‘Você faz parte disso’, disse sócio de Vorcaro a Jaques Wagner

‘Você faz parte disso’, disse sócio de Vorcaro a Jaques Wagner


Augusto Lima, ex-dono do Banco Pleno e ex-gestor do Master, e o senador Jaques Wagner
Vanner Casaes/Agência Alba e Carlos Moura/Agência Senado
Gestor do Banco Master, Augusto Ferreira Lima afirmou ao senador Jaques Wagner (PT-BA) que o petista fazia “parte” do processo de venda do Master ao BRB, o Banco de Brasília. “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”, disse Augusto a Jaques em mensagem captada pelos investigadores da Operação Compliance Zero.
Leia também: Jaques Wagner e Augusto Lima: Veja quem são os alvos da 9º fase da Compliance Zero
A operação teve a 9ª fase deflagrada nesta quinta-feira (18), tendo como alvo Jaques Wagner, Augusto Lima e outros investigados. Augusto era sócio do ex-banqueiro Daniel Vorcado, que está preso.
Na decisão judicial do Supremo Tribunal Federal (STF) que embasou a operação desta quinta, Augusto Ferreira Lima é citado como principal interlocutor privado de Jaques Wagner. É descrito como a figura central na entrega de vantagens, coordenando desde o uso de jatos até a operacionalização financeira para a compra do imóvel indicado pelo senador e os repasses para a BN Financeira.
O documento do STF, de autoria do ministro relator André Mendonça, informa:
“Merece destaque a mensagem de 29/03/2025, em que, ao explicar a JAQUES WAGNER os termos da operação de venda do Banco Master ao BRB, AUGUSTO afirmou: ‘Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!’. Em juízo perfunctório, a frase indica que JAQUES não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico.”
De acordo com balanço da gestão atual do BRB, R$ 30 bilhões foram transacionados com o Master entre 2024 e outubro de 2025. O presidente do BRB à época dos negócios, Paulo Henrique Costa, está preso.
Desse valor, R$ 12,12 bilhões foram alvo de apuração da operação Compliance Zero. E pelo menos R$ 8,8 bilhões eram títulos inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação – na prática, “crédito podre” que pode se transformar em um rombo no patrimônio do banco.
Segundo as investigações, Augusto Lima atuou para que o BRB comprasse as carteiras do Banco Master.
Suspeitas sobre Jaques Wagner
A decisão judicial que autorizou cumprimento de mandados contra o senador Jaques Wagner (PT-BA) na manhã desta quinta-feira (18) traz relatos da Polícia Federal que indicam como o senador teria atuado em favor do Banco Master. A ação faz parte da 9ª fase da Operação Compliance Zero.
De acordo com o documento, haveria indícios de atuação parlamentar em temas relacionados à matéria de crédito consignado, em relação ao limite de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) e na tentativa de fiscalização e controle da compra do Master pelo BRB. A ação teria sido em prol também da “Emenda Master”.
A PF identificou, como contrapartida à atuação de Wagner, a aquisição de um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões. Seria a unidade 1.702 do empreendimento Poème Horto, cujos dados teriam sido repassados diretamente de Wagner para Augusto Lima.
As tratativas teriam seguido mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, com chamadas de voz, reuniões presenciais, videoconferências e envio de minutas contratuais.
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Wagner, que é líder do governo Lula no Senado, teria tratado diretamente com o banqueiro Augusto Ferreira Lima uma proposta para elevar a margem consignável dos salários de trabalhadores regidos pela CLT, para aposentados e pensionistas, além de autorizar para beneficiários do BPC.
O tema virou a emenda n° 30 apresentada à Medida Provisória 1.106/2022, que posteriormente foi convertida em lei.
Também houve, segundo a PF, a articulação para a aprovação da PEC 65/2023, que tinha repercussão sobre o limite de cobertura do FGC. É nessa matéria que Wagner teria atuado em prol da “Emenda Master”, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Teria havido uma sequência de contatos entre Guilherme Sodré, Daniel Vorcaro, o chefe de gabinete do senador e Augusto Lima.
Em 13 de agosto de 2024, quando a emenda n° 11 é incluída, há uma ligação entre Wagner e Lima de 9 minutos e 19 segundos, com o envio, logo depois, do link da emenda. Em 27 de agosto do mesmo ano, após um encontro presencial, Lima teria reencaminhado o link da emenda.
Em entrevista ao programa Estúdio i, em maio, o senador comentou sua relação com os empresários Daniel Vorcaro e Augusto Lima ao abordar a privatização da rede estadual de supermercados Cesta do Povo, realizada durante o governo de Rui Costa, na Bahia.
Segundo o parlamentar, a Cesta do Povo representava um elevado custo para os cofres públicos. O senador relatou no programa que as negociações para a privatização ocorreram com o empresário Augusto Lima, e não com Daniel Vorcaro. Segundo ele, à época não conhecia Vorcaro.
“Nós negociamos com o Augusto Lima, que tinha expertise em cartões de serviço e cartões consignados, vendidos para diversos sindicatos em parceria com um empresário espanhol”, afirmou.
Ele explicou que a venda da rede foi concluída em 2018 e incluiu também o chamado Cartão Cesta. O parlamentar destacou que sua participação no processo se encerrou naquele momento, assim como a do então governador Rui Costa. “Eu bato palma para o que fizemos. Privatizamos o absurdo que era uma rede estatal de supermercados”, declarou na entrevista.
Sobre os desdobramentos posteriores do negócio, o senador afirmou que a gestão passou por outras instituições financeiras. “Daí para frente é com o Banco Máxima, que veio depois, e posteriormente com o Banco Master. Se houve ou não irregularidades, a Polícia Federal está investigando”, disse.
Apesar da descrição das condutas envolvendo a atividade parlamentar, o ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), não acolheu o pedido de buscas e apreensão no gabinete de Jaques Wagner.
A PF havia solicitado, mas a Procuradoria-Geral da República havia se manifestado contra.
“Isso porque a realização de medidas como a ora aventada em dependências situadas na sede de outro Poder reclama fundamentação particularmente rigorosa, apta a demonstrar não apenas a participação do parlamentar nos fatos sob apuração, mas também a existência de elementos indicativos de que, naquele espaço funcional, se encontrem provas indispensáveis à investigação, ou cuja obtenção se revele inviável por outros meios”, justificou o ministro.
Também não foi autorizado o cumprimento de medidas em escritórios ligados ao mandato de Wagner.
A assessoria de Jaques Wagner foi procurada, mas ainda não se pronunciou sobre a operação desta quinta-feira (18).
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