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De Senna à Marília: relembre coberturas marcantes do Plantão da Globo | G1

por Gilberto Cruz
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Nos últimos 35 anos, a trilha sonora e os microfones girando invadiram a tela para anunciar guerras, acidentes, atentados e decisões que mudaram o país e o mundo.

O Plantão da Globo estreou em 21 de maio de 1991, durante o intervalo da “Sessão da Tarde”. Do estúdio do Jornal Nacional, o apresentador Marcos Hummel informou a morte do ex-primeiro-ministro da Índia Rajiv Gandhi, vítima de um atentado.

Mas a prática de interromper a programação da Globo para notícias urgentes é bem mais antiga.

Primeiro Plantão da Globo informou a morte do ex-primeiro-ministro da Índia Rajiv Gandhi

Primeiro Plantão da Globo informou a morte do ex-primeiro-ministro da Índia Rajiv Gandhi

Os plantões antes do Plantão da Globo

O primeiro boletim extraordinário da emissora surgiu no início da década de 1970, com uma vinheta que exibia uma mão aberta e a palavra “Atenção”. A criação teve uma origem curiosa: a necessidade de transmitir um recado para uma autoridade durante o Carnaval, em plena ditadura militar.

O então vice-presidente de Operações da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, precisava falar com o presidente da Riotur, empresa de turismo do Rio de Janeiro, Aníbal Uzeda de Oliveira, para resolver assuntos ligados ao Carnaval.

“Ele havia sumido. Não queria atender a Globo, estava atendendo só a TV Tupi na época. Então, a primeira ‘mão’ que foi para o ar dizia: ‘Coronel Uzeda, onde o senhor estiver, entre em contato com a TV Globo’. E essa ‘mão’, depois, virou o primeiro Plantão”, lembra Boni.

Com o tempo, o formato evoluiu. Ainda nos anos 1970, virou “JN Extra”. Na década de 1980, a identidade se fragmentou, e cada telejornal ganhou sua própria versão: “Plantão do Bom Dia Brasil”, “Plantão do Jornal Hoje”, “Plantão do Jornal Nacional”, “Plantão do Jornal da Globo” e “Plantão do Fantástico”.

Foi essa falta de um padrão único que motivou a criação de uma nova vinheta, em 1991.

Como eram as interrupções de programação antes do Plantão da Globo

Como eram as interrupções de programação antes do Plantão da Globo

‘Ficamos no ar por horas’: o plantão mais desafiador

Antes mesmo da estreia do formato atual, o jornalista William Bonner já comandava os antigos boletins extraordinários. Foram pelo menos 10 edições entre o fim da década de 1980 e o começo da década de 1990.

Bonner considera um deles o mais desafiador da carreira. Na noite de 17 de janeiro de 1991, o “Plantão JN” interrompeu a novela “Meu Bem, Meu Mal” para anunciar o início da Guerra do Golfo.

“O editor Aníbal Ribeiro viu um alerta da agência espanhola EFE no terminal dele e gritou. O editor Geneton Moraes Neto me mandou dar o plantão. Cumpri o ritual: saí correndo da redação até o controle mestre da rede, que ficava no mesmo andar. Ao entrar, anunciei que colocaríamos um plantão no ar”, lembra Bonner.

“Tão logo me posicionei na cabine de locução, o operador interrompeu a programação para que eu desse a notícia de que Bagdá estava sob bombardeio. Ao retornar à redação, Geneton me mandou para o estúdio, onde faríamos uma entrada adicional com áudio e vídeo. Era para durar um ou dois minutos. Ficamos no ar por horas.”

O plantão se transformou em uma cobertura ao vivo que durou toda a madrugada, em uma edição especial do Jornal da Globo.

Plantão JN interrompeu a novela para anunciar o início da Guerra do Golfo

Plantão JN interrompeu a novela para anunciar o início da Guerra do Golfo

O último “Plantão JN” da história foi comandado por Bonner em 26 de abril daquele mesmo ano, para noticiar a prisão do jogador argentino Diego Maradona, em Buenos Aires, acusado de posse e consumo de cocaína.

O jornalista só apareceria no novo formato do Plantão da Globo em 19 de agosto de 1991, na segunda vez em que a vinheta foi usada, para anunciar a tentativa de golpe de Estado na União Soviética contra o presidente Mikhail Gorbachev.

Como o formato ainda era novidade, a decisão de interromper a programação gerava dúvidas. O então vice-presidente de Operações da Globo precisou intervir.

“O coordenador Valério Fernandes me ligou para confirmar se a notícia justificava a interrupção. Eu já havia determinado por memorando que o critério era exclusivamente do jornalismo, mas, dessa vez, tive que autorizar”, conta Boni.

A adrenalina no estúdio

Se o Plantão assusta o público, para quem está na bancada a sensação não é muito diferente.

Bonner diz que o sentimento é parecido com o do telespectador: adrenalina em alta o tempo todo. Ele é um dos apresentadores que mais comandaram o boletim extraordinário no formato atual, com pelo menos 45 edições.

“Como jornalista da Globo há 40 anos, é natural que eu tenha sido tantas vezes o responsável por anunciar notícias urgentíssimas. E me orgulho muito do trabalho das nossas equipes, que nos permitem cumprir nossa missão com extrema agilidade e absoluta correção”, diz Bonner.

Houve situações em que não havia tempo para preparar o estúdio. Até 2008, em vários momentos, o Plantão entrou no ar apenas com o selo na tela e a narração em off de um apresentador. O importante era não deixar a notícia esperar.

Hoje, esse formato não é mais necessário. Com a cobertura 24 horas da GloboNews, o canal mantém a informação no ar ao vivo até que o apresentador do próximo telejornal esteja pronto para entrar em rede.

Coberturas que marcaram a história

Ao longo de mais de três décadas, o Plantão entrou no ar centenas de vezes para mostrar a história em tempo real.

Um dos mais lembrados foi ao ar em 1º de maio de 1994, quando o Brasil parou nove vezes em um único dia para acompanhar as notícias sobre o acidente e, mais tarde, a confirmação da morte do piloto Ayrton Senna durante o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália. Foi o recorde de exibições do boletim em 24 horas.

O repórter Roberto Cabrini comandou a apuração. Ele estava no autódromo e seguiu para o hospital em Bolonha, para onde Senna havia sido levado. De lá, por meio de um telefone celular, Cabrini atualizava o Brasil em boletins sucessivos na programação. A morte do piloto foi anunciada às 13h40.

A morte de Ayrton Senna marca o recorde de entradas do Plantão da Globo: nove vezes

A morte de Ayrton Senna marca o recorde de entradas do Plantão da Globo: nove vezes

A morte dos integrantes da banda Mamonas Assassinas, em 1996, foi outra cobertura de grande comoção nacional. O acidente aéreo na Serra da Cantareira, em São Paulo, interrompeu o auge da carreira do grupo, que era um fenômeno de popularidade, especialmente entre o público infantil.

O primeiro Plantão foi ao ar no início da manhã de 2 de março, com imagens ao vivo do Globocop sobrevoando o local do acidente.

No ano seguinte, em 1997, Sandra Annenberg anunciou a morte da princesa Diana depois de um acidente de carro em Paris.

Naquela noite de sábado, ela estava de plantão no Jornal Nacional e se preparava para sair de férias na segunda-feira. Depois de apresentar o JN, Sandra foi jantar com o marido, o jornalista Ernesto Paglia. Quando os pratos foram servidos, o telefone tocou. Era o chefe dela, com um pedido urgente.

“Ele falou: ‘acho melhor você vir já, porque a princesa Diana teve um acidente e a gente está acompanhando, e parece que é grave. A gente vai ficar entrando com plantões ao longo da noite’”, contou a jornalista durante participação no programa “Que História É Essa, Porchat?”, no canal GNT.

A primeira reação foi pedir para terminar o jantar antes de voltar, mas o chefe aconselhou que ela fosse imediatamente para a redação.

Foram diversos boletins ao longo da noite para atualizar as informações. Por volta de 0h47 de domingo, o Plantão da Globo interrompeu o Supercine, e Sandra anunciou em primeira mão no Brasil a morte da princesa Diana.

Na segunda-feira, ela embarcou para as férias já programadas em Londres, onde acabou testemunhando a comoção mundial e o funeral da princesa.

Plantão da Globo anuncia a morte da princesa Diana, em 1997

Plantão da Globo anuncia a morte da princesa Diana, em 1997

Em 2001, o Plantão da Globo interrompeu os desenhos da manhã para transmitir, ao vivo, o maior atentado da história: o choque dos aviões contra as torres do World Trade Center, em Nova York. O ataque terrorista deixou milhares de mortos e mudou os rumos da história contemporânea.

Naquele dia, a principal pauta da redação de São Paulo era o assassinato do prefeito de Campinas, Toninho do PT.

No Rio, o então diretor-executivo de Jornalismo, Ali Kamel, recém-chegado à emissora, viu em um dos monitores da sala a imagem da primeira torre do World Trade Center em chamas. A informação inicial, ainda equivocada, era de um acidente com um avião bimotor.

Kamel correu para a sala do diretor da Central Globo de Jornalismo, Carlos Henrique Schroder. Ao ver a imagem, Schroder ligou imediatamente para o diretor-executivo de Jornalismo em São Paulo, Amauri Soares, com uma ordem direta: “Põe no ar o plantão, Amauri! O World Trade Center está pegando fogo! Põe no ar!”.

O que Schroder não sabia era que, em São Paulo, Amauri já havia visto as imagens em um canal de notícias americano e corria para colocar o Plantão no ar no exato momento em que o telefone tocou.

O boletim foi comandado por Carlos Nascimento. Quatro minutos depois, no entanto, a transmissão foi encerrada. Às 10h02, a vinheta do Plantão interrompeu novamente a programação, e Carlos Nascimento continuou a narração.

A Globo transmitiu ao vivo o choque do segundo avião contra a outra torre, em uma imagem que marcou o mundo.

Plantão da Globo mostra as primeiras informações sobre o atentado de 11 de setembro

Plantão da Globo mostra as primeiras informações sobre o atentado de 11 de setembro

A cobertura do 11 de setembro também gerou uma curiosidade que dura até hoje nas redes sociais: qual desenho foi interrompido pelo Plantão da Globo? A resposta, apurada pelo g1, você pode conferir aqui.

Em 2005, a cobertura da morte do papa João Paulo II uniu o estúdio e a rua. Enquanto Fátima Bernardes comandava o Plantão que anunciou a notícia, William Bonner, que havia desembarcado em Roma poucas horas antes, já estava no centro do acontecimento.

A notícia veio depois de dias de agravamento da saúde do pontífice, acompanhados por milhões de católicos. Da Praça de São Pedro, Bonner mostrou, naquela noite, no Jornal Nacional, a comoção entre peregrinos e turistas que já acampavam no local.

Plantão da Globo anuncia a morte do Papa João Paulo II, em 2005

Plantão da Globo anuncia a morte do Papa João Paulo II, em 2005

A cobertura do acidente com o voo 1907 da Gol, em 2006, é um exemplo da responsabilidade editorial por trás da vinheta.

Os primeiros rumores sobre o desaparecimento do avião, que levava 154 pessoas, chegaram à redação durante o Jornal Nacional. A decisão da chefia, no entanto, foi segurar a informação. A prioridade era confirmar a rota e o número exato do voo para não gerar pânico com dados imprecisos.

A confirmação oficial só veio depois do fim do telejornal. Foi então que um Plantão interrompeu a programação para noticiar o desaparecimento.

A informação completa sobre a colisão com um jato Legacy e a queda na Floresta Amazônica, que não deixou sobreviventes, foi dada em um novo Plantão minutos depois, no que era, até então, o maior acidente da aviação brasileira.

Em 2007, Bonner apresentou o Plantão sobre o acidente do voo 3054 da TAM, em Congonhas, que deixou 199 mortos.

Menos de 20 minutos depois da queda, a Globo colocou no ar o boletim extraordinário com imagens ao vivo do local. A princípio, Bonner hesitou diante da incerteza das informações. A dúvida, porém, durou pouco. Ao ver a dimensão do incêndio, ele voltou atrás e começou a gritar na redação: “Plantão! Plantão!”.

Quase 10 anos depois dos atentados de 11 de setembro, a morte de Osama Bin Laden, em 2011, foi noticiada pelo Plantão. A cobertura foi comandada pelos apresentadores do Fantástico na época, Patrícia Poeta e Zeca Camargo.

Já passava da meia-noite quando os dois jornalistas entraram no ar para confirmar a informação e, em seguida, transmitir ao vivo o pronunciamento do presidente americano Barack Obama, com tradução simultânea feita pela dupla.

Plantão da Globo anuncia a morte do terrorista Osama bin Laden, morto pelos EUA

Plantão da Globo anuncia a morte do terrorista Osama bin Laden, morto pelos EUA

Anos depois, em 2016, a programação foi interrompida na madrugada para anunciar a queda do avião que levava o time da Chapecoense para a Colômbia, em um acidente que deixou 71 mortos.

O Plantão entrou no ar por volta das 4h10 da madrugada, com a apresentadora do Hora Um na época, Monalisa Perrone. As informações, naquele momento, ainda eram desencontradas.

Em 2020, o Plantão da Globo foi usado como uma ferramenta de compromisso com a informação e também como um ato de resistência jornalística.

“Na pandemia, no dia em que o governo Bolsonaro passou a retardar os dados sobre novos casos e mortes por Covid, encerramos o JN sem esses números. Mas interrompemos a novela das 9 assim que os obtivemos, cumprindo nosso compromisso de informar e deixando claro que não desistiríamos de fazê-lo”, conta Bonner.

Dez minutos depois do fim do Jornal Nacional, a vinheta entrou no ar para divulgar os números atualizados da Covid-19.

Plantão da Globo interrompe a programação para informar os números de mortes pela Covid-19

Plantão da Globo interrompe a programação para informar os números de mortes pela Covid-19

A cobertura da morte de Marília Mendonça, no fim de 2021, também é um exemplo dos desafios da notícia em tempo real, marcada pela incerteza e pelas informações desencontradas nas primeiras horas.

O Plantão da Globo, apresentado por Ana Paula Araújo, interrompeu o intervalo de Vale a Pena Ver de Novo para informar que a cantora havia sido resgatada com vida depois de um acidente aéreo no interior de Minas Gerais, com base em informações preliminares repassadas pelo empresário da artista.

A informação mudou drasticamente quando o repórter da afiliada da Globo chegou ao local do acidente. As imagens ao vivo mostraram que havia corpos sendo retirados, o que contradizia a nota divulgada pela assessoria da artista.

“Começou como um plantão de um acidente de avião envolvendo uma cantora queridíssima, mas que até então a gente achava que era um acidente em que todos tinham sobrevivido. E depois a gente descobriu ali, no ar, durante a transmissão, que era uma tragédia absurda, que ninguém tinha sobrevivido”, conta Ana Paula.

A confirmação da morte de Marília Mendonça e de outras quatro pessoas só ocorreu em um boletim exibido mais tarde na programação.

A morte de Pelé, em 2022, mobilizou uma das maiores e mais longas operações da história do Plantão.

Comandado por Renata Vasconcellos no estúdio do Jornal Nacional, o boletim interrompeu a “Sessão da Tarde” e se estendeu por horas, cancelando a exibição de novelas.

A cobertura se destacou pela ampla rede de repórteres, com entradas ao vivo do hospital em São Paulo, da Vila Belmiro, em Santos, e de diversas capitais do mundo, para mostrar a repercussão global.

Ao final, houve uma homenagem: a vinheta tradicional foi substituída por um selo especial dedicado ao “Rei do Futebol”, marcando a importância do momento.

Até a publicação desta reportagem, a exibição mais recente do Plantão da Globo havia ocorrido na tarde de 17 de abril de 2026. Às 16h54, o boletim apresentado por César Tralli interrompeu a Sessão da Tarde para noticiar a morte do ex-jogador de basquete Oscar Schmidt, um dos maiores ícones do esporte brasileiro.

* Colaboração de Ana Chagas, Fábio Lucio, Leonni Pissurno e Luciano Cesário, pesquisadores do Acervo da TV Globo.

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