Jornal de Minas
08/10/2026

Endividamento das familias cai; inadimplência sobe na alta renda | G1

por Gilberto Cruz | Jornalista
7 visualizações
endividamento-das-familias-cai;-inadimplencia-sobe-na-alta-renda-|-g1

No mesmo período, a inadimplência recuou entre as famílias que ganham até 3 salários mínimos e aumentou entre aquelas com renda acima de 10 salários mínimos, a única das quatro faixas de renda analisadas em que o indicador subiu.

O indicador vinha em trajetória de alta desde dezembro do ano passado, quando estava em 80,9%. A sequência de aumentos levou o endividamento ao pico de 82,2% em abril e maio.

A expectativa da CNC é que o endividamento das famílias termine o ano relativamente estável, em torno de 81,5%.

Gráfico mostra evolução do endividamento das familias brasileiras — Foto: g1

Qual a diferença entre endividamento e inadimplência?

  • Endividamento: Ter dívidas não significa necessariamente estar com problemas financeiros. O indicador mede a parcela de famílias que possuem algum compromisso financeiro a vencer, como cartão de crédito, financiamento, empréstimo pessoal, cheque especial ou carnê de loja. Uma pessoa que parcela uma compra no cartão ou paga um financiamento em dia, por exemplo, entra na estatística de endividamento.
  • Inadimplência: Já a inadimplência indica quando a dívida não foi paga no prazo combinado. Ou seja, são consumidores com contas vencidas e em atraso. Uma família pode estar endividada e não ser inadimplente, caso esteja pagando as parcelas normalmente. Por outro lado, quem deixa uma dívida vencer passa a fazer parte do grupo de inadimplentes.

Inadimplência recua, mas dívidas ficam mais tempo em atraso

A parcela de famílias com dívidas em atraso caiu de 29,9% em agosto para 29,6% em setembro. O resultado também foi melhor que o registrado um ano antes, quando 30,5% das famílias estavam inadimplentes.

O percentual de famílias que disseram não ter condições de pagar suas dívidas atrasadas ficou estável em 12,5% no mês, abaixo dos 13% registrados em setembro de 2025. Já a parcela de famílias consideradas muito endividadas caiu de 17,9% para 17,3%.

Apesar da melhora nesses indicadores, o tempo médio de atraso aumentou pelo segundo mês consecutivo. Em setembro, as dívidas estavam atrasadas, em média, por 65,3 dias, o maior período desde novembro de 2024, quando a média foi de 65,5 dias.

Além disso, 48,9% das dívidas em atraso estavam vencidas havia mais de 90 dias.

Para a economista Juliana Inhasz, professora do Insper, os dados mostram uma melhora ainda pequena no quadro de endividamento. Ela avalia que um dos fatores pode ser o comportamento da renda, em um mercado de trabalho que continua resiliente.

Segundo ela, a redução também pode ter alguma relação com programas de renegociação de dívidas, como o Deserola Brasil 2, que permitem reorganizar pagamentos e alongar os prazos.

A economista não vê a queda dos juros como a principal explicação para o movimento.

Mais famílias sem dívidas, mas orçamento segue pressionado

A pesquisa também mostra um aumento na parcela de famílias que não têm dívidas a vencer. O percentual passou de 17,4% em agosto para 18,1% em setembro.

Ao mesmo tempo, o comprometimento da renda continua elevado. Em média, as famílias destinam 29,6% da renda ao pagamento de dívidas. Para 19,4% delas, mais da metade da renda mensal está comprometida, maior percentual desde fevereiro, quando havia sido de 19,5%.

Outro movimento observado pela pesquisa foi o aumento da participação das dívidas com vencimento superior a um ano. Elas representaram 33,8% do total em setembro.

➡️ Na avaliação de Juliana, prazos mais longos podem ajudar a reduzir o peso das parcelas no orçamento no curto prazo, mas também prolongam o período em que a família permanece comprometida com a dívida.

A renegociação, portanto, pode aliviar a prestação mensal sem necessariamente significar que a dívida desapareceu.

Tabela mostra evolução do endividamento das familias brasileiras — Foto: g1

Inadimplência tem comportamento diferente conforme a renda, por que?

A diferença entre as faixas de renda aparece principalmente na inadimplência.

Entre as famílias que ganham até três salários mínimos, o percentual de inadimplentes caiu de 38,8% para 38,5%. Na faixa de três a cinco salários mínimos, passou de 28% para 27,8%.

Entre as famílias com renda de cinco a dez salários mínimos, a inadimplência teve uma pequena queda, de 20,3% para 20,2%.

Já entre aquelas que ganham mais de dez salários mínimos, o indicador subiu de 14,9% para 15%. Foi a única das quatro faixas analisadas pela pesquisa em que houve aumento da inadimplência.

Para Juliana, o movimento entre as famílias de maior renda não necessariamente significa deterioração financeira.

Uma possibilidade é que parte desses consumidores esteja escolhendo parcelar compras enquanto mantém o dinheiro aplicado, especialmente em investimentos de renda fixa, que seguem oferecendo retornos elevados.

“Pode fazer sentido manter o dinheiro investido e parcelar uma compra, em vez de sacar o dinheiro para pagar à vista.”

Ela ressalta que, nesse caso, o aumento da inadimplência pode estar relacionado mais à administração dos recursos do que a uma perda efetiva de capacidade de pagamento.

Crédito exige atenção, principalmente no orçamento apertado

Entre as famílias de menor renda, Juliana destaca que a previsibilidade da renda pode ser tão importante quanto o valor recebido.

Segundo ela, ter segurança de que o dinheiro entrará no fim do mês ajuda a organizar as despesas e definir quanto pode ser destinado ao pagamento de dívidas.

“Para quem tem renda mais baixa, o primeiro critério não deveria ser apenas o tamanho da renda, mas a certeza dessa renda.”

A economista também chama atenção para o uso do cartão de crédito. Para ela, o consumidor precisa considerar que o limite disponível não representa dinheiro adicional no orçamento.

“As pessoas precisam entender que o cartão de crédito não é uma extensão da renda.”

O mesmo cuidado vale para o parcelamento. Na avaliação de Juliana, ele faz mais sentido para bens que continuarão sendo usados durante o período de pagamento, como uma geladeira, do que para despesas consumidas rapidamente.

Parcelar compras do supermercado, por exemplo, pode criar compromissos para os meses seguintes sem que o consumidor ainda tenha o produto ou serviço correspondente àquela despesa.

“Quando você parcela um consumo imediato e cria passivos para os meses seguintes, fica mais difícil administrar o orçamento.”

Esse tipo de comportamento pode fazer com que uma dívida passe a pressionar o orçamento por vários meses e, em situações mais apertadas, leve o consumidor a recorrer novamente ao crédito para pagar compromissos anteriores.

Dinheiro, real, notas de R$ 100, contagem de cédulas — Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

você pode gostar

Jornalismo com transparência, responsabilidade e respeito ao contraditório.

SAIBA QUEM SOMOS

O Jornal de Minas leva informação de interesse público sobre Betim, Minas Gerais, o Brasil e o mundo, com atenção especial aos acontecimentos que impactam nossa região.

noticias recentes

as mais lidas

Jornal de Minas Ltda © Todos direitos reservados CNPJ: 65.412.550/0001-63

Visitantes: 1.467.543