Irkutsk.
Segundo relatos, a morte ocorreu na noite de 2 de outubro, mas a BBC não conseguiu confirmar a informação. Até agora, as autoridades locais não confirmaram que o falecimento da jovem esteja relacionado a um possível contágio de peste.
O hospital foi colocado em quarentena, uma fábrica local de alumínio instituiu o uso obrigatório de máscaras e um grande evento público em Irkutsk foi cancelado.
Ainda no dia 2, o governador da região, Igor Kobzev, disse que a principal médica sanitarista da Rússia, Anna Popova, diretora da Rospotrebnadzor (Serviço Federal de Supervisão de Defesa do Consumidor e Bem-Estar Humano da Rússia), havia chegado a Irkutsk para participar de uma reunião de emergência da comissão regional de saúde e combate às epidemias.
A reunião teria sido convocada para tratar do que as autoridades classificaram como “um caso suspeito de uma infecção especialmente perigosa”.
Segundo ele, as pessoas que tiveram contato com Shipilova estavam sendo monitoradas. Cerca de 197 pessoas estavam sob observação médica, segundo o jornal Izvestia.
De acordo com o The Guardian, a morte de Shipilova motivou a intervenção de altos funcionários federais de saúde.
Uma ilustração da bactéria que causa a peste em seres humanos
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No mesmo dia, o governador da vizinha região da Buriácia disse que a funcionária do laboratório havia morrido de peste. Isso levou a especulações sobre um possível vazamento no Instituto Antipeste, com um relato não confirmado de um jornalista local afirmando que a pesquisadora falecida adoeceu depois de quebrar um tubo de ensaio.
Outros relatos não confirmados sugeriam que o tubo continha o patógeno ou que Shipilova adoeceu após uma expedição a uma região onde a peste circula naturalmente entre roedores selvagens. Foi informado que a mulher havia visitado recentemente a região da Buriácia, na fronteira com a Mongólia.
Como esse relato mudou?
A Rospotrebnadzor tentou recuar dessas afirmações. Nesta semana, o órgão disse que a funcionária do laboratório, cujo nome não divulgou, morreu de pneumonia de origem indeterminada e que os exames não encontraram “nenhum microrganismo relacionado às suas atividades profissionais”.
O governador de Irkutsk repetiu a informação, declarando que não foram encontrados “microrganismos” relacionados ao trabalho da mulher em suas “amostras biológicas”.
O governador pediu calma à população. “Todos os contatos identificados foram colocados sob observação médica. Até o momento, nenhum apresenta sintomas e os exames laboratoriais deram negativo”, escreveu no Telegram.
Nenhum outro funcionário do instituto precisou de atendimento médico desde a morte da mulher, afirmou Kobzev, citando a Rospotrebnadzor. O órgão informou que uma equipe de biossegurança inspecionou o Instituto Antipeste da Sibéria e do Extremo Oriente, localizado em Irkutsk, e não detectou nenhuma situação de emergência.
No entanto, veículos de imprensa informaram que funcionários do centro foram submetidos a uma rigorosa quarentena no próprio local.
Após a declaração da Rospotrebnadzor, um veículo de notícias federal pró-governo apagou cinco publicações que mencionavam um possível caso de peste, e autoridades da cidade de Baikalsk apagaram uma mensagem que desaconselhava viagens a Shelekhov por causa de uma possível infecção por peste.
Mas, enquanto as autoridades aparentemente coordenavam mensagens para minimizar a situação, o site de notícias local independente Pessoas do Baikal citou fontes dizendo que pelo menos quatro hospitais de Irkutsk foram fechados para uma quarentena de três semanas. Isso não foi confirmado oficialmente.
Enquanto isso, a BBC News Rússia apurou que o Instituto Antipeste de Irkutsk deve sediar uma conferência internacional sobre controle da peste ainda em outubro, com cientistas da China, da Mongólia e de vários países da antiga União Soviética. A BBC entrou em contato com o instituto para confirmar se o evento será realizado.
O que é a peste?
A bactéria da peste (Yersinia pestis) matou pelo menos a metade da população da Europa no século 14, quando era conhecida como Peste Negra. Ela causa uma doença animal que é encontrada em todos os continentes, exceto a Oceania, inclusive entre roedores como as marmotas da região da Buriácia, na Rússia.
A bactéria da peste foi a causa da morte de ao menos metade da população europeia no século 14
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Após um surto ocorrido na década de 1920, há pouco mais de um século, o Instituto Antipeste da Sibéria e do Extremo Oriente foi fundado.
As pessoas podem se infectar por meio de picadas de pulgas infectadas, contato com fluidos corporais ou materiais contaminados e inalação de partículas respiratórias.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a forma pneumônica da peste tem um período de incubação muito curto — às vezes de apenas 24 horas — e pode ser fatal se não for diagnosticada e tratada precocemente.
Os sintomas incluem falta de ar e tosse, frequentemente com catarro tingido de sangue.
Quais são os riscos de uma epidemia?
Simon Clarke, professor associado de microbiologia celular da Universidade de Reading, no Reino Unido, disse à BBC que a variante pneumônica da Yersinia pestis é quase sempre fatal se não for tratada, mas pode ser superada com antibióticos.
“A peste pneumônica pode ser transmitida de pessoa para pessoa, e daí a preocupação que isso gera”, afirmou.
“Mas, naturalmente, diante de qualquer surto de doença infecciosa, as pessoas pensam em… lockdowns e na covid, e é justamente isso que não vai acontecer aqui”, disse o especialista.
“As pessoas pensam: ‘Ah, a peste; isso já passou, desapareceu há séculos’, mas não é assim”, explicou Clarke. “Ela continua existindo e, em certas partes do mundo, representa uma ameaça à saúde humana; por isso é preciso estudá-la.”
Questionado se o patógeno poderia ter sido estudado para possível uso como arma biológica, o cientista admitiu que era uma possibilidade.
“Como se trata da Rússia, as pessoas tendem a pensar nisso, mas acho que minha explicação anterior é mais provável”, disse Clarke.
A peste pneumônica tem cadeias de transmissão curtas porque as vítimas morrem antes de conseguir infectar um grande número de pessoas.
A doença, a que matou milhões no passado, exige esta combinação persistente de condições insalubres: ratos, pulgas e pessoas vivendo muito próximas umas das outras, explicou a bióloga Irina Yakutenko, jornalista científica russa, no podcast What Was It?, do serviço mundial da BBC.
“Existem numerosos focos naturais de peste na Terra, mas eles existem há milhares de anos. No entanto, a boa notícia é que, como não existem as condições adequadas para que esse ciclo se mantenha na população humana, não se preveem epidemias de peste entre os humanos”, afirmou.
“Na Rússia, nos Estados Unidos, na Europa ou nos países desenvolvidos, não existe risco de uma epidemia de peste porque não existem as condições que propiciariam tal risco.”
Antibióticos básicos funcionam bem contra a peste porque a doença é hoje extremamente rara e não teve a oportunidade de desenvolver resistência generalizada, completou a bióloga no podcast.
A mesma opinião foi expressa pelo professor titular de virologia da Universidade de Reading, no Reino Unido, Ian Jones.
“Este caso parece um raro acidente de laboratório e é pouco provável que tenha maiores repercussões… Embora seja verdade que a peste pneumônica é diretamente transmissível, a identidade dos contatos do caso primário é conhecida e eles podem ser tratados se apresentarem algum sintoma de infecção.”
E acrescentou: “A peste tem uma longa história e ainda está presente em muitas partes do mundo, inclusive na Rússia, mas as condições de vida associadas à peste que se espalhou no passado já não são comuns, há antibióticos disponíveis e, portanto, seu potencial é limitado”.
Marco Rubio manifestou preocupação com a possibilidade de que o incidente tenha provocado a propagação da peste pneumônica, embora tenha dito que não havia motivos para alarme
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Qual foi a reação internacional?
A OMS entrou em contato com as autoridades russas para avaliar a situação e suas implicações para a saúde pública internacional, disse seu porta-voz ao veículo de notícias Politico.
Especialistas do ECDC, o órgão europeu de vigilância de doenças infecciosas, também estão monitorando a situação, segundo o porta-voz da Comissão Europeia.
Quatro países da Ásia Central intensificaram seus controles de saúde em consequência do incidente. O vizinho Cazaquistão reforçou os controles de saúde nos postos de fronteira, assim como o Tadjiquistão e o Quirguistão. E o Uzbequistão está montando centros de quarentena.
O governo dos Estados Unidos acompanha o caso de perto. Os EUA estavam “examinando com muita atenção” os relatos de um possível caso de peste na Rússia, disse o presidente Donald Trump na segunda-feira, acrescentando que a Casa Branca observa o caso “muito detidamente”. Ele sugeriu que os EUA estavam prontos para ajudar a conter a doença, mas disse que não havia discutido o assunto com o Kremlin.
“Me dá muita pena vê-los passar por isso”, disse, mas acrescentou: “Vamos ajudá-los. Qualquer um que tenha esse tipo de problema, sempre vamos ajudar”.
O que está sendo dito na internet?
Vários relatos conflitantes têm circulado nas redes sociais, tanto na Rússia quanto internacionalmente.
A BBC identificou pelo menos cinco contas no Instagram que compartilham informações não confirmadas sobre uma suposta segunda vítima. As contas — com um total combinado de quase 169 mil seguidores — publicaram mensagens quase idênticas em russo, afirmando que um homem identificado como Viktor Naklonenny, descrito como colega de Daria Shipilova, também havia morrido.
Uma fonte próxima à Rospotrebnadzor da Rússia não confirmou os relatos. A BBC procurou o próprio órgão para pedir um comentário. O Instituto Antipeste da Sibéria e do Extremo Oriente se recusou a comentar.
As alegações não verificadas foram posteriormente repercutidas por vários veículos de imprensa internacionais, incluindo o britânico Daily Mail, que atribuiu a informação à “mídia local” na Rússia.
As publicações provocaram reações diversas nas redes, com alguns usuários expressando preocupação com as medidas de saúde pública, enquanto outros acusaram as contas de espalhar desinformação.
A BBC também identificou uma série de informações não verificadas no X, algumas das quais alcançaram milhões de visualizações. Um blogueiro disse ter recebido uma mensagem de um amigo alegando que São Petersburgo, a segunda maior cidade da Rússia, estava prestes a entrar em lockdown. A publicação foi vista mais de seis milhões de vezes.
No entanto, nem as autoridades de São Petersburgo nem veículos de imprensa noticiaram qualquer caso de peste na cidade, nem a possibilidade de um lockdown.
Em outra publicação, outro usuário afirmou que uma “peste pneumônica que acabou de escapar de um laboratório na Rússia é cerca de 100 vezes mais letal do que a covid”. Essa publicação teve 11,3 milhão de visualizações.
Embora seja mais letal se não for tratada, é improvável que mate pessoas da mesma forma que a covid, porque os antibióticos conseguem controlá-la.
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