Risco de suicídio é até 10 vezes maior após violência em jovens, aponta pesquisa
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Um estudo conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Universidade de Harvard, mostra que o risco de suicídio foi 10,7 vezes maior entre jovens indígenas e 3,14 vezes maior entre jovens negros após episódios de violência. Entre jovens brancos, a associação não foi estatisticamente significativa.
Publicada no periódico Cambridge Prisms: Global Mental Health, a pesquisa analisou dados de mais de 92 mil pessoas com registros de violência e identificou 1.657 casos de suicídio.
Os resultados evidenciam desigualdades etnorraciais marcantes e reforçam a necessidade de estratégias de prevenção que levem em conta fatores estruturais, como o racismo.
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Violência e suicídio: uma relação conhecida e desigual
O estudo investigou como diferentes formas de violência interpessoal influenciam o risco de suicídio em jovens de 10 a 29 anos, incluindo:
agressão física
violência sexual
violência doméstica
Para isso, os pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) utilizaram dados do Cadastro Único (CadÚnico), integrados à Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros.
As informações foram cruzadas com sistemas nacionais de saúde, como o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), o Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), no período de 2011 a 2018.
Segundo a pesquisadora Flávia Alves, associada ao Cidacs/Fiocruz Bahia e à Universidade de Harvard, a relação entre violência interpessoal e suicídio já era conhecida. O diferencial do estudo foi mostrar como esse vínculo se distribui de forma desigual entre grupos raciais.
Ela afirma que os resultados indicam a necessidade de colocar o enfrentamento do racismo estrutural no centro das estratégias de prevenção, ao lado de ações para reduzir a violência e outros determinantes sociais.
Desigualdades ampliam vulnerabilidade
Os resultados mostram que jovens indígenas e negros estão mais expostos a condições que aumentam tanto a probabilidade de sofrer violência quanto o risco de desenvolver sofrimento mental.
No Brasil, esses grupos enfrentam, de forma desproporcional, pobreza, segregação e acesso limitado a oportunidades educacionais e de emprego. Esse conjunto de fatores amplia a vulnerabilidade e intensifica os impactos da violência.
Além disso, a experiência de violência pode desencadear efeitos psicológicos diretos, como trauma, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e abuso de substâncias —fatores associados ao aumento do risco de suicídio.
A pesquisadora destaca ainda que as taxas de suicídio na população indígena já são historicamente mais altas do que na população geral, o que reforça a necessidade de interpretar esses dados dentro de um contexto mais amplo de vulnerabilidades sociais, econômicas e históricas.
E por que não houve associação entre jovens brancos?
Segundo Alves, a explicação mais provável está nas diferenças de exposição à violência.
Ela aponta que jovens indígenas e negros estão, em média, muito mais expostos à violência interpessoal no Brasil. A maior exposição —muitas vezes desde cedo e de forma contínua— pode gerar um efeito acumulativo ao longo da vida.
Esse fenômeno, descrito por especialistas como “cronificação” da violência, pode levar a alterações persistentes na saúde mental, como hipervigilância, sensação de desesperança e estratégias de enfrentamento inadequadas, aumentando o risco de autolesão.
Prevenção precisa ir além do indivíduo
O estudo também alerta que políticas de prevenção do suicídio costumam se basear em evidências produzidas em países de alta renda, o que pode limitar sua eficácia em contextos como o brasileiro.
Para os autores, é essencial considerar fatores estruturais, como desigualdades raciais e exposição à violência, especialmente em países de baixa e média renda.
A conclusão é que estratégias eficazes de prevenção precisam ir além do nível individual e incluir ações para reduzir a violência e enfrentar as iniquidades raciais, promovendo maior equidade em saúde.
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