
Afinal, o câncer tem cura?
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Esta quarta-feira, 8 de abril, é o Dia Mundial de Luta contra o Câncer. Aquela doença!
Até a década de 1950, “aquela doença”, da qual nem se mencionava o nome, era a tuberculose. Não é por acaso que Thomas Mann a utilizou como pano de fundo para o mais famoso de seus romances, “A Montanha Mágica”. Nessa época, os micróbios responsáveis pelas doenças infecciosas, pelas epidemias e pela dificuldade de tratamento, ocupavam todas as atenções. As doenças infecciosas eram transmissíveis e atingiam indiscriminadamente crianças e adultos.
Com o advento dos antibióticos na Segunda Guerra Mundial, a atenção foi direcionada para o câncer, que se tornou então a nova “aquela doença”. Era impronunciável, como a tuberculose havia sido. Os mais ousados chamavam de CA. No livro Doença como uma Metáfora, a autora Susan Sontag, importante intelectual que vivenciou a doença, descreve o estigma em um paralelismo com a tuberculose no século XIX.
Mais de um século antes, em 1847, o patologista Rudolf Virchow descreveu a leucemia como um aumento incontrolável dos glóbulos brancos do sangue e também se interessou pelo que chamou de neoplasia, um crescimento desordenado de células. Esses conceitos derivavam de suas observações e de sua teoria celular, segundo a qual uma célula só pode surgir de outra célula e são elas que formam os tecidos e órgãos.
No entanto, a preocupação com o câncer também resultou do aumento da longevidade. No início do século XX, a expectativa de vida era de 30 a 45 anos e poucos ultrapassavam os 60. Como o câncer atinge, principalmente, pessoas mais velhas, era menos frequente que outras doenças. À medida que as técnicas cirúrgicas se tornaram mais refinadas e os cuidados com a assepsia foram implementados, a remoção do tumor passou a ser uma alternativa de tratamento.
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À cirurgia associou-se a radioterapia, utilizada a partir do início do século XX, resultado de descobertas do final do século anterior: os raios X por Wilhelm Röntgen, a radioatividade por Becquerel e o rádio pelo casal Curie. Iniciava-se, assim, o tratamento com radioterapia combinada à cirurgia.
Ironicamente, a quimioterapia, que hoje salva tantas vidas, começou como arma de guerra química. Durante a Primeira Guerra Mundial, o gás mostarda foi utilizado nas trincheiras. Observou-se que, além de causar queimaduras e danos respiratórios, as pessoas expostas apresentavam diminuição na contagem de glóbulos brancos. Em 1942, Goodman e Gilman testaram a mostarda nitrogenada em pacientes com linfoma avançado, dando início à quimioterapia sistêmica.
O fenômeno da resistência aos tratamentos
Mas o câncer não era infeccioso, e os microrganismos continuavam matando. Foi nesse período que surgiram medicamentos que mudaram esse cenário. O aparecimento das sulfas e da penicilina transformou o tratamento das infecções. As sulfas demonstraram efeito antibacteriano na década de 1930 e passaram a ser utilizadas em diversas infecções. Em paralelo, a penicilina, descoberta por Fleming em 1928, foi produzida em larga escala durante a Segunda Guerra Mundial. Mas, apesar do otimismo, surgiu um novo problema: o desenvolvimento de microrganismos resistentes ao tratamento, hoje, mais conhecido com a resistência aos antibióticos e que contribuíram para as superbactérias.
A experiência com sulfas e penicilina nas infecções bacterianas alertou sobre a possibilidade de desenvolvimento de resistência também no câncer. Com os avanços da indústria química, iniciou-se a busca por novas alternativas de tratamento para o que era agora “aquela doença”. Mas como estudar o câncer? Microrganismos podiam ser cultivados em laboratório, mas o que fazer com células tumorais humanas?
Em 1907, Ross Harrison conseguiu o crescimento de células animais fora do corpo e, em 1912, Alexis Carrelg estabeleceu uma linhagem celular que se manteve por meses.
E, somente em 1951 surgiu a mais famosa linhagem de células humanas: as células HeLa, que recebeu este nome em homenagem à mulher negra americana Henrietta Lacks, de 31 anos. As células HeLa são originadas de um tumor de colo do útero. Essas células se multiplicavam indefinidamente em laboratório e são utilizadas até hoje em pesquisas, além de terem originado debates éticos e jurídicos sobre o uso de material biológico humano.
Mesmo antes das culturas celulares humanas, a leucemia levou o patologista Sidney Farber, em 1948, a descobrir que o metotrexato podia induzir remissão em pacientes. Outras substâncias, como vimblastina e vincristina, mostraram eficácia em linfomas e leucemias. A partir dessa época, a busca por novos quimioterápicos foi intensificada, utilizando animais de laboratório e culturas de células tumorais.
Paralelos entre a tuberculose e o câncer
E voltamos ao paralelismo com a tuberculose. O tratamento da primeira “aquela doença” mostrou-se mais eficaz combinando mais de um antibiótico. Por que não tentar o mesmo com o câncer? Assim, teve início a quimioterapia combinada.
Da mesma forma que a tuberculose serviu de pano de fundo para Thomas Mann, o câncer permitiu que Aleksandr Solzhenitsyn discutisse o stalinismo em sua obra Pavilhão do Câncer, de 1966. O câncer, na segunda metade do século XX, continuava sendo uma doença temida, mas a busca por uma cura prosseguia.
Com a quimioterapia combinada, surgiram novos desafios. Muitos tumores respondiam inicialmente ao tratamento, mas depois retornavam mais agressivos e resistentes a vários medicamentos. Esse fenômeno passou a ser estudado e recebeu o nome de Resistência a Múltiplas Drogas.
Uma das primeiras explicações foi a existência, na superfície de algumas células tumorais, de um sistema capaz de “bombear” os quimioterápicos para fora da célula, impedindo que atingissem concentrações tóxicas. Essa proteína ficou conhecida como glicoproteína P. Mais tarde, outros sistemas semelhantes foram descritos. No entanto, percebeu-se que a resistência poderia ocorrer por diversos mecanismos e que os tumores não eram homogêneos, mas formados por células diferentes entre si, o que permitia que algumas escapassem ao tratamento.
Como aconteceram todos esses avanços? Em paralelo aos problemas de saúde, houve enormes progressos científicos a partir da segunda metade do século XX. Talvez o maior marco tenha sido a descoberta da estrutura do DNA, que levou ao Prêmio Nobel de 1962. A história dessa descoberta foi contada por James Watson no livro A Dupla Hélice, embora o papel fundamental de Rosalind Franklin tenha sido subestimado na época, refletindo a pouca visibilidade dada às mulheres na ciência naquele período.
Com o DNA como protagonista, surgiu a biologia molecular. A manipulação gênica permitiu avanços em diversas áreas, como produção de plantas transgênicas, melhoramento genético de animais, desenvolvimento de bactérias modificadas e produção de vacinas. Mais recentemente, o sequenciamento do genoma humano abriu novas possibilidades para a medicina e para o entendimento do câncer.
Com a biologia molecular e celular, compreendeu-se que os tumores apresentam heterogeneidade celular, mecanismos de inativação de drogas, alterações epigenéticas e reprogramação metabólica. Esses conhecimentos ajudaram a entender por que alguns tumores respondem ao tratamento e depois se tornam resistentes.
Em paralelo aos estudos moleculares, os estudos com células também avançaram. Em 1969, Donnall Thomas realizou o primeiro transplante de medula óssea, técnica que hoje é utilizada no tratamento de leucemias, linfomas e mieloma múltiplo.
A imunologia também trouxe novas possibilidades. O desenvolvimento de anticorpos monoclonais permitiu destruir células tumorais, inibir o crescimento de tumores e direcionar o sistema imunológico contra o câncer. Mais recentemente, surgiu a terapia com células CAR-T, na qual linfócitos do próprio paciente são modificados geneticamente para destruir células tumorais. Apesar de ser uma abordagem recente, os resultados são animadores.
Células tumorais brasileiras
Em nossos laboratórios, inicialmente no INCA e depois no Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desenvolvemos nas décadas de 90 e 2000, as linhagens celulares conhecidas por Feps e Lucena, até hoje utilizadas por diversos grupos de pesquisa nacionais e internacionais.
Ao longo de 30 anos, dediquei-me ao estudo da Resistência a Múltiplas Drogas, utilizando essas linhagens de células para pesquisar diferentes quimioterápicos contra tumores hematológicos.
Embora ainda existam várias lacunas para a cura do câncer, avançamos extraordinariamente, contribuindo para a compreensão de mecanismos da doença e para torná-la menos assustadora.
Um outro marco fundamental para a pesquisa do câncer no Brasil, em minha opinião, foi a ideia que tivemos de criar um programa multiprofissional e extra muros ao campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A proposta era reunir cientistas, jornalistas, farmacêuticos, nutricionistas, artistas e quem mais tivesse interesse pela temática do câncer.
Na virada do século, com o apoio do Dr. Marcos Moraes, ex-diretor do INCA e então presidente da Fundação do Câncer, criou-se o Programa de Oncobiologia da UFRJ que saiu do papel com apenas 13 pesquisadores. E hoje reúne mais de 500 cientistas de vários estados brasileiros e até do exterior.
O câncer não é uma única doença, mas muitas. E é essa rede que nos torna mais capazes de responder às perguntas que ainda cercam sua biologia e também a reduzir o estigma que ainda acompanha a doença.
E é importante refletir que não falamos em “luta” ou “combate” contra outras doenças, como as cardiovasculares ou o diabetes. E, incrivelmente, ainda hoje mencionamos o Dia de Luta contra o Câncer ou Dia Mundial de Combate ao Câncer. Usar termos de guerra para associar ao câncer também é uma forma de preconceito.
Voltando à pergunta que norteou este artigo: o câncer tem cura?
Hoje, o câncer não é mais “aquela doença”. Não porque sua incidência tenha diminuído, mas porque o conhecimento científico, os diagnósticos precoces e as novas terapias transformaram o câncer, em muitos casos, em uma doença tratável e, em alguns, curável. A doença que não se mencionava passou a ser discutida publicamente, nas famílias, nos hospitais e até nas redes sociais.
Mas a história mostra que as doenças mudam de lugar no imaginário coletivo. A tuberculose foi “aquela doença”, depois vieram o câncer e a Aids. À medida que o tempo avança, qual será a próxima doença impronunciável?
Este artigo não seria possível sem o apoio de agências de fomento como CNPq, Capes, Faperj e Fundação do Câncer.
Vivian Rumjanek recebeu financiamento do CNPq, CAPES, FAPERJ, Fundação do Câncer.
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