Esta etapa da investigação revela uma fraude física e tributária: o desvio de solventes petroquímicos importados (Nafta), que têm tributação muito menor e eram vendidos ilegalmente como gasolina para veículos.
Especialistas ouvidos pelo g1 alertam para os riscos graves que a nafta representa aos veículos.
“A nafta é um derivado de petróleo, que tem custo menor que a gasolina, mas possui características semelhantes. A baixa octanagem causa alguns problemas no motor”, explica Tenório Júnior, técnico e professor de mecânica automotiva.
Segundo Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação de Engenharia Automotiva (AEA), o “motor fraco” é um sintoma mesmo em pequenas quantidades de nafta na gasolina.
“Se você não tá pisando muito, numa estrada, velocidade constante, ele não não vai causar problema. Quando você retoma velocidade, quando acelera, pode até destruir totalmente o motor”, diz Gonçalves.
Bruno Bandeira, mecânico e proprietário da Oficina Mecânica Na Garagem, afirma que os danos atingem praticamente todas as partes do carro por onde o combustível circula.
“Eu já pegei já isso. Destrói tudo do carro, tudo que você pode imaginar. De bomba de combustível a catalisador e injetores. Estraga até a parede do do motor do carro, que é a parte onde fica o cilindro”, aponta Bruno.
Segundo Bruno, os problemas costumam surgir com o motor frio, geralmente após o dia do abastecimento. Ele explica que isso acontece porque ainda há combustível do abastecimento anterior no tanque, que não fica totalmente cheio do produto adulterado.
Como identificar combustível adulterado
Luz de alerta para problemas no combustivel — Foto: reprodução/TV Globo
Os dois mecânicos afirmam que é difícil identificar o combustível adulterado apenas pela aparência. Bruno, no entanto, alerta para dois sinais principais: o cheiro diferente e o acendimento da luz de alerta da injeção (imagem acima), que costuma aparecer logo após o abastecimento.
“É um cheiro muito ruim. Sabe um um combustível que é um negócio podre”, diz o Bruno.
Rogério afirma que o consumo de combustível do carro também muda, o que pode servir como mais um sinal de alerta para o motorista sobre uma possível adulteração.
Em um Volkswagen Nivus 2023 abastecido com combustível adulterado, o conserto incluiu:
Filtro da bomba de combustível com sinais de dano por nafta — Foto: Bruno Bandeira/arquivo pessoal
- 40 litros de combustível descartados;
- Três bicos injetores danificados pela corrosão;
- Bomba de combustível danificada, com menos pressão;
- Filtro de combustível entupido;
- Catalisador obstruído, com liberação de pó branco.
Segundo o mecânico, o entupimento do catalisador ocorreu por causa da queima inadequada do combustível.
“Tem algumas matérias dele que não queimam direito. Então ele vai mandando embora tipo meio líquido, meio sei lá, tipo pastoso, e vai entupindo”, explica.
Nafta atua de forma semelhante ao metanol
Motor da Ford Maverick Tremor 2026 — Foto: Fabio Tito/g1
Tenório e Bruno destacam que certos veículos conseguem tolerar a presença de metanol no tanque, embora ele possa corroer diretamente os seguintes componentes:
- Bicos injetores;
- Flauta de combustível;
- Câmara de combustão;
- Guia de válvulas;
- Bomba de baixa pressão;
- Bomba de alta pressão.
Com o tempo, o motor que sofre com a contaminação do combustível pode até não ligar. “Tem carro que, pela manhã, nem liga. Pelo combustível, ele trava onde fica a haste de válvula do cabeçote. O metanol cria uma goma”, revela Bandeira.
Segundo Orli Robalo, mecânico em Porto Alegre (RS), um dos sinais comuns de resposta do carro mal abastecido é o acendimento de luzes no painel. “O combustível alterado faz com que sature a leitura dos sensores e faz ligar essa luz”, aponta o especialista.
Denis Marum, mecânico com formação em engenharia mecânica, afirma que a perda de potência é um sinal claro de combustível adulterado por metanol.
“Assim que você abastece, o pedal do acelerador fica ‘borrachudo’. Você sente que precisa acelerar mais para obter a mesma velocidade”, diz.
Marum aponta outros indícios, como:
- Consumo elevado: “geralmente, o consumo médio despenca 30%. É fácil de perceber para quem faz o mesmo percurso diariamente: o tanque dura menos”, diz o especialista;
- Dificuldade para pegar pela manhã;
- Ruído do motor semelhante ao de uma corrente de bicicleta trocando de marcha. “Esse ruído ocorre nas saídas e, principalmente, em subidas, momentos em que o motor é mais exigido”, aponta;
- Odores estranhos saindo do escapamento;
- Cheiro de solvente ou querosene.
