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O colesterol de origem genética que a estatina não baixa (e que pode triplicar o risco de infarto)

por Gilberto Cruz
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Robina Weermeijer/Unsplash
A aprovação do primeiro comprimido contra o colesterol “ruim”, anunciada nesta quinta-feira (16) nos Estados Unidos, soma-se a um leque cada vez maior de remédios voltados ao LDL. Nenhum deles, porém, atua sobre um tipo específico de colesterol que inquieta os cardiologistas —e que a maior parte das pessoas nunca mediu.
É a lipoproteína(a), ou Lp(a): uma fração determinada quase inteiramente pela genética que, quando elevada, se associa a um risco até três vezes maior de infarto.
O nome já entrega uma peculiaridade. O “a” é escrito em minúsculo, e entre médicos a molécula costuma ser tratada no diminutivo. Por trás do apelido, no entanto, há um fator de risco que só agora começa a ganhar atenção na rotina dos consultórios —impulsionado tanto por novas recomendações quanto pela expectativa dos primeiros remédios capazes de reduzi-la.
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Um colesterol que se herda
Ao contrário do LDL, que sobe e desce conforme alimentação, peso e medicação, a lipoproteína(a) é definida sobretudo pela herança familiar.
Cerca de 90% do valor de cada pessoa vem da genética, segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).
Estima-se que cerca de uma em cada cinco pessoas tenham níveis elevados —na maioria das vezes, sem saber.
“A lipoproteína(a) é determinada principalmente pela genética, e não é algo que se corrija com dieta. A pessoa nasce com uma tendência a tê-la mais alta ou mais baixa”, afirma.
É essa origem que a torna, ao mesmo tempo, importante e difícil de enfrentar: dieta, exercício e estatinas —pilares do controle do colesterol— praticamente não a alteram.
O risco
O interesse pela lipoproteína(a) cresceu à medida que estudos observacionais associaram seus níveis altos a desfechos graves. Segundo Mattar, valores acima de cerca de 50 mg/dL —o equivalente ao quartil mais alto da população— relacionam-se a um risco cerca de três vezes maior de infarto. A fração também favorece a calcificação da válvula aórtica, problema comum em idosos.
ℹ️ Por atuar de forma independente do LDL, a lipoproteína(a) funciona como um marcador adicional: duas pessoas com o mesmo colesterol “ruim” podem ter riscos cardiovasculares diferentes a depender desse valor.
Por que quase ninguém dosou
Durante anos, medir a lipoproteína(a) fazia pouca diferença prática: não havia tratamento específico, e o resultado raramente mudava a conduta. Esse cenário começou a virar.
A diretriz de dislipidemia publicada em março de 2026 pelo American College of Cardiology e pela American Heart Association, ao lado de outras entidades médicas, passou a recomendar a dosagem da lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida para todos os adultos —orientação também defendida por Mattar.
“A recomendação hoje é que cada pessoa dose a lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida, para conhecer o próprio risco cardiovascular”, diz.
Trata-se de um exame de sangue simples, feito uma única vez, já que o valor tende a permanecer estável ao longo da vida. Descobrir uma lipoproteína(a) alta não significa, por ora, iniciar um remédio para baixá-la —mas serve de alerta para controlar com mais rigor tudo aquilo que se consegue mudar.
“Quem tem a lipoproteína(a) elevada precisa se cuidar mais: manter o LDL baixo, os triglicérides controlados, a pressão e a glicemia em ordem, além de atividade física e alimentação equilibrada”, orienta o cardiologista.
Os primeiros remédios
A lacuna terapêutica pode estar perto do fim. Diversas empresas testam substâncias voltadas a reduzir a lipoproteína(a), e a mais avançada é o pelacarseno, da Novartis, uma injeção mensal que, em estudos iniciais, reduziu a fração em torno de 80%.
O medicamento é o foco do estudo Horizon, o primeiro grande ensaio a investigar se baixar a lipoproteína(a) de fato diminui infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) —com mais de 8 mil pacientes acompanhados por anos.
Os resultados são esperados ao longo de 2026, com apresentações aguardadas no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), marcado para o fim de agosto, em Munique. Outras terapias, incluindo uma versão em comprimido, também estão em teste.
Mattar faz, porém, uma ressalva que separa a promessa da comprovação: reduzir a lipoproteína(a) ainda não é o mesmo que reduzir eventos.
“Provavelmente baixar a lipoproteína(a) trará benefício, mas ainda não temos estudos que confirmem isso. Pesquisas capazes de mostrar redução de infartos e AVCs precisam de mais de cinco anos de acompanhamento”, explica.
É essa lacuna que os estudos das próximas semanas começam a preencher: mostrar não apenas o quanto os novos remédios derrubam a lipoproteína(a), mas se essa queda se traduz em menos infartos.
Por enquanto, a lipoproteína(a) é um número que vale a pena conhecer mesmo sem um remédio para mudá-lo —porque indica o quanto é preciso proteger todo o resto.
E, em questão de meses, a medicina pode descobrir se um risco que, por muito tempo, só sabia nomear finalmente poderá ser reduzido, e, sobretudo, se reduzi-lo salva vidas.

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