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Tomar de 2 a 3 xícaras de café por dia está associado a menor risco de demência, aponta estudo com 131 mil pessoas

por Redação
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Qual é o café da manhã ideal, considerando nossas diferenças regionais?
Beber café com cafeína regularmente, em quantidade moderada, foi associado a menor risco de demência ao longo da vida em um dos mais extensos acompanhamentos já realizados sobre o tema.
O estudo, publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), analisou dados de 131.821 homens e mulheres acompanhados por até 43 anos nos Estados Unidos.
Os participantes integravam duas grandes coortes prospectivas —o Nurses’ Health Study (mulheres) e o Health Professionals Follow-up Study (homens)— e respondiam questionários alimentares a cada dois a quatro anos. Foram excluídas pessoas que já tinham câncer, doença de Parkinson ou demência no início do acompanhamento.
O que o estudo descobriu
Ao longo do acompanhamento, 11.033 participantes desenvolveram demência.
Quando os pesquisadores compararam os extremos de consumo de café com cafeína, encontraram a seguinte diferença:
Baixo consumo: 330 casos de demência para cada 100 mil pessoas acompanhadas por ano.
Alto consumo: 141 casos para cada 100 mil pessoas por ano.
A medida “pessoas-ano” é usada para padronizar o cálculo ao longo do tempo. Em termos simples, significa quantos novos diagnósticos surgem, em média, a cada ano dentro de um grupo de 100 mil pessoas.
Mesmo depois de considerar outros fatores que influenciam o risco de demência —como idade, tabagismo, atividade física, qualidade da dieta, índice de massa corporal, hipertensão e diabetes— a associação permaneceu.
Na análise ajustada, os maiores consumidores de café com cafeína apresentaram 18% menor risco de desenvolver demência ao longo do período estudado.
O mesmo padrão foi observado para o chá. Já o café descafeinado não apresentou associação consistente com menor risco.
café
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Relação em curva
Um dos achados mais relevantes foi a relação não linear entre consumo e risco. O menor índice de demência foi observado entre aqueles que ingeriam cerca de 2 a 3 xícaras de café por dia —o equivalente aproximado a 300 mg de cafeína. Quantidades superiores não trouxeram benefício adicional claro.
Esse formato em curva sugere um ponto ótimo de efeito. Segundo o neurologista Alan Eckeli, professor da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, o padrão é biologicamente plausível.
“Muitas substâncias apresentam um ponto de saturação. Doses moderadas podem ter efeito anti-inflamatório ou metabólico favorável. Acima disso, não necessariamente há ganho adicional —e podem surgir fatores que neutralizam o benefício, como piora do sono”, afirma.
A cafeína atua como antagonista de receptores de adenosina no cérebro e pode modular processos inflamatórios e metabólicos ligados à neurodegeneração. Ainda assim, o estudo não permite concluir que ela seja o único componente responsável pelo efeito observado, já que café e chá contêm polifenóis, antioxidantes e outras substâncias bioativas.
Associação não é prevenção
Apesar do longo seguimento e do grande número de participantes, o estudo é observacional. Isso significa que identifica associação estatística, mas não comprova relação de causa e efeito.
Professor de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Renato Anghinah explica que o principal mérito do trabalho é mostrar consistência ao longo de décadas, com medições alimentares repetidas —o que reduz distorções pontuais. Ainda assim, ele ressalta que o achado deve ser interpretado como correlação.
“É uma correlação estatística. Não podemos afirmar que seja causa e efeito”, resume.
Uma das limitações é a possibilidade de causalidade reversa. Alterações cerebrais associadas à demência podem começar muitos anos antes do diagnóstico clínico. Nesse período pré-clínico, mudanças sutis de comportamento —como reduzir o consumo de café— podem ocorrer sem que a pessoa saiba que está em processo de adoecimento, influenciando os resultados.
Além disso, mesmo com ajustes estatísticos amplos, não é possível excluir completamente fatores de confusão residuais. O perfil socioeconômico, o nível de engajamento cognitivo e outros hábitos de vida podem influenciar tanto o consumo de café quanto o risco de demência.
Outro ponto é a população estudada: profissionais de saúde norte-americanos, em sua maioria com alto nível educacional e acesso facilitado a cuidados médicos. Isso pode limitar a generalização dos resultados para outras realidades.
Imagem de microscopia mostra placas de proteína beta-amiloide, ligadas ao Alzheimer, em tons fluorescentes no tecido cerebral.
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O tamanho do efeito
Além do diagnóstico de demência, os pesquisadores também analisaram o desempenho cognitivo em uma parte das participantes do estudo —mulheres com mais de 70 anos que foram submetidas a testes neuropsicológicos por telefone ao longo do acompanhamento.
O principal instrumento utilizado foi o Telephone Interview for Cognitive Status (TICS), uma escala padronizada que varia de 0 a 41 pontos e avalia memória, atenção e orientação. Nesse grupo, as mulheres com maior consumo de café com cafeína tiveram, em média, 0,11 ponto a mais na pontuação em comparação às que consumiam menos.
À primeira vista, a diferença parece pequena —e é mesmo modesta. Para dar dimensão: a queda média anual esperada nesse teste é de cerca de 0,18 ponto. Ou seja, o ganho observado equivale aproximadamente a pouco mais de meio ano de envelhecimento cognitivo.
É o que contextualiza Helder Picarelli, neurocirurgião do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e pós-doutor pela USP. À reportagem, ele detalha que ganhos dessa magnitude dificilmente se traduzem em impacto funcional perceptível no cotidiano do paciente.
O efeito individual é modesto. Ainda assim, reduções de risco na faixa de 15% a 20% podem ter relevância quando analisadas em escala populacional, especialmente em um cenário de envelhecimento acelerado.

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O que fazer com essa informação?
O consumo moderado de café com cafeína parece seguro para a maioria das pessoas e esteve associado a menor risco de demência neste estudo. Mas isso não equivale a afirmar que beber café previne Alzheimer.
A prevenção do declínio cognitivo continua baseada em fatores com evidência mais consolidada: controle da pressão arterial e do diabetes, prática regular de atividade física, estímulo intelectual, sono adequado e interação social.
O novo estudo reforça uma hipótese biologicamente plausível e sustentada por acompanhamento prolongado. Mas, como ocorre com a maior parte das pesquisas observacionais em nutrição e estilo de vida, a ciência avança por acúmulo de evidências —não por conclusões definitivas a partir de um único trabalho.

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