Tarifaço dos EUA: primeiro dia de audiência tem críticas técnicas a novas sanções, mas decisão será política

Tarifaço dos EUA: primeiro dia de audiência tem críticas técnicas a novas sanções, mas decisão será política


Depois do primeiro dia de audiências públicas sobre o tarifaço, empresários e economistas brasileiros concluíram que até técnicos dos Estados Unidos compreendem não haver motivos para uma nova taxação contra importações do Brasil.
Esse mesmo segmento concorda que, se o novo tarifaço for adotado, será por uma decisão meramente política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
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Esse foi o balanço feito depois desse primeiro dia das audiências que estão sendo realizadas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).
As falas foram mais favoráveis aos argumentos do governo brasileiro de que aplicar uma tarifa extra de até 37,5% não tem base técnica, mas alguns setores americanos, como pecuária e de etanol, defenderam as recomendações de um novo tarifaço.
Começam audiências públicas sobre tarifaço proposto pelo governo americano aos produtos brasileiros
Por sinal, a expectativa de empresários brasileiros é que o pré-candidato do PL à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro, que participa da audiência nesta terça-feira (7), faça uma correção de rumo e defenda que Trump não aplique o tarifaço agora, e abandone sua ideia inicial de deixar a decisão para depois da eleição.
Até aliados do senador do PL esperam que ele adote essa postura, diante da reação negativa à carta enviada por ele ao USTR, classificada pelo presidente Lula de “entreguista” (leia mais abaixo).
🔎Flávio, que chegou aos Estados Unidos no último domingo (5), tem se colocado à frente de assuntos internacionais e articulado com representantes do governo do presidente norte-americano Donald Trump. Contudo, a atuação é independente e não tem relação com o Itamaraty.
Os empresários não querem deixar para depois das eleições uma solução para o caso. Temem que, numa eventual vitória, Flavio Bolsonaro venha a ceder além do desejável para o governo Trump.
Os produtores de etanol e de açúcar são os mais preocupados, já que, em sua carta ao USTR, o pré-candidato do PL já antecipou que pode ceder neste campo.
Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro também estão apreensivos. Temem uma fala fora do tom do senador que dê ainda mais munição para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usar na campanha eleitoral. Por isso, até os aliados de Flávio Bolsonaro esperam uma mudança de rumo.
A equipe do presidente Lula vai adotar nesta terça uma estratégia para esvaziar o discurso de Flávio Bolsonaro de que o governo não quer negociar com Donald Trump.
Primeiro, assessores destacam que a equipe de Trump sabe muito bem que o Brasil está negociando.
Segundo assessores de Lula, o alvo de Flávio Bolsonaro são os eleitores no Brasil, um discurso político, uma fake news, que a equipe de Lula está buscando insistir que não é verdade.
O Brasil só não está participando das audiências públicas porque esse não é o espaço da negociação oficial entre governos, mas enviou observadores (entenda mais a seguir).
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
Reprodução
O que Flávio Bolsonaro planeja dizer ao USTR
A participação na audiência pública do USTR é aberta aos interessados que se inscreverem — foi assim que Flávio Bolsonaro ganhou o espaço para falar no evento.
O senador enviou à autoridade americana um pedido de comparecimento e um resumo do depoimento que pretende fazer.
Nos documentos, Flávio pede cinco minutos para falar, tempo padrão para participação no evento, e informa que vai se pronunciar em inglês e presencialmente.
O político se apresenta como integrante do Senado Federal do Brasil e pré-candidato à Presidência da República. Relata ter se reunido pessoalmente com Trump para tratar dos temas da investigação.
📝 Confira os pontos que Flávio levará ao USTR sobre tarifas:
Posicionamento contrário à tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e a qualquer medida relacionada ao PIX brasileiro;
Diz que as sanções americanas, na prática, beneficiariam o atual governo e prejudicariam exportadores brasileiros, consumidores americanos e a oposição brasileira;
Afirma que as sanções não atingiriam o objetivo de eliminar as práticas investigadas e poderiam produzir o efeito oposto ao desejado;
Propõe a abertura imediata de um mecanismo de negociação bilateral. Essa negociação teria um cronograma, com prazo para ser concluída, e incluiria as seis áreas da investigação: comércio digital, corrupção, propriedade intelectual, etanol, desmatamento e tarifas;
Diz que a distância entre a posição dos EUA e um governo brasileiro “reformista” seria menor do que a existente com o atual ocupante do cargo, o presidente Lula.
Governo envia observadores
O governo brasileiro decidiu não se inscrever para discursar na audiência pública sobre o tarifaço proposto pelo governo de Donald Trump, que acontece nesta segunda-feira (6) e terça-feira (7).
Mesmo assim, a embaixada em Washington enviará representantes, na condição de observadores, para que o governo tome ciência dos argumentos. As informações são do Ministério das Relações Exteriores.
O entendimento do governo brasileiro é que este espaço, das audiências públicas, não é o adequado para negociação real, e sim, as conversas técnicas e de alto nível que têm havido nas últimas semanas e que estão programadas para os próximos dias.
Depois do tom político da carta aos EUA, Flávio precisa evitar ‘escorregões’ em audiência, dizem aliados
Na semana passada, por exemplo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, teve uma conversa com o representante do escritório comercial dos EUA, Jamieson Greer. Após a reunião, Rosa informou que novas conversas estão previstas para os próximos dias.
Nesses encontros entre autoridades brasileiras e americanas voltados à negociação, o governo apresentou uma proposta de encaminhamento acerca dos pontos levantados pelos EUA, mas ainda não recebeu resposta formal.
O prazo é 15 de julho para ser fechado um acordo.
Diante disso, o próprio governo brasileiro vem dizendo que corre contra o tempo para chegar a um entendimento com o governo americano, mostrando os dados da relação comercial e do combate ao desmatamento, por exemplo.
Na semana passada, o governo do presidente Lula enviou uma resposta formal à investigação dos norte-americanos.
No documento, assinado pelo ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores), o Brasil afirma que o USTR não comprovou que atos, políticas ou práticas brasileiras sejam discriminatórios ou imponham barreiras ao comércio dos Estados Unidos.
O ministro afirma ainda que as críticas do governo americano ao PIX e a decisões da Justiça brasileira não têm relação com comércio, mas com divergências sobre políticas internas.
Sob reserva, integrantes do governo dizem não acreditar na reversão completa do tarifaço, somente em uma eventual redução ou anúncio de exceções.
Nos bastidores, a avaliação de integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty é que a recomendação feita pelo USTR tem caráter político e desconsidera os argumentos técnicos apresentados pelos negociadores ao longo do último ano.

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