A Copa do Mundo dos ultrarricos | G1

A Copa do Mundo dos ultrarricos | G1

A oportunidade, descrita como “a primeira do tipo na história do torneio”, foi oferecida exclusivamente aos seus clientes convidados, que passam por uma avaliação antes de serem aceitos.

Ela incluía seis ingressos na primeira fileira, bem na linha de meio de campo, e acesso ao gramado durante a premiação, no momento em que a seleção campeã erguer a taça.

O preço total para seis pessoas: US$ 4 milhões (cerca de R$ 20 milhões).

“(O pacote) foi vendido para um de nossos membros menos de 24 horas depois de anunciado”, diz à BBC News Brasil o presidente da Knightsbridge Circle, Stuart McNeill.

A Knightsbridge Circle é uma entre várias empresas que estão oferecendo pacotes de luxo para os ultrarricos que desejam participar da Copa.

A atual edição é considerada inédita por, dentre outros motivos, ser disputada em três países — Estados Unidos, México e Canadá — e ter um número recorde de 48 seleções participantes. Serão ao todo 104 partidas em 16 cidades.

Para muitos torcedores ao redor do mundo que desejam acompanhar o Mundial de perto, o planejamento começou há meses e foi marcado por dificuldades, desde os altos preços dos ingressos e do transporte para alguns dos estádios até obstáculos para conseguir o visto americano.

Mas, para uma ínfima parcela dos visitantes, a experiência será bem diferente: eles devem chegar às cidades-sede de jatinho particular, deslocar-se aos estádios de helicóptero ou limusine e ter lugar garantido na área VIP, mesmo que tenham decidido fazer tudo isso de última hora.

“Trabalho com esse mercado (de luxo) há 22 anos, e a maior surpresa, para mim, é que nesta Copa, o dinheiro pode comprar praticamente qualquer coisa, o que é uma novidade (em comparação com as anteriores)”, diz McNeill.

Um Rolls Royce Phantom branco, limusine de quatro portas, vira na Collins Avenue, em South Beach, Miami, EUA. — Foto: Getty Images

Ele e outros especialistas do segmento de alto luxo não revelam os nomes dos clientes interessados na Copa do Mundo. São celebridades, bilionários, fundadores de empresas, executivos do setor de tecnologia e atletas, entre outros, vindos de várias partes do mundo, inclusive do Brasil.

“Temos alguns clientes brasileiros”, diz McNeill, lembrando que a empresa tem uma equipe em Miami que fala português.

Quanto custa uma experiência de luxo?

Nem todos os pacotes de luxo para a Copa têm um preço milionário. Os valores dependem de vários fatores, como tipo de acesso, transporte, acomodação e número de noites.

Mas muitos dos roteiros sob medida oferecidos pela Knightsbridge Circle, por exemplo, “passam facilmente dos seis dígitos”.

Incluem desde os já citados jatinhos e helicópteros até atendimento VIP nos aeroportos, equipes de segurança e hospedagem em redes de hotéis de luxo, como Four Seasons, Aman e Rosewood.

Nicole Wallach, vice-presidente da divisão de lazer da Magma Global, empresa especializada em serviços de concierge de viagens de luxo, calcula que as opções mais em conta fiquem entre US$ 25 mil e US$ 75 mil (R$ 125 mil e R$ 375 mil) para um casal, incluindo hospedagem cinco estrelas, ingressos para uma partida, voo em classe executiva e transfer privativo.

Alguns clientes pagam bem mais do que isso, em itinerários de luxo que incluem vários dias e diversas cidades-sede. Há também quem decida emendar a Copa com viagens para outros locais.

“Tenho clientes que vão assistir a jogos em Los Angeles e depois pegar um voo para passar algumas noites no Havaí”, diz Wallach à BBC News Brasil.

Vista para o campo de jogo a partir de uma das suítes do Dallas Stadium em Arlington. — Foto: Tom Fox/The Dallas Morning News

Para o fim de semana da final, com hospedagem de luxo em Nova York, ela estima que os gastos podem ficar facilmente na casa dos seis dígitos.

Gina Gabbard, diretora de Estratégia da First in Service Travel, agência de Nova York que faz parte da rede global de turismo de luxo Virtuoso, diz à BBC News Brasil que as opções para os torcedores ultrarricos vão desde ingressos VIP e refeições preparadas por chefs durante o jogo até pacotes mais completos.

“Podem incluir hospedagem em hotéis de luxo, transporte privativo na cidade-sede, reservas em restaurantes sofisticados, passeios e outras atividades e, para alguns clientes, encontros exclusivos com os jogadores”, afirma Gabbard.

“Os ingressos VIP, dependendo da partida, podem custar a partir de US$ 5 mil [R$ 25 mil] por pessoa”, diz Gabbard.

“Pacotes começam em torno de US$ 50 mil dólares [R$ 250 mil] e podem chegar a várias centenas de milhares de dólares quando envolvem múltiplos jogos e cidades.”

Privacidade e acesso são o que importa

Segundo Wallach, para os clientes desse segmento, conveniência, privacidade e acesso são mais importantes do que o preço.

“São viajantes que costumam voar em jatos particulares e se hospedar nas suítes mais luxuosas”, diz.

“Eles viajam acompanhados de sua própria equipe e realmente esperam uma experiência altamente personalizada quando se trata de um evento dessa magnitude.”

Ela ressalta, porém, que nem todos os interessados em pacotes de luxo para a Copa viajam em jatinhos, e alguns vão de primeira classe ou executiva em voos comerciais.

Além disso, em determinadas partidas, é possível que haja mais procura do que disponibilidade de helicópteros para chegar aos estádios.

“Há um limite para o número de aeronaves e locais de desembarque disponíveis”, diz Wallach. Nesse caso, a solução é um carro de luxo com motorista particular.

De acordo com Wallach, esses torcedores querem mais do que apenas um ingresso VIP. “Nem todos querem sentar na primeira fila. Para muitos, a prioridade é a privacidade e o acesso a serviços exclusivos. Eles estão em busca de uma experiência VIP completa”, ressalta.

“Enquanto o torcedor comum perde tempo em filas, pagando por comida e bebida ao longo do dia, esses clientes costumam contar com entrada exclusiva e acesso a lounges privativos com alta gastronomia”.

Cofundador da Microsoft, o bilionário Bill Gates assistiu à estreia dos EUA na Copa do Mundo — Foto: Reuters

Wallach afirma que é equivocado pensar que esses viajantes estão simplesmente buscando a experiência mais cara. “O que eles querem é uma experiência sem atrito.”

Isso envolve, entre outros aspectos, não ter de enfrentar multidões nem se preocupar com nenhum detalhe da programação.

“Eles querem exclusividade, não querem ficar esperando pelos outros. É um verdadeiro tratamento de tapete vermelho, e eles estão dispostos a pagar por isso”, diz McNeill.

As equipes de apoio que costumam viajar com esses clientes podem incluir diversos profissionais, desde seguranças até chefs particulares.

“Em muitos casos, o consultor de viagens colabora diretamente com o assistente pessoal e outros membros da equipe do cliente para coordenar os arranjos”, destaca Gabbard.

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Decisões de última hora

Outro aspecto que diferencia esses viajantes dos torcedores comuns é a (pouca) antecedência no planejamento.

“Muitos vão assistir aos jogos acompanhados de suas famílias, outros vão aproveitar para recepcionar clientes”, diz Wallach.

“Eles valorizam seu tempo muito mais do que o dinheiro, e várias vezes tomam decisões de última hora.”

Segundo McNeill, o interesse de seus clientes na Copa foi tímido no início. “Para viajantes de fora dos Estados Unidos, havia uma real relutância em razão do cenário político”, afirma.

No entanto, a procura ganhou força nas últimas semanas, e a expectativa é de que aumente ainda mais à medida que as oitavas de final se aproximem e fique mais claro quais países vão avançar.

“Na verdade, está apenas começando para nós, porque os membros que atendemos costumam fechar os planos de última hora”, diz McNeill.

“Gostam de ver como está o desempenho de sua seleção [antes de decidir]. Por exemplo, se o Brasil chegar à semifinal ou à final, vão entrar em um avião e ir para onde quer que o jogo seja realizado.”

Entre os membros da Knightsbridge Circle, são comuns viagens bate-volta com duração de um ou dois dias, chegando na manhã do jogo ou na noite anterior e partindo no dia seguinte. Na semana seguinte, podem retornar para a próxima partida de sua seleção.

“Como muitos voam em jatinhos particulares, é conveniente e fácil para eles assistir a todos os jogos”, observa McNeill.

Wallach diz ter visto aumento na procura desde que o torneio começou. “Sinceramente, acho que é maior do que esperávamos.”

Segundo McNeill, além das partidas, há procura também por outras experiências exclusivas, como uma série de almoços organizados por sua empresa com ex-jogadores da Copa, que oferecem a oportunidade de conversar de perto com nomes consagrados do futebol mundial.

Em outras ocasiões, clientes que querem ver os craques de perto se comprometem com doações para instituições de caridade apoiadas pelo atleta. “Muitos dos jogadores são altamente engajados em causas beneficentes”, ressalta McNeill.

“Em seu dia de folga, podem concordar em receber alguns clientes no centro de treinamento. Nossos clientes fazem uma doação [a uma instituição], e talvez possam tirar fotos [com o atleta], bater uma bola ou algo do tipo.”

Para os interessados em acesso “superexclusivo” na final da Copa que perderam o pacote de US$ 4 milhões, McNeill lembra que há uma nova oportunidade, com dois assentos exclusivos na beira do gramado. Cada um vai custar “apenas” US$ 1,5 milhão de dólares (R$ 7,5 milhões).

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