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Durante 11 anos, Fernanda Fabris fez exames, seguiu tratamentos e ouviu de sucessivos médicos que a gravidez não vinha por causa da ansiedade. No intervalo, atravessou três depressões e a pergunta que a perseguia em cada reunião de família: cadê o bebê. Hoje, aos 39, ela é mãe de seis —nenhum gerado por ela, todos chegados pela adoção, a maioria numa idade que quase ninguém escolhe.
A trajetória dela desmonta a fantasia que muita gente carrega sobre adotar: a da criança de braços abertos, esperando por uma família feliz. O que Fernanda encontrou foi outra coisa.
Um filho de três anos cujo corpo entrava em crise, parecido com uma convulsão, na primeira noite em casa. Uma filha de nove que repetia, três vezes por semana, que não a queria como mãe. Um adolescente de 17 anos que ainda não sabia ler. E, no fim de cada história, a mesma travessia lenta até que um vínculo se formasse.
Nenhum desses começos foi fácil, mas todos levaram ao mesmo lugar: uma família de seis filhos que hoje se ama e é feliz, do jeito real que a felicidade tem, construída dia após dia.
O luto por não gerar
O desejo de ser mãe pela adoção veio cedo, por volta dos 13 anos, do contato com crianças de abrigo e de histórias de adoção dentro da própria família. Ainda assim, Fernanda casou jovem e quis, também, engravidar. Fez o acompanhamento completo, assim como o marido, Maurício. Nenhum dos dois tinha qualquer impedimento clínico.
Mesmo assim, os anos passaram sem gravidez, e a explicação que recebia era sempre a mesma: era emocional, logo aconteceria.
Ela conta que criou uma prisão para si mesma. A cobrança de gestar, de dar um neto à mãe, de ser “suficientemente mulher” pela via da barriga foi empurrando para segundo plano justamente aquilo que sempre havia sido o seu desejo real.
Perto dos 30 anos, um médico foi o primeiro a mencionar a fertilização in vitro —e, para surpresa dela, a sugestão a libertou. Percebeu ali que a fertilização não era um caminho que queria percorrer.
A partir daquele dia começou o que chama de luto por não poder gerar, um processo que durou cerca de um ano e meio e no fim do qual reencontrou o que queria desde a adolescência: adotar. Não um bebê, mas um pré-adolescente ou adolescente, a faixa etária com que se identificava e que sabia ser a menos procurada.
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Quatro irmãos numa foto
A decisão inicial era adotar até duas crianças. Fazendo doutorado na época, Fernanda digitou “documentos para adotar” no buscador e caiu no Adote um Boa Noite, programa do Tribunal de Justiça de São Paulo que divulga crianças e adolescentes aptos à adoção.
Numa das últimas fotos, apareceu um grupo de irmãos, com os nomes e as idades —e ela soube, na hora, que eram seus filhos.
Maurício resistiu. Quatro de uma vez parecia irresponsável, e ele tentou, por semanas, demovê-la da ideia. Foram três meses de palestras de preparação até que também se abrisse a ela.
Do outro lado, a equipe técnica da vara da infância recebeu o casal com desconfiança —um pretendente que aparece querendo adotar quatro irmãos de idades diferentes não é o roteiro esperado. Ainda assim, o processo avançou.
Depois da habilitação, a etapa em que os pretendentes passam por avaliações e cursos até serem aprovados, veio a aproximação. Os filhos tinham 3, 6, 9 e 11 anos. O período previsto de convivência gradual, de seis meses, se resolveu em poucos encontros, e a guarda provisória saiu rápido.
A rejeição como defesa
O real chegou junto com as crianças. Na primeira noite, o menino de 3 anos teve um episódio que lembrava uma convulsão —mas era estresse, ansiedade que o corpo dele não conseguia colocar em palavras. Quanto mais Fernanda tentava acalmá-lo no colo, mais a crise se intensificava.
A filha de 9 anos, Flávia, era incisiva ao dizer que não a queria, que aquela não seria sua mãe, que queria ir embora. O menino de 6 pedia com frequência para voltar ao abrigo.
Esse tipo de recepção é a regra, não a exceção, explica a psicóloga Renata Travain, especialista em adoção e autora do prefácio do livro em que Fernanda relata a própria história.
São crianças que passaram por rupturas sucessivas —perderam a família de origem, foram para um abrigo ou uma família acolhedora, muitas vezes voltaram e foram retiradas de novo— e chegam com o que a área chama de trauma complexo de relacionamento: negligência, abusos, agressões.
O comportamento difícil que aparece logo nos primeiros meses, diz ela, é apenas a superfície.
“O que os pais leem como afronta é, quase sempre, uma estratégia de sobrevivência”, afirma.
Segundo a psicóloga, o trauma não se restringe à conduta: atinge cinco áreas ao mesmo tempo —o comportamento, o cérebro, o corpo, a biologia e as crenças da criança—, e é esse conjunto que precisa de cuidado, não só a birra ou a recusa visível.
Há ainda um segundo componente por trás da rejeição, e ele mora em quem adota. Renata observa que os pais chegam com uma idealização —de como a criança seria, de como eles próprios se veriam no papel de mãe e pai— e que o choque vem quando a realidade não coincide com a fantasia. Quanto mais velha a criança, mais explícito o descompasso.
Ela relembra uma cena que Fernanda costuma contar: ao tentar ensinar Flávia a cuidar do próprio cabelo, bem cacheado, a menina desmanchava o penteado bem na frente da mãe, de propósito, para marcar distância. Não era teimosia. Era teste, era medo, era a única forma que a criança tinha de perguntar se aquele vínculo resistiria.
O mito de que o amor basta
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Poucas ideias atrapalham mais quem vai adotar, na avaliação de Renata, do que a de que amar é suficiente. Ela chama isso de romantização e recorre a uma imagem para explicar.
“O amor é o ponto de partida. Sem ele não há relação, mas sozinho ele não sustenta nada — cria as condições para o vínculo, não o vínculo pronto”, diz. É como uma planta, compara: precisa de água, de terra, de adubo, e nenhum desses elementos, isolado, faz a flor crescer.
O que os pais precisam entender, resume, é que os impactos do trauma e do luto são reais e profundos, e que esse luto pede para ser nomeado e validado, não abreviado.
A psicóloga acrescenta um ponto que costuma surpreender: existe puerpério na adoção. Não o dos hormônios e da quarentena, mas uma reorganização psíquica e concreta de quem, de uma hora para outra, precisa descobrir quem é como mãe —e ainda resolver quem leva à escola, quem busca, a que horas é o almoço.
Fernanda viveu isso multiplicado por quatro. Virou mãe de quatro crianças em fases de desenvolvimento distintas no mesmo dia, e Renata insiste que ninguém atravessa esse momento sozinho. Ter com quem desabafar e dividir os dias mais críticos, diz, não é luxo: é o que sustenta o adulto para que ele consiga sustentar a criança.
O relógio dos 18 anos
Com a primeira adoção consolidada, Fernanda passou a acompanhar projetos sociais, e foi num deles que conheceu Nati, então com 16 anos. Um desenho da menina, feito sem nariz, lembrou a imagem distorcida que a própria filha tinha do rosto.
Ao ouvir Fernanda dizer que os 17 anos eram uma boa idade, Nati respondeu que eram bons, sim —para os outros, não para ela: no ano seguinte estaria fora do abrigo. É o desligamento compulsório aos 18, quando o jovem que não foi adotado deixa o acolhimento sem necessariamente ter para onde ir.
O plano inicial não era adotar, e sim apadrinhar —o apadrinhamento afetivo, em que uma família se torna referência e recebe o jovem em casa sem vínculo de filiação. Como a cidade ainda não tinha o programa, o casal pediu autorização à promotoria.
Mas a convivência se aprofundou, e Fernanda e Maurício decidiram se tornar a família de Nati. Como ela já tinha 17 anos e meio, a Justiça recorreu à adoção por vínculo, possível quando já existem convivência e laço afetivo prévios.
Nati chegou obediente e educada demais, a “filha perfeita”, o que estranhamente preocupou uma mãe já acostumada aos desafios. Só depois que a sentença de adoção saiu, e a menina se sentiu segura, é que as feridas apareceram. Fernanda precisou entender que o que via não era um transtorno à espera de remédio, e sim trauma —marcas que o amor, sozinho, não curava. Com ajuda profissional e tempo, o vínculo se construiu. Nati está perto dos 21 anos e se forma na faculdade no ano que vem.
O menino que chegou em silêncio
O sexto filho apareceu numa foto, como os primeiros. Numa viagem em que viu os cinco sorrindo de verdade pela primeira vez, Fernanda reconheceu, no anúncio de Emanuel, o próprio contexto de casa: um menino que gostava de igreja, de plantas e de animais, e que pedia uma família que o ajudasse a estudar. Dessa vez a certeza não veio da emoção. Veio depois de ela se questionar, muitas vezes, se estava disposta a viver tudo de novo.
Emanuel, pernambucano, tinha 17 anos e era extremamente calado. Nos primeiros encontros on-line não disse nada; nos cinco dias que a família passou em Pernambuco, também não. Foi a primeira vez que Fernanda duvidou que fosse dar certo. Só na audiência ele afirmou que queria ser filho deles.
A primeira conversa de verdade aconteceu no avião, quando perguntou a idade da mãe. Mais experiente, Fernanda fez o oposto das outras vezes: não ficou em cima, deixou o menino falar quando quisesse. Foram dois meses de quase completo silêncio até as primeiras frases surgirem.
O desafio maior era outro. Aos 17 anos, Manu não estava alfabetizado — ão lia palavras básicas e ainda constava matriculado na quinta série, para a qual havia sido promovido de forma abrupta durante o período no abrigo. Encontrar escola virou um problema.
Numa instituição voltada a acelerar a Educação de Jovens e Adultos (EJA), ele foi convidado a se retirar na primeira dificuldade de leitura, o que levou a família a recorrer à vara da infância. A decisão foi tirá-lo do ensino convencional e apostar no acompanhamento com psicopedagogas. Em oito meses, Manu aprendeu a ler e a escrever.
Foi aí que Fernanda formulou o que considera o principal erro de quem adota.
“A gente acha que vai consertar aquela criança. Mas eles não precisam de um mecânico. Precisam de pai, de mãe, de família”, diz.
A partir dessa ideia, passou a resolver as questões dos filhos uma ou duas por vez, sem tentar reparar tudo de uma vez. Uma avaliação neuropsicológica ajudou a entender o quanto a falta de estímulo na primeira infância havia prejudicado o desenvolvimento de Manu.
E, em vez de insistir no diploma que a escola cobrava, a família seguiu o que via: o menino voltava triste do ensino formal e se iluminava quando cuidava de um jardim. Hoje Manu é jardineiro. Numa cultura em que o trabalho, para ele, sempre esteve ligado ao próprio valor, ter tirado essa ocupação para forçá-lo a estudar, admite Fernanda, tinha corroído sua autoestima.
Família de Fernanda
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Como se constrói um vínculo
A pergunta que Fernanda respondeu no tato —como fazer uma criança ferida confiar de novo— é a mesma que Renata diz repetir em toda aula que dá sobre trauma, luto e vínculo. A resposta não tem atalho. Começa por paciência e por tempo, mas um tempo que trabalha a favor apenas quando há movimento.
“De braços cruzados, a coisa só piora”, resume.
O segundo pilar é a segurança, e segurança, no vocabulário dela, é sobretudo previsibilidade: rotina estruturada, sono de qualidade, alimentação, toque, contato visual e brincadeira. É esse conjunto banal do dia a dia que vai, aos poucos, reduzindo o medo de quem chegou a um ambiente completamente desconhecido.
Por trás dessa lista está uma inversão que a psicóloga faz questão de marcar. A adoção não é o desfecho feliz de uma história, e sim o início de outra —que só existe porque uma anterior ficou para trás. Daí o cuidado que ela pede aos pais no impulso, tão comum, de mostrar à criança tudo o que ela ganhou ao chegar a uma nova casa.
“Soa generoso, mas apaga o que ela perdeu. A criança precisa saber que tem direito de sofrer por isso”, diz. Não se constrói futuro apagando o passado, e sim integrando os dois.
Foi o que Fernanda descreve de outro jeito ao contar como o vínculo com cada filho se formou por etapas: primeiro uma amizade, depois as afinidades, e só então a relação de mãe e filho —sempre bilateral, sempre no tempo da criança.
O mito do abandono
Uma parte importante do que Fernanda aprendeu tem a ver com a origem dessas crianças —e com uma imagem equivocada que o país ainda carrega. A maioria, diz ela, não foi abandonada. Foi retirada.
O acolhimento é uma medida excepcional e provisória, aplicada quando há risco concreto à criança, e a maior parte dos casos parte de negligência: descuido com saúde e educação, ausência de vínculo afetivo, muitas vezes atravessada pelo uso de álcool e outras drogas. Abuso e maus-tratos vêm em seguida; a entrega voluntária e legal é uma fatia pequena.
Renata acrescenta a esse retrato uma camada que evita a caricatura. Negligenciar não é sinônimo de não amar, diz a psicóloga. Muitos pais biológicos fazem o que conseguem com os recursos que têm, e a criança é retirada porque precisa de mais cuidado e de mais oportunidade —não porque tenha sido rejeitada.
Para a criança, o efeito é ainda mais confuso, porque aquela é a única família que ela conheceu. “Ela não tem com o que comparar. Não sabe que poderia ter sido mais bem cuidada”, explica.
É por isso que Fernanda insiste, com os filhos, no respeito à história de cada um —em que a culpa não foi deles, e em que alguns mantêm contato com a família de origem e outros não, conforme o que faz bem a cada um.
Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a partir dos 12 anos o adolescente tem voz ativa no processo. Mas ter voz não é entender o que está em jogo: por cerca de oito meses, Fernanda perguntou a Emanuel o que significava ter sido adotado, e ele não conseguia responder.
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Antes de decidir
Chega um ponto em que a conversa deixa de ser sobre as crianças e passa a ser sobre quem quer adotá-las.
No cenário ideal, diz Renata, os pais fazem o próprio trabalho terapêutico antes, revisitam a história de vida e as próprias dores —porque é com tudo isso que vão criar o filho.
A segunda recomendação é conhecimento: entender o que são trauma, luto e vínculo, e o que os comportamentos da criança querem dizer, para não interpretá-los como provocação gratuita.
A terceira é apoio, de novo, e não só dos pais. Avós, tios e cuidadores também precisam rever crenças, porque a parentalidade adotiva, no modo como ela descreve, é uma construção coletiva que exige desmontar tabus antigos.
Fernanda tem a sua própria dica para esse momento, tirada da parte mais técnica do processo —o formulário em que o pretendente descreve o perfil da criança que aceita, no Sistema Nacional de Adoção (SNA). Ali se responde se aceita uma criança com trauma, filha de dependentes químicos, com histórico de abuso, com determinada etnia, com alguma doença. Quanto mais restrições, maior a espera.
E, segundo ela, não é hora de ser emocional nem de temer o julgamento alheio, e sim de ser honesto consigo sobre o que se quer e o que se consegue viver. Quem sonha em ninar e amamentar um bebê que enfrente a fila e espere os anos necessários. Quem se identifica com os mais velhos encontra nos grupos de irmãos e na busca ativa —o mecanismo que apresenta a pretendentes já habilitados as crianças de perfil considerado mais difícil— um caminho mais rápido.
Quase dois anos depois da chegada de Emanuel, o vínculo com ele ainda está se formando, e Fernanda faz questão de dizer que foi assim com todos. O laço, ela aprendeu, só nasce quando os dois lados têm liberdade para ser quem são —o filho, sem medo de ser devolvido; a família, sem medo de não ser amada de volta.
É um trabalho que também fere quem acolhe, e que, ao fim, desloca a pergunta de onde ela partiu. Não se trata de gerar. Trata-se de sustentar, todos os dias, uma história que começou muito antes.
O que considerar antes de adotar?
Orientações da psicóloga Renata Travain, especialista em adoção:
Amor é o ponto de partida, não a solução. Ele cria as condições para o vínculo, mas não apaga sozinho os efeitos do trauma e do luto —que são reais e profundos.
O comportamento é só a ponta. A recusa, a birra e a necessidade de controlar o ambiente são a parte visível de um trauma que atinge também o cérebro, o corpo, a biologia e as crenças da criança. É o conjunto que pede cuidado.
Faça o próprio trabalho antes. No cenário ideal, os pais tratam as próprias dores e revisitam a história de vida em terapia, porque é com ela que vão criar o filho.
Busque conhecimento. Entender o que são trauma, luto e vínculo ajuda a ler os comportamentos como estratégia de sobrevivência, e não como provocação.
Prepare-se para o “puerpério da adoção”. Receber um filho, em qualquer idade, exige uma reorganização emocional e prática: quem chega fragilizado precisa se descobrir mãe ou pai enquanto reorganiza a rotina da casa.
Monte uma rede de apoio. Ter com quem dividir os dias mais difíceis sustenta o adulto para que ele consiga sustentar a criança.
Não apague o passado. Mostrar só o que a criança ganhou invalida o que ela perdeu. O caminho é integrar passado e presente, dando espaço ao luto.
Vínculo se constrói na rotina. Previsibilidade, sono, alimentação, toque, contato visual e brincadeira reduzem o medo —com paciência e um tempo que só trabalha a favor quando há movimento.
Envolva a família toda. Avós, tios e cuidadores também precisam rever crenças e tabus: a parentalidade adotiva é uma construção coletiva.
