Mendonça determina afastamento de diretor-geral da PF
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), citou o livro “1984”, de George Orwell, ao descrever como grave o contexto envolvendo a produção e a circulação de relatórios de inteligência. A referência aparece na decisão em que Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
BLOG DA SADI: Em decisão para afastar diretor da PF, André Mendonça cita 1984, de George Orwell
Ao citar a obra, o ministro compara o cenário apresentado nos documentos a uma das principais características da distopia de Orwell: a vigilância constante exercida pelo poder sobre os indivíduos.
Mendonça escreveu que o caso dos relatórios criados pela PF “mais se assemelha ao cenário concebido por George Orwell em sua célebre distopia, intitulada ‘1984’”. Segundo ele, a suposta produção dos relatórios pela força policial, o fato de o ministro Alexandre de Moraes ter sido informado previamente sobre eles e a posterior divulgação dos documentos seriam fatos de “extrema gravidade”.
A distopia foi lançada em 1949. Na metáfora sobre totalitarismo de Orwell, o Grande Irmão é uma figura soberana na sociedade, que exerce vigilância e controle totais sobre a vida dos indivíduos. Todo mundo é filmado e controlado.
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Capa da última edição de ‘1984’.
Reprodução/Principis Editora
Relembre o livro
As analogias críticas do autor inglês (“1984” e “A revolução dos bichos”) sempre estão nas listas de obras de ficção mais vendidas no Brasil. Orwell é único autor do século passado entre os best sellers no país.
“1984” tem mais de 70 anos, mas é cada vez mais buscada no Brasil. Ela se mantém atual e “traduz a conjuntura política mundial”, avaliou o cientista político Márcio Juliboni ao g1 em 2022.
Segundo ele, “o mérito de grandes escritores é perceber características mais perenes na sociedade”.
“Orwell queria prevenir seus contemporâneos do que seria o totalitarismo. Mas ele foi tão preciso e eloquente nessa discussão que os casos que extraiu de lá são válidos até hoje.”
Também pode ter influência internacional nesta conta. Em 2017, “1984” liderou as listas de mais vendidos nos Estados Unidos após declarações de Donald Trump. No mesmo ano, a Amazon classificou o livro como o 1º lugar em uma lista de títulos para ler antes de morrer.
A obra também atingiu pico de vendas em 2013, após Edward Snowden revelar casos de espionagem de cidadãos americanos pelo governo.
“É impressionante observar a força não só dos originais, mas também o interesse do público por atualizações da obra de Orwell, principalmente pela força e a originalidade do seu estilo”, afirmou Emilio Fraia, editor da Companhia das Letras, editora dos dois livros no Brasil.
Por que Mendonça citou ‘1984’
Ao mencionar “1984”, Mendonça estaria associando o episódio a um cenário em que estruturas de poder produzem e acumulam informações sobre indivíduos, especialmente quando esses dados são obtidos e compartilhados dentro de estruturas estatais.
No trecho da decisão, Mendonça afirma que os acontecimentos têm repercussões não apenas no funcionamento das instituições, mas também na “segurança e integridade pessoal” de integrantes do STF e de outras autoridades públicas.
A menção a Orwell estaria relacionada principalmente à metáfora da vigilância: a ideia de que o monitoramento e o controle de informações podem se tornar instrumentos de poder.
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Ecos até hoje
Há três elementos em “1984” com paralelo na sociedade moderna:
Vigilância do indivíduo
Controle de informações
Criação de um inimigo comum
“No livro, a vigilância é feita pelas câmeras nas casas e nos apartamentos, as teletelas. Há um paralelo muito grande com essa parte de aparelhagem eletrônica que temos hoje em dia. Londres, por exemplo, é a cidade com mais câmeras por metro quadrado, há a questão da lei de privacidade na internet, a vigilância de ideologias e do pensamento político”, disse Juliboni.
“Ele também fala do controle das informações, com o ministério da verdade. Lá é muito menos sutil, você altera o passado conforme a conveniência do governo. Mas não estamos muito longe disso. Em várias partes do mundo há revisionismo histórico e contestação a fatos.”
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