Vídeo sobre ‘kit chuca’ viraliza, mas ministério não compra nem custeia o produto para o SUS; entenda

Vídeo sobre ‘kit chuca’ viraliza, mas ministério não compra nem custeia o produto para o SUS; entenda


Higienizador íntimo oferecido por ambulatório municipal de Salvador é apresentado em vídeo que viralizou nas redes sociais.
Reprodução/Instagram
Um vídeo que viralizou nas redes sociais nos últimos dias mostra um higienizador íntimo usado para a limpeza anal disponível em um ambulatório municipal especializado em saúde LGBT+ de Salvador.
A publicação, feita pela enfermeira e sexóloga Maiara Teixeira, acumulou milhões de visualizações e passou a ser compartilhada também por perfis que associaram a distribuição do chamado “kit chuca” ao governo federal.
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As imagens foram gravadas em um estande da Secretaria Municipal da Saúde de Salvador, durante o XX Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana (CBSH), realizado entre os dias 2 e 4 de setembro de 2026 no Centro de Convenções da cidade.
Quem aparece no vídeo apresentando o produto a Maiara é Paloma Xavier, gestora do Multicentro de Saúde Carlos Gomes e do ambulatório especializado da capital baiana.
➡️ A oferta mostrada nas imagens, porém, é uma iniciativa da rede municipal de Salvador.
Procurado pelo g1, o Ministério da Saúde informou que não compra, não custeia nem distribui kits de higiene íntima.
“O Ministério da Saúde não realiza a compra, não custeia e nem distribui kits de higiene íntima. Eventuais aquisições desse tipo podem ser realizadas por estados e municípios, que possuem autonomia para definir suas ações no âmbito da gestão local do SUS.”
Quem precisa de chuca? Prática da ‘ducha higiênica’ antes do sexo anal exige cuidados
A pasta acrescentou que suas “políticas e ações são orientadas por evidências científicas e voltadas à atenção integral à saúde”.
➡️ ENTENDA: O SUS tem gestão compartilhada entre União, estados e municípios. O Ministério da Saúde coordena políticas nacionais, mas os municípios também podem formular e executar políticas locais e são responsáveis pela prestação de serviços de saúde em seus territórios.
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Exemplos de dispositivos usados para a prática da chuca, ou enema. Mercado tem modelos descartáveis (mais recomendados) e os reutilizáveis.
Divulgação
Produto é oferecido em ambulatório de Salvador
No caso mostrado no vídeo, a oferta é feita pelo município de Salvador. A ducha já era oferecida pelo ambulatório antes de o vídeo viralizar e aparecia em uma lista divulgada pela prefeitura na inauguração da unidade, em 2023.
O Ambulatório Municipal Especializado em Saúde LGBT+ funciona no Multicentro de Saúde Carlos Gomes, no centro da cidade, e foi inaugurado em setembro daquele ano.
Na ocasião, o g1 Bahia noticiou a abertura da unidade e informou, com base nos dados divulgados pela própria prefeitura, que a lista de itens disponíveis já incluía preservativos internos e externos, gel lubrificante e a ducha higiênica anal (veja também o vídeo ABAIXO).
Também faziam parte dos serviços anunciados pela gestão municipal a oferta de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), acompanhamento de pessoas trans e travestis, atenção à saúde mental e ações de prevenção e diagnóstico.
O g1 procurou a Secretaria Municipal da Saúde de Salvador para pedir mais informações sobre a compra, o custeio e os critérios de distribuição do produto. Até a última atualização desta reportagem, contudo, a pasta não havia respondido.
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Para que serve a ducha anal?
A ducha anal é usada para retirar resíduos de fezes do canal anal antes do sexo anal.
Segundo Lucas Rocher, médico infectologista do Centro de Referência e Treinamento IST/Aids do Estado de São Paulo, a prática é comum entre pessoas que fazem sexo anal receptivo, embora ainda existam poucos estudos específicos sobre o tema.
Lucas explica que a principal finalidade é higiênica. O uso busca deixar o canal anal mais limpo antes da relação e pode trazer mais conforto para quem prefere fazer esse tipo de preparação.
“O objetivo da ducha é deixar o canal anal mais limpo e reduzir eventuais resquícios de fezes. Isso contribui com uma tranquilidade, conforto e segurança para quem está praticando esse sexo anal”, afirma.
O infectologista ressalta, porém, que essa limpeza não deve ser confundida com prevenção de infecções sexualmente transmissíveis.
⚠️ A ducha NÃO funciona como barreira contra ISTs e NÃO substitui estratégias específicas de prevenção.
➡️ Em resumo, a função da ducha é:
retirar resíduos do canal anal antes da relação;
aumentar a sensação de conforto de quem faz sexo anal receptivo;
fazer parte da preparação para a relação, quando a pessoa opta por esse tipo de higiene.
➡️ Ela não serve para:
prevenir HIV ou outras ISTs;
substituir preservativos;
substituir a PrEP;
funcionar, por si só, como medida de proteção durante a relação.
Lucas afirma que essa diferença é importante porque o uso do higienizador pode ser associado, de forma equivocada, à prevenção de infecções. Segundo ele, esse não é o objetivo do procedimento.
E foi justamente o uso do produto para higiene que chamou a atenção de Maiara Teixeira quando ela encontrou o estande da Secretaria Municipal da Saúde de Salvador no congresso.
Serviço de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de Risco à Infecção pelo HIV é ofertado pelo SUS.
Divulgação/Semsa
Maiara, que é enfermeira e sexóloga, contou ao g1 que já conhecia outros insumos de saúde sexual, como preservativos e lubrificantes, mas não sabia que aquele tipo de higienizador era disponibilizado pelo ambulatório. Depois de conversar com Paloma, decidiu gravar a demonstração.
Ainda segundo Maiara, um dos motivos que fizeram o produto chamar sua atenção foi a existência de formas improvisadas de fazer a higiene anal.
Ela afirma que, em sua experiência profissional e nos relatos que já acompanhou, há pessoas que recorrem a objetos ou métodos inadequados para fazer a higiene anal, o que pode provocar lesões na região.
A enfermeira também diz que não conhecia a oferta desse tipo de item em um serviço público antes de visitar o estande.
Paloma afirma que essa é justamente uma das preocupações do ambulatório ao oferecer o higienizador.
“Esse cuidado é para que algo correto seja utilizado”, disse a gestora, ao explicar que práticas inadequadas podem agredir mais do que higienizar.
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