Canetas emagrecedoras na gravidez: o que se sabe sobre riscos e quando interromper o uso
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Mulheres que usam as chamadas “canetas emagrecedoras” e pretendem engravidar devem planejar a interrupção do tratamento, receber orientação sobre contracepção e alimentação e manter acompanhamento das condições metabólicas. Durante a gestação, esses medicamentos não devem ser mantidos deliberadamente.
Mas há uma diferença importante entre usar a medicação durante a gravidez e descobrir uma gestação depois de uma exposição acidental ao medicamento: os dados disponíveis até hoje não apontam aumento do risco de anomalias congênitas quando o uso ocorreu no início da gravidez.
Essas são algumas das principais conclusões de uma revisão internacional que analisou o que a ciência sabe sobre medicamentos à base de incretinas — grupo que inclui semaglutida, liraglutida, dulaglutida, exenatida e tirzepatida — antes, durante e depois da gravidez.
O trabalho, publicado em 2026 na revista “Obesity Reviews” e liderado por pesquisadores da Universidade de Plymouth, reuniu 34 estudos e deu origem a recomendações para orientar profissionais de saúde no atendimento de mulheres em idade reprodutiva.
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A endocrinologista Lorena Lima Amato, doutora pela Universidade de São Paulo (USP), explica que é fundamental diferenciar o uso dessas medicações antes da gravidez daquele feito durante a gestação.
“Antes de engravidar, essas medicações podem ter um papel importante em mulheres com obesidade, especialmente quando há síndrome dos ovários policísticos, resistência insulínica ou outras complicações metabólicas. A perda de peso e a melhora metabólica podem favorecer a regularização dos ciclos e da ovulação e, em alguns casos, aumentar a chance de gravidez”, afirma.
A principal ressalva da revisão é que ainda faltam muitas respostas. Das 32 perguntas formuladas pelos pesquisadores sobre saúde reprodutiva e esses medicamentos, havia evidências científicas para apenas 18, ou 56,3%. Para as outras 14 questões, equivalentes a 43,8%, não havia evidências.
Isso significa que as novas orientações combinam resultados de pesquisas já publicadas com recomendações formuladas por consenso por um painel internacional de especialistas nos casos em que os dados eram insuficientes.
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O que fazer se a mulher engravidar usando as canetas?
A recomendação é que os medicamentos à base de incretinas não sejam deliberadamente mantidos durante a gravidez. Se a mulher ainda estiver usando a medicação quando descobrir que está grávida, a orientação é interrompê-la assim que a gestação for confirmada.
Isso não significa, porém, que uma exposição acidental no começo da gravidez seja motivo para concluir que haverá uma malformação no bebê.
Os estudos analisados pela revisão tinham números muito diferentes de gestações expostas: desde relatos envolvendo uma única mulher até uma pesquisa observacional com 4.267 casos. Considerando os 34 trabalhos incluídos, nenhum relatou aumento de anomalias congênitas.
“Um achado tranquilizador é que os dados humanos disponíveis sobre exposição não intencional no período próximo à concepção ou no início da gravidez não mostraram aumento significativo de grandes malformações congênitas”, explica Amato.
A médica acrescenta que isso é muito importante para reduzir a ansiedade daquela mulher que estava usando a medicação, descobriu que está grávida e imediatamente imagina que haverá algum problema com o bebê,
Ela ressalta, no entanto, que esses resultados não permitem concluir que as canetas sejam seguras para uso durante toda a gravidez. Grande parte das informações disponíveis vem justamente de exposições não intencionais.
“É fundamental deixar claro: isso não significa que o uso durante a gravidez tenha sido considerado seguro. A recomendação continua sendo não manter deliberadamente essas medicações durante a gestação”, afirma Amato.
A ginecologista, sexóloga e coordenadora do ambulatório de sexualidade feminina da Unifesp Carolina Ambrogini destaca que mulheres que têm obesidade e síndrome do ovário policístico podem se beneficiar do uso dessas medicações no período pré-gestacional.
Gravidez deve ser acompanhada
Quando houve exposição no início da gestação e o medicamento foi suspenso, as novas diretrizes recomendam o acompanhamento obstétrico padrão do crescimento fetal.
O ganho de peso da gestante também deve ser monitorado depois da interrupção do tratamento. Caso fique fora das recomendações, os especialistas orientam uma avaliação do crescimento do feto pelo menos uma vez no terceiro trimestre.
Se, por algum motivo, a medicação tiver sido mantida durante a gravidez ou utilizada além do primeiro trimestre, a recomendação passa a ser o monitoramento seriado do crescimento fetal.
Os pesquisadores também chamam atenção para o diabetes gestacional. Quando o tratamento tiver sido interrompido antes da concepção, os testes de glicemia devem seguir as diretrizes aplicáveis. No caso de exposição não intencional, podem ser considerados exames adicionais no início da gravidez para avaliar melhor esse risco.
Quanto tempo antes de engravidar é preciso parar?
Essa é uma das perguntas para as quais a ciência ainda não oferece uma resposta definitiva. Os fabricantes recomendam atualmente interromper o tratamento antes de tentar engravidar e não utilizar os medicamentos durante a gestação ou a amamentação.
Segundo Amato, de maneira geral, as recomendações dos fabricantes indicam uma suspensão aproximadamente duas a oito semanas antes da concepção, especialmente por causa da meia-vida longa das medicações semanais.
A revisão, no entanto, concluiu que não há evidências científicas sólidas que permitam estabelecer um período ideal de suspensão válido para todos os medicamentos e todas as pacientes.
“Nós consideramos principalmente qual medicamento a paciente utiliza, a farmacocinética dessa molécula e a condição clínica da mulher”, explica Amato.
A semaglutida, por exemplo, tem meia-vida de aproximadamente sete dias. Segundo a endocrinologista, o artigo aponta que, após cerca de cinco meias-vidas, aproximadamente 97% do medicamento já foi eliminado.
A decisão, porém, não depende apenas desse cálculo. Também devem ser considerados fatores como obesidade, diabetes, síndrome dos ovários policísticos (SOP), histórico de infertilidade e risco de recuperação rápida do peso ou de piora metabólica depois da suspensão.
“Não existe um número mágico de dias válido para todas as mulheres. Existe uma recomendação de prudência, geralmente dentro daquela janela de quatro a oito semanas indicada pelos fabricantes, mas a programação deve ser individualizada”, afirma Amato.
A interrupção também deve ser planejada porque a suspensão pode ser seguida por aumento do apetite, recuperação de peso e piora do controle glicêmico em algumas pacientes.
Por isso, segundo a endocrinologista, o ideal é discutir previamente o desejo de engravidar, definir o momento da suspensão e organizar, paralelamente, alimentação, atividade física e controle das condições metabólicas.
Canetas podem interferir na fertilidade?
Os medicamentos à base de incretinas reduzem o apetite e podem provocar perda significativa de peso. Segundo a revisão, também podem melhorar parâmetros metabólicos e imunológicos relacionados à saúde reprodutiva feminina, incluindo a função ovulatória e a receptividade do endométrio.
Esse possível efeito ganha relevância especialmente entre mulheres com obesidade e síndrome dos ovários policísticos, condição associada à infertilidade.
Amato explica que, em mulheres com obesidade e SOP, o tratamento antes da gravidez pode melhorar não apenas o peso, mas também a resistência insulínica, a regularidade menstrual e a ovulação.
Alguns dos trabalhos incluídos na revisão encontraram aumento da frequência menstrual e da taxa de gravidez espontânea com agonistas de GLP-1. Em um deles, com mulheres com SOP, a taxa de gravidez espontânea foi maior depois do tratamento com exenatida do que com metformina isoladamente. Outros estudos sugerem benefícios também entre mulheres que vão passar por reprodução assistida.
Isso não significa, porém, que as canetas devam ser tratadas como medicamentos para fertilidade.
“Provavelmente boa parte do benefício ocorre indiretamente, pela melhora do peso e do ambiente metabólico e hormonal. A própria revisão destaca que ainda é difícil separar o efeito específico do medicamento do efeito decorrente da perda de peso”, afirma Amato.
As recomendações sugerem priorizar esse tipo de tratamento no período anterior à concepção principalmente entre mulheres com maior carga metabólica, como pacientes com obesidade associada à SOP, comorbidades relacionadas à obesidade ou que precisam atingir critérios de peso para ter acesso a tratamentos de fertilidade.
Tirzepatida exige atenção especial com anticoncepcionais
Outro ponto das recomendações envolve a prevenção da gravidez durante o tratamento.
Mulheres em idade reprodutiva que utilizam medicamentos à base de incretinas devem receber aconselhamento individualizado sobre o risco de engravidar durante o uso. A atenção deve ser ainda maior diante de efeitos gastrointestinais importantes, como vômitos e diarreia.
No caso específico da tirzepatida, a orientação é utilizar um método contraceptivo não oral confiável. A revisão cita evidências de redução da biodisponibilidade dos anticoncepcionais hormonais orais com esse medicamento.
Segundo as recomendações analisadas pelos autores, quem utiliza tirzepatida e anticoncepcional oral deve mudar para um método não oral ou acrescentar um método de barreira durante quatro semanas depois do início do tratamento e por quatro semanas após cada aumento da dose.
A mesma recomendação de acrescentar um método de barreira não se aplica, segundo o documento, a semaglutida, dulaglutida, exenatida, lixisenatida ou liraglutida.
Alimentação exige atenção antes da gravidez
A nutrição é outro ponto central das novas orientações. Como esses medicamentos reduzem o apetite, os pesquisadores levantam a preocupação de que uma queda significativa no consumo de alimentos possa levar à ingestão insuficiente de nutrientes justamente em um período em que o estado nutricional da mulher é importante.
Segundo Amato, a revisão encontrou trabalhos indicando que semaglutida e tirzepatida podem reduzir a ingestão energética em aproximadamente 24% a 39%. Apesar disso, há poucos estudos avaliando sistematicamente o consumo de proteínas, vitaminas e minerais dessas pacientes.
No período anterior à gravidez, preocupam principalmente inadequações de folato, ferro, vitamina B12, vitamina D e cálcio, além da baixa ingestão de proteínas.
“A perda de peso não deve ser o único parâmetro acompanhado: precisamos olhar também a qualidade nutricional dessa perda”, afirma Amato.
O consenso recomenda uma alimentação nutricionalmente densa, ingestão adequada de proteínas e fibras, hidratação e correção de eventuais deficiências. Para mulheres que pretendem engravidar, há orientação específica para suplementação de ácido fólico e vitamina D, conforme as recomendações aplicáveis. Em alguns casos, pode ser necessário um suplemento pré-natal de vitaminas e minerais.
E durante a amamentação?
Nesse ponto, a falta de informações é ainda maior. Entre os 34 trabalhos selecionados pela revisão, apenas um estudo clínico humano tratou especificamente do uso de agonistas do receptor de GLP-1 durante a amamentação.
A pesquisa acompanhou oito participantes e não detectou semaglutida em amostras de leite coletadas 0, 12 e 24 horas depois da aplicação subcutânea semanal de doses entre 0,25 mg e 1 mg. Também não foram registrados efeitos adversos no crescimento dos bebês.
Há, entretanto, limitações importantes: a maioria das participantes estava há mais de seis meses do parto, e os pesquisadores não avaliaram a produção nem a composição do leite.
Por isso, as diretrizes não concluem que o uso seja seguro de maneira geral durante a amamentação. A recomendação é avaliar cada caso individualmente, considerando os benefícios da amamentação e os riscos teóricos da exposição do bebê ao medicamento.
Caso a terapia seja utilizada, o documento recomenda acompanhar o crescimento e os marcos de desenvolvimento da criança, além do estado nutricional da mulher.
Uso depois do parto também tem perguntas em aberto
Os dados encontrados sugerem que medicamentos à base de incretinas podem ajudar na redução do peso e na melhora de parâmetros glicêmicos no pós-parto entre mulheres com histórico de diabetes gestacional.
Amato cita estudos com liraglutida que encontraram melhora do peso e dos parâmetros glicêmicos entre mulheres com diabetes gestacional prévio.
Ainda não se sabe, porém, qual é o momento ideal para começar o tratamento depois do nascimento do bebê nem por quanto tempo mantê-lo. A decisão também precisa considerar se a mulher está amamentando.
Também faltam pesquisas que acompanhem por períodos prolongados as crianças expostas e as mulheres que utilizaram esses medicamentos no contexto da gestação.
Estudo encontrou evidências para pouco mais da metade das perguntas
Para produzir as recomendações, os pesquisadores fizeram uma busca sistemática em diferentes bases de dados. Dos 34 artigos que chegaram à síntese final, 11 eram ensaios randomizados, nove estudos observacionais, duas revisões de farmacovigilância, nove relatos ou séries de casos, dois estudos em animais e um estudo realizado com material biológico fora de um organismo vivo.
A maioria tratava do período anterior à concepção ou da gravidez. Apenas dois abordavam especificamente contracepção, somente um estudava lactação e três pesquisas avaliaram o uso no pós-parto.
Além disso, os estudos estavam concentrados principalmente em países ou regiões de alta renda, como Europa, Estados Unidos, Austrália e Oriente Médio. Entre os medicamentos investigados estavam exenatida, dulaglutida, semaglutida, liraglutida e tirzepatida.
Para Amato, um dos principais méritos do trabalho é organizar as evidências disponíveis em uma área na qual medicamentos eficazes estão sendo usados por um número cada vez maior de mulheres em idade reprodutiva, mas ainda existem poucas orientações específicas sobre pré-concepção, gravidez, amamentação e pós-parto.
Ao mesmo tempo, a revisão evidencia as lacunas no conhecimento: havia evidência direta para pouco mais da metade das perguntas formuladas pelos pesquisadores.
‘Foi muito difícil entender tudo isso’
O caso de Alice Rafferty ajuda a mostrar como a falta de orientação pode chegar à vida das pacientes.
Moradora de Macclesfield, em Cheshire, ela tem síndrome dos ovários policísticos e precisava perder peso para fazer um tratamento de fertilização in vitro pelo sistema público de saúde britânico.
Alice começou a usar injeções para emagrecer após a recomendação de uma amiga, mas teve dificuldade para encontrar informações confiáveis sobre o impacto do tratamento na fertilidade.
“A maioria das informações e histórias sobre as injeções vinha de boatos sobre se celebridades as estavam usando, e não de nada relacionado à sua eficácia ou se elas poderiam afetar as chances de engravidar. Foi muito difícil entender tudo isso”, afirma Rafferty, em trecho do estudo.
Sem encontrar uma orientação que considerasse suficiente, Alice decidiu por conta própria suspender as injeções duas semanas antes do início da fertilização in vitro. Ela também relata que teve receio de contar aos profissionais de saúde que utilizava a medicação por temer que isso impedisse a continuidade do tratamento.
Depois de um ciclo bem-sucedido de fertilização in vitro em uma clínica particular, Alice espera o primeiro filho para outubro de 2026.
Muitas respostas ainda precisam vir
A revisão deixa claro que as novas diretrizes não encerram a discussão sobre canetas emagrecedoras e saúde reprodutiva.
Entre as principais lacunas estão quanto tempo antes de uma gravidez o medicamento deve ser interrompido; quais são as consequências da recuperação de peso após a suspensão; como o tratamento afeta o estado nutricional; qual é a segurança durante a amamentação; e quais podem ser os efeitos de longo prazo para mães e filhos.
Para Amato, a principal mensagem é que as medicações podem desempenhar um papel importante antes da gestação, inclusive com melhora da saúde metabólica e possível impacto sobre a fertilidade de algumas mulheres, mas a gravidez precisa ser planejada.
Se ocorrer uma exposição acidental no início da gestação, os dados atuais são mais tranquilizadores em relação às malformações congênitas, embora as evidências ainda sejam insuficientes para considerar seguro o uso das medicações durante a gravidez.
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