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70% dos jovens trabalham no Brasil, diz pesquisa | G1

por Gilberto Cruz
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É o que mostra a pesquisa “Juventudes e o Mundo do Trabalho”, realizada pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva.

O levantamento ouviu 1.816 jovens em todo o país para entender a relação dessa população com o mercado de trabalho e suas expectativas para o futuro.

Segundo a pesquisa, 70% dos entrevistados trabalham ou fazem estágio. Entre eles, 32% conciliam emprego e estudos, enquanto 39% se dedicam exclusivamente ao trabalho. Outros 16% apenas estudam e 13% não trabalham nem estudam atualmente.

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Para Carla Chiamareli, gerente do Observatório Fundação Itaú, o percentual de jovens trabalhando é um indicador positivo, mas ainda há desafios para garantir a inclusão produtiva dessa população.

“Um dado positivo é ver que 70% dos jovens estão trabalhando. Ainda temos um problema de inclusão produtiva da juventude no país, mas esse é um indicador relevante diante do cenário econômico que vivemos”, explica a espcialista.

Desigualdade marca trajetória profissional

A possibilidade de conciliar trabalho e estudo varia de acordo com a condição socioeconômica. Entre os jovens das classes A e B, 48% conseguem manter as duas atividades. Na classe D/E, o percentual cai para 16%.

A diferença também aparece no recorte racial: 38% dos jovens brancos conciliam trabalho e estudo, contra 29% dos negros. Para Chiamareli, a desigualdade de renda é um dos principais destaques do levantamento.

“Uma das coisas que mais me chamou atenção neste estudo foi a desigualdade de renda. Ela aparece de forma muito forte em vários indicadores da pesquisa, mais até do que em outros recortes”, afirma.

À medida que a renda diminui, a necessidade de focar exclusivamente no trabalho aumenta: na Classe A/B, apenas 28% dos jovens somente trabalham, número que sobe para 39% na Classe C e atinge 47% na Classe D/E.

A desigualdade também aparece na educação. Segundo a pesquisa, 88% dos jovens consideram necessário estudar mais atualmente para conseguir um bom emprego, enquanto 85% consideram o diploma importante para a trajetória profissional.

Além disso, 91% veem os cursos técnicos e profissionalizantes como um caminho rápido para entrar no mercado de trabalho.

Temos um número significativo de jovens na universidade, mas ainda existe uma diferença muito grande entre as classes sociais. Isso mostra que há uma janela importante para fortalecer políticas públicas de inclusão no ensino superior.

— Carla Chiamareli, gerente do Observatório Fundação Itaú

Além de trabalhar e estudar, metade dos entrevistados afirma ser responsável pelos cuidados da casa. A sobrecarga é maior entre as mulheres: 60% delas realizam tarefas domésticas, contra 40% dos homens.

O cuidado com crianças, idosos ou outras pessoas também recai mais sobre as mulheres: 28% delas desempenham esse tipo de atividade, ante 14% dos homens.

“Essa juventude é uma juventude de batalhadores. Ela precisa estudar, trabalhar e, muitas vezes, também cuidar da família, dos pais, dos filhos ou de outras pessoas”, afirma Chiamareli.

Para ela, os dados mostram que as responsabilidades de cuidado continuam distribuídas de forma desigual. “A pesquisa trouxe um retrato muito claro das desigualdades sociais. As responsabilidades de cuidado ainda recaem principalmente sobre as mulheres e sobre os jovens mais vulneráveis.”

Panorama do jovem no mercado de trabalho brasileiro — Foto: Arte g1

Falta de experiência é principal barreira

A busca por uma oportunidade também é uma dificuldade para boa parte dos jovens. Do total de entrevistados, 61% afirmam ter procurado emprego no último ano, e 20% estão procurando trabalho atualmente.

A falta de experiência profissional é apontada como o principal obstáculo para conseguir uma vaga, citada por 49% dos entrevistados. Na sequência aparecem a concorrência pelas vagas (39%), as dificuldades de deslocamento até o trabalho (28%) e a falta de qualificação (25%).

As conexões pessoais também têm peso na entrada no mercado. A família é apontada por 46% dos jovens como a principal fonte de orientação profissional, seguida por amigos e conhecidos, com 40%.

Entre aqueles que trabalham ou já trabalharam, 77% dizem ter conseguido emprego por indicação ao menos uma vez. A experiência prática também é valorizada.

Nove em cada dez jovens dizem aprender mais na prática do que estudando, e 91% consideram os cursos técnicos e profissionalizantes uma forma rápida de entrar no mercado.

Além disso, 60% defendem que programas de apoio ao emprego deveriam oferecer atividades práticas, e não apenas conteúdo teórico.

Para Chiamareli, os resultados mostram a necessidade de aproximar a formação dos jovens das exigências do mercado.

“Os jovens estão vendo muito mais sentido na prática e no mundo do trabalho do que no processo educativo tradicional. Isso nos faz refletir sobre que currículo a escola e a universidade estão oferecendo”, diz a especialista.

Ela defende uma maior integração entre as duas áreas: “Falta no país uma política mais articulada entre educação e trabalho. Precisamos aproximar a formação dos jovens das situações reais de aprendizagem e do mundo profissional”, completa.

Trabalho formal hoje, autonomia no futuro

Embora o salário seja o principal fator considerado na escolha de uma vaga, citado por 64% dos entrevistados, a qualidade do ambiente de trabalho também pesa. Além disso, 62% afirmam que aceitariam ganhar menos para trabalhar em um local com menos pressão e estresse.

As expectativas em relação ao tipo de trabalho também mudam quando os jovens projetam o futuro. Atualmente, 30% dizem desejar um emprego com carteira assinada.

Quando pensam nos próximos cinco anos, esse percentual cai para 16%. No mesmo período, o interesse pelo trabalho autônomo aumenta de 28% para 42%.

Para a gerente do Observatório Fundação Itaú, a mudança não significa necessariamente uma rejeição ao emprego formal. “Hoje eles querem um trabalho estável para amanhã serem autônomos. Eu vejo isso como um sinal de amadurecimento e de construção de projeto de vida”, explica.

Segundo ela, porém, parte desses jovens ainda não teve experiências positivas no mercado formal. “Eles projetam um futuro de sucesso com mais autonomia, mas muitas vezes ainda não tiveram contato com experiências positivas dentro do mercado formal de trabalho”, completa.

Panorama do jovem no mercado de trabalho brasileiro — Foto: Arte g1

Tecnologia é oportunidade e preocupação

A tecnologia aparece na pesquisa tanto como ferramenta de desenvolvimento quanto como fonte de insegurança profissional. 97% dos entrevistados afirmam usar internet e ferramentas digitais para aprender e se desenvolver profissionalmente.

Ao mesmo tempo, metade teme perder oportunidades de trabalho por causa dos avanços tecnológicos, e 90% acreditam que a inteligência artificial poderá substituir muitos empregos nos próximos anos.

Para Chiamareli, a preocupação é especialmente relevante para quem está começando a carreira. “Quem está no início da carreira percebe que parte das tarefas do primeiro emprego já está sendo substituída pela inteligência artificial.”

Entre as áreas de maior interesse para o futuro profissional estão Saúde (25%) e Tecnologia (22%), seguidas por Comércio e Vendas (19%), atividades administrativas (19%) e Educação (16%).

Sobre o interesse por Saúde e Tecnologia, Chiamareli afirma: “De certa forma, os jovens estão conectados com tendências do futuro, porque saúde e tecnologia são áreas que devem ganhar cada vez mais importância.”

Apesar das dificuldades, os jovens mantêm expectativas positivas sobre o futuro. 91% acreditam que estarão financeiramente melhor daqui a cinco anos, enquanto 88% esperam alcançar uma condição financeira superior à dos pais.

Quase metade (46%) também acredita que será mais fácil encontrar boas oportunidades de trabalho nos próximos anos. Ao mesmo tempo, 61% demonstram receio de não conseguir pagar as contas e ter uma vida tranquila no futuro.

O levantamento retrata, portanto, uma geração que vê a educação, a experiência prática e a tecnologia como caminhos para construir a carreira, mas que ainda enfrenta barreiras para acessar oportunidades e consolidar sua trajetória profissional.

Para Chiamareli, o desafio é transformar esse otimismo em condições concretas de desenvolvimento. “A grande pergunta é: como o país vai seguir pensando políticas que garantam a trajetória profissional da juventude?”

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