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Questionar a si mesmo é pensar

por Gilberto Cruz

→ Talvez uma das perguntas mais importantes que alguém possa fazer a si mesmo não seja “o que eu penso?”, mas “como cheguei àquilo em que acredito?”

É curioso como muitas ideias são defendidas com absoluta convicção, embora tenham sido apenas recebidas e reproduzidas. Uma opinião pode parecer profundamente pessoal e, ainda assim, ter sido construída por informações selecionadas por terceiros, interpretações alheias ou conclusões que jamais foram verdadeiramente investigadas.

Vivemos em uma época em que crenças são formadas com velocidade impressionante. Uma manchete ou uma declaração pública pode ser suficiente para produzir certezas. E, muitas vezes, essas certezas são defendidas por pessoas que jamais examinaram as informações que lhes deram origem.

O fenômeno atravessa diferentes dimensões da vida contemporânea. Está presente na política, na educação, nas redes sociais e até na ciência. Mudam os personagens e as circunstâncias, mas o mecanismo parece o mesmo. A verdade não se torna mais verdadeira porque milhões repetem a mesma afirmação.

Contudo, esse erro já não se limita aos leigos: alcança até mesmo os diplomados. A recusa em investigar tornou-se uma espécie de patologia intelectual contagiosa. A formação intelectual pode, paradoxalmente, servir para sofisticar uma crença prévia em vez de submetê-la à crítica.

O verdadeiro exercício da liberdade intelectual talvez esteja justamente em fazer algo cada vez mais raro: questionar inclusive aquilo que gostaríamos que fosse verdade.

Hoje, o acesso ao conhecimento científico e a dados públicos está mais disponível do que nunca. Ainda assim, muitas vezes é mais fácil repetir conclusões prontas do que dedicar tempo para compreender e questionar. Afinal, pensamento crítico é a capacidade de submeter as próprias certezas ao mesmo escrutínio que aplicamos às ideias dos outros.

O maior desafio não está em encontrar quem pense como nós, mas em admitir que também podemos estar errados.

O ponto central desta reflexão não é defender um lado ou uma ideologia, mas defender um princípio: ninguém deveria terceirizar o próprio pensamento. Por isso, antes de perguntar “quem está certo?”, deveríamos perguntar: “Eu investiguei ou apenas acreditei?”

E pense numa situação ainda mais concreta: se a vida de alguém que você ama dependesse dessa decisão, você confiaria apenas na opinião do seu político favorito ou buscaria compreender, por si mesmo, as melhores informações disponíveis?

Pensar dá trabalho. Torcer, não. Talvez seja justamente por isso que a segunda opção tenha conquistado tantos adeptos.
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Mauro Falcão, pesquisador e escritor brasileiro
📧 advfalcao@hotmail.com – 📞 WhatsApp: (55) 51 99548-3374

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