Menopausa ou doença reumatológica? Entenda quando dores nas articulações são sinal de alerta
Adobe Stock
Dores nas articulações, músculos e tendões são frequentes durante a menopausa e podem estar relacionadas à queda do estrogênio. Mas nem todo desconforto nessa fase da vida é consequência das alterações hormonais. Quando a dor persiste, limita as atividades cotidianas ou vem acompanhada de sinais como inchaço nas articulações, rigidez prolongada ao acordar e fraqueza muscular importante, é hora de procurar um reumatologista, destacam especialistas ouvidos pelo g1.
Esses sintomas podem indicar doenças como artrite reumatoide, artrose, fibromialgia ou polimialgia reumática, que podem surgir ou se manifestar justamente no período da menopausa. Segundo especialistas, atribuir todas as dores à queda hormonal pode atrasar o diagnóstico de condições que precisam de tratamento específico.
O reumatologista Valderílio Feijó Azevedo, presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), explica que a avaliação especializada é especialmente importante quando as dores persistem, comprometem a rotina ou aparecem acompanhadas de sinais de inflamação.
Ao mesmo tempo, a redução do estrogênio pode provocar alterações em músculos, ossos, articulações, tendões e ligamentos, afetando a mobilidade, a força e a qualidade de vida das mulheres.
Agora no g1
Essas manifestações vêm sendo agrupadas sob a denominação de síndrome musculoesquelética da menopausa, termo proposto em 2024 para descrever um conjunto de alterações associadas à queda hormonal. A nomenclatura, porém, ainda não é completamente consagrada na comunidade científica.
O ginecologista Marcelo Luis Steiner, membro da Comissão Nacional Especializada em Osteoporose da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), explica que a expressão ajuda a dar visibilidade a sintomas que, durante muito tempo, não foram diretamente associados à menopausa.
Quais sinais indicam que é hora de procurar um reumatologista?
Embora as dores articulares sejam frequentes na transição para a menopausa, algumas características podem indicar que o problema não está relacionado apenas à redução do estrogênio.
De acordo com Azevedo, os principais sinais de alerta são:
Inchaço, calor ou vermelhidão nas articulações: podem indicar um processo inflamatório que precisa ser investigado.
Rigidez prolongada ao acordar: especialmente quando dura mais de 30 a 60 minutos.
Dor que interrompe o sono: principalmente quando acorda a mulher durante a noite ou não melhora com o repouso.
Fraqueza muscular importante: dificuldade para subir escadas ou levantar os braços, por exemplo.
Dor intensa e rigidez nos ombros e quadris: sobretudo quando começam recentemente e aparecem após os 50 anos.
Sintomas associados: febre, perda de peso, cansaço desproporcional, manchas na pele, olhos ou boca secos e dedos que mudam de cor no frio.
Alterações nos exames: marcadores inflamatórios elevados ou presença de determinados autoanticorpos.
Fraturas após pequenos traumas ou perda de altura: podem indicar comprometimento da saúde óssea.
Dor persistente que limita a rotina: especialmente quando não melhora mesmo após as primeiras medidas de tratamento.
A presença desses sinais não significa necessariamente que a mulher tenha uma doença reumatológica, mas indica a necessidade de investigação para identificar a origem dos sintomas.
Segundo Azevedo, a avaliação deve considerar tanto as mudanças hormonais quanto a possibilidade de outras doenças que podem surgir nessa fase da vida.
Por que as dores da menopausa podem ser confundidas com doenças reumatológicas?
Um dos principais desafios é diferenciar as manifestações associadas à menopausa de doenças que apresentam sintomas semelhantes.
No Brasil, a menopausa ocorre, em média, por volta dos 48 anos. Steiner explica que, nesse período, muitas mulheres também apresentam alterações no sono, que podem intensificar a sensação de dor e o cansaço.
A combinação desses fatores dificulta a identificação da origem das queixas. Azevedo destaca que, nas manifestações musculoesqueléticas atribuídas à menopausa, geralmente não são encontrados sinais objetivos de inflamação nas articulações, e os exames podem permanecer normais.
Já algumas doenças reumatológicas apresentam características específicas que ajudam a orientar o diagnóstico, como:
Artrite reumatoide
É uma doença inflamatória que pode provocar inchaço nas articulações, especialmente nos punhos e nas pequenas articulações das mãos e dos pés.
Uma característica importante é a rigidez matinal prolongada, que costuma durar mais de uma hora.
Exames laboratoriais também podem identificar alterações em marcadores inflamatórios e autoanticorpos.
Segundo Azevedo, a artrite reumatoide apresenta um pico de incidência justamente na faixa etária em que muitas mulheres atravessam a menopausa.
Artrose
A dor costuma piorar com o uso das articulações e melhorar com o repouso. A rigidez ao acordar geralmente é mais curta, com duração inferior a 30 minutos.
A doença pode atingir joelhos, quadris e articulações das mãos, provocando alterações como nódulos e estalos articulares.
A menopausa pode acelerar determinadas manifestações da artrose, e as duas condições podem coexistir.
Fibromialgia
Caracteriza-se por dor generalizada que persiste por mais de três meses, frequentemente acompanhada de fadiga intensa, sono não reparador, dificuldades cognitivas e maior sensibilidade à pressão.
A distinção em relação às dores associadas à menopausa pode ser particularmente difícil, porque os exames laboratoriais podem estar normais nas duas situações.
Além disso, fibromialgia e menopausa podem apresentar manifestações simultâneas.
Polimialgia reumática
Deve ser considerada especialmente em mulheres com mais de 50 anos que apresentam dores intensas e rigidez nos ombros e quadris.
Diferentemente das manifestações atribuídas apenas à menopausa, a doença costuma apresentar elevação importante dos marcadores inflamatórios.
O que é a síndrome musculoesquelética da menopausa?
O termo síndrome musculoesquelética da menopausa foi proposto em 2024 por pesquisadores em um artigo publicado na revista científica Climacteric e a expressão ainda não representa uma classificação amplamente estabelecida. A proposta do termo é reunir diferentes manifestações associadas à redução do estrogênio durante a transição menopausal e após a menopausa — a última menstruação da mulher, confirmada após 12 meses consecutivos sem fluxo menstrual.
Entre elas estão dores articulares, perda de massa e força muscular, redução da massa óssea, alterações nos tendões e maior ocorrência de algumas condições, como tendinopatias, capsulite adesiva — conhecida como ombro congelado — e progressão da artrose.
Steiner explica que a perda do estrogênio produz alterações que vão muito além das articulações, atingindo diferentes sistemas do organismo.
No sistema musculoesquelético, essas mudanças podem comprometer a manutenção da massa óssea, da musculatura e das estruturas articulares.
O estrogênio atua em diferentes tecidos do aparelho locomotor, incluindo cartilagens, músculos, ossos, tendões e ligamentos.
Com a redução hormonal, ocorrem alterações em diferentes processos biológicos:
Inflamação: a diminuição do estrogênio favorece um ambiente de inflamação de baixo grau.
Tendões e ligamentos: alterações na produção e na qualidade do colágeno podem tornar essas estruturas mais rígidas e menos resistentes.
Cartilagens: mudanças no metabolismo das células podem favorecer processos degenerativos.
Músculos: a redução da resposta de manutenção e recuperação muscular contribui para a perda de massa e força.
Ossos: aumenta a reabsorção óssea, favorecendo a perda de massa óssea.
Percepção da dor: alterações no processamento da dor, associadas à piora do sono, podem aumentar a sensibilidade aos estímulos dolorosos.
O resultado é que algumas mulheres passam a sentir dores em diferentes regiões do corpo, acompanhadas de perda de força e dificuldades para realizar atividades que antes faziam parte da rotina.
Como os médicos identificam a origem das dores?
Não existe um exame específico capaz de confirmar a chamada síndrome musculoesquelética da menopausa.
Segundo Azevedo, o diagnóstico é essencialmente clínico e envolve a exclusão de outras doenças que possam explicar os sintomas.
O médico avalia o histórico da paciente, a fase da transição menopausal, a presença de ondas de calor e outras manifestações hormonais, além das características da dor.
O exame físico também é importante para identificar sinais de inflamação articular, perda de força ou alterações na mobilidade.
Dependendo dos sintomas, a investigação pode incluir hemograma, marcadores inflamatórios, avaliação da função tireoidiana, vitamina D, glicemia e exames para pesquisar doenças autoimunes.
A dosagem de hormônios como FSH e estradiol, isoladamente, não confirma a síndrome. Exames de imagem podem ser solicitados conforme a localização e as características da dor.
Steiner destaca que a densitometria óssea pode ajudar a identificar a perda de massa óssea e avaliar o risco de osteoporose e fraturas.
Também podem ser realizadas avaliações da massa e da força muscular para investigar alterações como a sarcopenia, caracterizada pela perda de massa e função muscular.
Em determinados casos, o acompanhamento conjunto entre ginecologista e reumatologista é importante para diferenciar as manifestações hormonais de outras doenças.
Sedentarismo, excesso de peso e sono ruim podem agravar os sintomas
Embora a queda do estrogênio tenha um papel importante nas alterações musculoesqueléticas, outros fatores podem intensificar as dores.
Steiner explica que mulheres que mantêm uma rotina de atividade física, alimentação adequada, peso saudável e sono de boa qualidade tendem a apresentar menor impacto dos sintomas associados à menopausa.
O sedentarismo, o excesso de peso e a perda de massa muscular podem agravar o comprometimento das articulações e dificultar a manutenção da força.
O sono também desempenha um papel importante. Durante a menopausa, ondas de calor e sudorese podem prejudicar o descanso noturno.
A privação ou fragmentação do sono, por sua vez, aumenta a sensibilidade à dor e pode contribuir para o cansaço persistente.
Essas alterações podem se somar, criando uma situação em que a mulher sente mais dor, reduz a atividade física e passa a ter maior dificuldade para preservar a musculatura.
Para Steiner, a adoção de hábitos saudáveis antes e durante a transição menopausal é uma estratégia importante para reduzir o impacto dessas manifestações.
Exercícios físicos e fortalecimento muscular são pilares do tratamento
O tratamento depende da intensidade dos sintomas, das condições de saúde da paciente e da identificação de possíveis doenças associadas.
Segundo Azevedo, a atividade física é a intervenção com evidências científicas mais sólidas para preservar a saúde musculoesquelética durante a menopausa.
O treinamento progressivo de força ajuda a preservar a massa muscular, a saúde óssea e a capacidade funcional.
Exercícios de impacto, quando tolerados, também podem contribuir para a manutenção da massa óssea. Já as atividades voltadas ao equilíbrio ajudam a prevenir quedas.
Além dos exercícios, os especialistas destacam a importância da alimentação adequada, com ingestão suficiente de proteínas, correção de eventuais deficiências de vitamina D e cuidados com o sono.
Steiner também ressalta a importância da saúde mental e do bem-estar psicológico no manejo dos sintomas.
Quando há dor persistente, medicamentos podem ser utilizados como parte do tratamento.
Azevedo explica que analgésicos e anti-inflamatórios podem ajudar no controle dos sintomas, mas seu uso deve considerar possíveis riscos, especialmente gastrointestinais, renais e cardiovasculares.
Em determinados quadros de dor crônica, medicamentos que atuam nos mecanismos de processamento da dor também podem ser considerados.
Quando há osteoporose ou risco elevado de fraturas, é necessário tratamento específico para a saúde óssea.
Terapia hormonal pode ajudar a aliviar as dores?
A terapia hormonal também pode ter um papel no manejo das manifestações musculoesqueléticas, mas não é indicada indiscriminadamente.
Segundo Azevedo, pesquisas do programa americano Women’s Health Initiative (WHI) identificaram menor frequência de queixas articulares entre mulheres que utilizaram estrogênio em comparação com aquelas que receberam placebo.
O especialista também destaca que a terapia hormonal pode ajudar a prevenir a perda de massa óssea.
Entretanto, o tratamento hormonal não possui indicação formal exclusivamente para aliviar dores musculoesqueléticas.
Sua utilização deve considerar o conjunto de sintomas da menopausa, especialmente ondas de calor e outras manifestações vasomotoras, além dos riscos e benefícios individuais.
Azevedo explica que o balanço entre riscos e benefícios tende a ser mais favorável em mulheres com menos de 60 anos ou que estejam há menos de dez anos na menopausa, conforme análises posteriores do WHI.
Steiner também considera a terapia hormonal uma possibilidade terapêutica, sobretudo quando as dores aparecem associadas a outros sintomas da menopausa, como sudorese, ondas de calor e manifestações geniturinárias.
A decisão deve ser individualizada e discutida com o ginecologista, levando em conta o histórico clínico e as necessidades de cada paciente.
Dor na menopausa não deve ser ignorada
Embora as queixas musculares e articulares sejam frequentes, sua ocorrência não significa que a mulher precise conviver com dores persistentes ou limitações nas atividades diárias.
Steiner destaca que essas manifestações receberam historicamente menos atenção do que sintomas mais conhecidos da menopausa, como ondas de calor e sudorese.
Segundo ele, a literatura apresenta estimativas bastante variadas, com alguns relatos apontando sintomas musculoesqueléticos em até 70% das mulheres.
Para os especialistas, reconhecer a possível relação entre as dores e a queda hormonal é importante, mas também é necessário evitar que essa associação atrase o diagnóstico de outras doenças.
A presença de inchaço articular, rigidez prolongada, perda importante de força, sintomas sistêmicos ou dores que comprometem a rotina deve motivar uma investigação.
A avaliação precoce permite identificar doenças reumatológicas, orientar o tratamento e adotar medidas para preservar a força muscular, a saúde óssea e a qualidade de vida.
Jornal de Minas Ltda © Todos direitos reservados CNPJ: 65.412.550/0001-63
