Seus sonhos têm cheiros? Novo estudo sobre ‘mentes cegas’ revela grandes diferenças na capacidade de imaginação

Seus sonhos têm cheiros? Novo estudo sobre ‘mentes cegas’ revela grandes diferenças na capacidade de imaginação


Seus sonhos têm cheiros? Novo estudo sobre “mentes cegas” revela grandes diferenças na capacidade de imaginação
Getty Images
É comum pensar que todos temos experiências de vida semelhantes. Mas, quanto mais aprendemos sobre os pensamentos ocultos das outras pessoas, mais as evidências mostram que isso não é verdade.
Por exemplo, nem todos têm a mesma capacidade de ter sensações imaginárias. A maioria das pessoas consegue visualizar situações — elas conseguem ter experiências imaginárias de ver pessoas e cenas que não estão lá. Mas nem todos são assim.
Nós dois autores deste texto somos dos chamados afantásicos visuais, o que significa que não conseguimos, voluntariamente, imaginar ver coisas com os “olhos da mente”. Quando lemos um livro, nenhum de nós consegue imaginar os personagens.
Quando estamos acordados, nosso outros tipos de experiências imaginadas também são bem diferentes um da outra. Derek consegue imaginar ouvir trechos de música à vontade, mas Loren tem uma mente silenciosa. Ela nem consegue se imaginar falando. Loren, por sua vez, consegue ter sensações imaginárias vívidas de tato, paladar e olfato, mas Derek não tem nenhuma dessas.
Portanto, quando estamos acordados, nossas imaginações são bem diferentes. Mas e quanto aos nossos sonhos? Em nosso novo estudo investigamos os sonhos de pessoas afantásicas, para ver como eles se sobrepõem — ou não — às suas imaginações quando estão acordadas.
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Sonhos em mentes sem imaginação
Embora nenhum de nós consiga visualizar situações acordados durante o dia, como muitos afantásicos, Derek, quando dorme, tem sonhos visuais vívidos. Mas Loren não tem sonhos visuais nem auditivos. Seus sonhos são sempre lúcidos: vividos como uma consciência que se desdobra em torno de um enredo que ela pode controlar, acompanhada por uma sucessão de diferentes sensações de textura e movimento.
Os sonhos de Derek, por sua vez, são repletos de imagens, sons e sensações de movimento — mas não envolvem sensações imaginárias de tato, paladar ou olfato.
Portanto, Loren tem uma mente silenciosa, esteja ela acordada ou sonhando, enquanto Derek não consegue ter sensações imaginárias de tato, paladar ou olfato enquanto está acordado ou sonhando.
Isso nos levou a pensar que as experiências imaginadas que as pessoas com afantasia têm enquanto estão acordadas poderiam corresponder, de alguma forma, ao conteúdo de seus sonhos. Assim, realizamos um estudo para descobrir isso.
Recrutamos 84 pessoas com afantasia visual e um grupo de comparação de 121 pessoas sem afantasia, e pedimos a todos que relatassem seus sonhos e suas experiências imaginadas enquanto estavam acordados.
Utilizamos medidas padrão das experiências imaginadas pelas pessoas e criamos novas medidas para verificar a consistência, incluindo uma medida das experiências imaginadas no dia a dia.
Descobrimos que as pessoas com afantasia tendem a relatar experiências imaginadas semelhantes tanto durante os sonhos quanto quando estão acordadas. Mas também havia diferenças. Algumas pessoas com afantasia relataram de forma consistente que não havia correspondência alguma.
O que o cérebro está fazendo?
Os cientistas estão interessados na sobreposição entre os sonhos das pessoas afantásicas e suas experiências imaginativas quando acordadas, pois isso poderia nos dar uma visão sobre as diferenças entre pessoas afantásicas e aquelas que conseguem visualizar.
Como muitos afantásicos relatam ter sonhos visuais, alguns argumentam que seus cérebros podem gerar experiências imaginadas, mas que algum processo neural necessário para a percepção dessas sensações imaginadas deve falhar quando estão acordados. Eles podem estar visualizando sem saber.
Nossa pesquisa sugere outra possibilidade. Algumas pessoas afantásicas podem ter cérebros capazes de gerar uma gama completa de diferentes tipos de sensações oníricas.
Mas outras pessoas afantásicas podem ter cérebros que simplesmente não conseguem criar certos tipos de sensações imaginadas, independentemente de estarem acordadas ou sonhando.
São necessárias mais pesquisas para distinguir essas possibilidades.
Sonhos também variam entre pessoas sem afantasia
Embora nosso estudo tenha se concentrado em pessoas com afantasia, também perguntamos sobre os sonhos de outras pessoas. Aqui também houve diferenças. Por exemplo, 37% das pessoas sem afantasia relataram que nunca têm sensações olfativas em seus sonhos, e 33% relataram que nunca tiveram sensações táteis em seus sonhos.
As pessoas também costumavam relatar não ter certeza sobre o conteúdo de seus sonhos. Portanto, se você perguntar a familiares e amigos, eles provavelmente dirão que têm combinações diferentes de sensações oníricas.
Em nosso estudo, encontramos ainda evidências de uma relação entre o conteúdo dos sonhos e as experiências imaginadas pelas pessoas em suas vidas cotidianas. Por exemplo, se as pessoas costumam ter sensações olfativas nos sonhos, é mais provável que relatem imaginar o cheiro de comida quando pensam no jantar enquanto estão acordadas.
Por que isso é importante?
Descobrimos que é relativamente comum que as pessoas relatem ter um conjunto diferente de tipos de sensações imaginadas, tanto quando sonham quanto quando estão acordadas.
Alguns leitores terão experiências imaginadas intensas relacionadas ao olfato, enquanto outros relatarão que nunca têm essas experiências imaginadas. Nossa pesquisa em andamento visa compreender essas diferenças e relacioná-las à estrutura, ao funcionamento e à conectividade do cérebro das pessoas.
Compreender as experiências imaginadas pode nos dar uma visão sobre como o cérebro humano cria um tipo de experiência consciente – um dos grandes mistérios da ciência.
De uma perspectiva prática, as visualizações estão entre os tratamentos psicológicos mais populares do mundo, e não está claro se as pessoas afantásicas podem se beneficiar das tentativas de visualização.
Há também questões relacionadas à educação. Professores costumam incentivar as crianças a visualizar, e não está claro qual a proporção de crianças que não consegue fazer isso.
Esperamos, em breve, poder explicar por que algumas pessoas conseguem, e outras não, imaginar o cheiro do jantar antes de ligarem o fogão.
Derek Arnold recebe financiamento do Australian Research Council. Ele é funcionário registrado da The Australasian Society for Experimental Psychology.
Loren N. Bouyer não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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