Início » Caso envolvendo pediatra viraliza: médico pode bloquear paciente no WhatsApp?

Caso envolvendo pediatra viraliza: médico pode bloquear paciente no WhatsApp?

por Gilberto Cruz
caso-envolvendo-pediatra-viraliza:-medico-pode-bloquear-paciente-no-whatsapp?


AdobeStock
Uma influenciadora descobriu que havia sido bloqueada no WhatsApp pela pediatra da filha ao tentar pedir orientação porque a bebê estava resfriada. O relato viralizou e dividiu pais e médicos sobre uma questão que se tornou parte da rotina dos consultórios: até onde vai o atendimento pelo celular?
Segundo o relato, a pediatra já acompanhava a criança e havia oferecido um pacote de 12 consultas, pago à vista, que incluía assistência pelo aplicativo 24 horas por dia. A mãe decidiu não contratar o serviço, mas afirma que perguntou se ainda poderia enviar mensagens em caso de dúvida e recebeu uma resposta positiva.
Relato de influenciadora viralizou nas redes sociais
Reprodução
Algum tempo depois, ao tentar falar com a médica porque a filha havia acordado resfriada, percebeu que as mensagens não eram entregues. Com a piora dos sintomas, ligou para o consultório para marcar uma consulta e comentou que a pediatra não havia recebido suas mensagens. Foi então informada pela secretária de que seu número havia sido bloqueado porque ela não havia contratado o serviço de disponibilidade pelo WhatsApp.
O relato acumulou milhares de comentários. De um lado, pais disseram recorrer ao aplicativo para esclarecer dúvidas rápidas sobre a saúde dos filhos. Do outro, médicos afirmaram que o canal passou a funcionar como uma espécie de pronto-socorro informal, com mensagens enviadas a qualquer hora e sem triagem.
Embora o uso do WhatsApp tenha se incorporado à rotina dos consultórios, o médico não é obrigado a fornecer seu telefone pessoal nem a manter um canal permanente de atendimento.
Agora no g1
WhatsApp pode complementar a consulta, não substituí-la
De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), a consulta é considerada um ato médico completo quando reúne entrevista clínica, exame físico, formulação de uma hipótese diagnóstica e, quando necessário, prescrição.
Isso significa que a prestação daquele serviço se encerra com o atendimento. A continuidade do contato por telefone ou aplicativo depende do que foi combinado entre o profissional e o paciente.
“É uma gentileza do médico passar o número dele para continuar com orientações complementares depois da consulta. A prestação de serviço já foi cumprida ali. Não existe nada que obrigue o médico a entregar o telefone pessoal para o paciente”, afirma a advogada Ana Paula Tomé, especialista em direito médico.
Segundo ela, o WhatsApp pode ser usado para esclarecer questões pontuais, acompanhar a evolução de um quadro ou reforçar orientações dadas durante a consulta. O aplicativo, no entanto, não deve substituir uma nova avaliação quando há piora dos sintomas, necessidade de exame físico ou suspeita de urgência.
Também não há obrigação de que o profissional permaneça disponível durante todo o dia. Horários, tipo de demanda aceita e prazo de resposta podem ser definidos pelo consultório.
Procurada pelo g1, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) informa que não se manifesta sobre situações individuais. A entidade afirmou que casos dessa natureza envolvem circunstâncias específicas da relação entre médico e paciente e aspectos éticos e profissionais que precisam ser avaliados conforme o contexto.
Segundo a SBP, quando necessário, essa análise cabe aos Conselhos de Medicina, dentro de suas atribuições.
Médico pode cobrar por atendimento no aplicativo
A oferta de um pacote de consultas que inclua assistência pelo WhatsApp não configura, por si só, irregularidade.
De acordo com Ana Paula, o médico pode cobrar por esse acompanhamento desde que informe com clareza o que está incluído: dias e horários de disponibilidade, prazo previsto para resposta, tipo de orientação que pode ser prestada pelo aplicativo e situações em que será necessária uma consulta.
“O médico pode vender esse tipo de pacote, mas com o serviço prestado claramente definido. Isso não constitui infração ética, não é ilícito nem atividade mercantil”, diz.
A cobrança, segundo a advogada, remunera o tempo que o profissional reserva para responder aos pacientes fora das consultas. O problema surge quando as condições não são explicadas ou quando o que foi acordado verbalmente difere do serviço oferecido.
No caso relatado pela influenciadora, a mãe afirma que havia sido autorizada a enviar mensagens mesmo sem contratar o pacote. Não é possível saber, apenas pelo relato publicado nas redes sociais, quais foram os termos exatos da conversa entre as duas.
Por isso, a recomendação é que as regras do atendimento sejam apresentadas desde o início e, de preferência, registradas por escrito. Isso vale tanto para serviços pagos quanto para contatos oferecidos como complemento à consulta.
Bloquear o contato não equivale a encerrar o atendimento
O Código de Ética Médica permite que um profissional deixe de atender um paciente quando a relação se torna inviável, desde que não o abandone durante uma situação de urgência ou emergência.
Esse encerramento é chamado de renúncia ao atendimento. O médico deve comunicar a decisão e assegurar que o paciente tenha condições de procurar outro profissional e dar continuidade aos cuidados.
Bloquear um número no WhatsApp, no entanto, não significa necessariamente que o vínculo médico tenha sido encerrado. O aplicativo pode ser apenas um dos canais de comunicação, enquanto consultas e agendamentos continuam disponíveis por outros meios.
Foi o que teria ocorrido no episódio relatado pela influenciadora: segundo ela, o bloqueio atingia o contato direto pelo aplicativo, mas não havia impedimento para marcar novas consultas no consultório.
Ana Paula afirma que não existe uma norma específica que proíba o médico de bloquear um contato. Ainda assim, considera mais adequado avisar previamente que aquele canal não estará disponível.
“Não há uma regra que proíba a médica de bloquear, mas nem tudo que pode convém. Existem outras formas de esclarecer que o paciente não terá mais acesso ao telefone naquelas condições ou, se for o caso, formalizar o encerramento do atendimento”, afirma.
A distinção é importante porque uma dúvida não respondida pelo WhatsApp não caracteriza, isoladamente, abandono. A avaliação muda quando há um compromisso expresso de acompanhamento, uma situação de risco em curso ou a interrupção do atendimento sem possibilidade de continuidade.
Para evitar conflitos, médicos e pacientes precisam definir desde o primeiro contato onde termina a consulta e o que pode ser resolvido pelo celular. O WhatsApp encurtou a distância entre os dois, mas não eliminou os limites clínicos, éticos e profissionais dessa relação.

você pode gostar

SAIBA QUEM SOMOS

Somos um dos maiores portais de noticias de toda nossa região, estamos focados em levar as melhores noticias até você, para que fique sempre atualizado com os acontecimentos do momento.

CONTATOS

noticias recentes

as mais lidas

Jornal de Minas Ltda © Todos direitos reservados CNPJ: 65.412.550/0001-63