‘Quando as pessoas ouvem a mesma música, nossos corações e nossa atividade cerebral se sincronizam’

‘Quando as pessoas ouvem a mesma música, nossos corações e nossa atividade cerebral se sincronizam’


O mexicano Jesús Ramírez Bermúdez é neuropsiquiatra e escritor
Arquivo pessoal
Você já passou pela situação de estar ouvindo e cantando — talvez até dançando — uma música com alguém e sentir uma conexão inexplicável, algo que une vocês de forma profunda?
Não foi coisa da sua cabeça: isso acontece no seu cérebro e no seu coração.
“As artes, como a literatura e a música, ajudam a nos sincronizar uns com os outros”, afirma o neuropsiquiatra e escritor mexicano Jesús Ramírez Bermúdez.
“Quando eu e outra pessoa estamos ouvindo a mesma música ou lendo o mesmo livro, a atividade dos meus neurônios se sincroniza com a dos neurônios dela”, acrescenta ele. O mesmo ocorre com a atividade cardíaca.
Agora no g1
Ramírez Bermúdez sabe disso tanto por seu trabalho como cientista e clínico na Unidade de Neuropsiquiatria do Instituto Nacional de Neurologia e Neurocirurgia do México quanto pelas pesquisas que realiza para seus livros.
Sua obra mais recente, La melancolía creativa (A melancolia criativa, na tradução literal para o português), mistura a história da medicina e da psiquiatria com estudos atuais de neurociência para desvendar justamente as ligações entre melancolia e criatividade.
No livro, ele afirma, por exemplo, que “a melancolia atravessa a história da cultura ocidental: é um símbolo da desilusão e do sofrimento; um sinal crítico que indica o desfecho dos distúrbios coletivos e das limitações de todo esforço civilizatório. Mas também é um ponto de partida da travessia artística”.
Sobre isso e muito mais Ramírez Bermúdez falou com a BBC Mundo (serviço em língua espanhola da BBC) durante o festival Centroamérica Cuenta, que acontece no Panamá.
Confira alguns trechos da entrevista.
Conectoma humano
No mundo há pessoas cegas que experimentam alucinações visuais, pacientes com amnésia que têm lembranças falsas, gente (viva, claro) que afirma estar morta.
Ramírez Bermúdez se dedica a estudar esses tipos de casos clínicos, que às vezes “vão além do senso comum”, para compreender como se produzem diferentes doenças cerebrais ou alterações mentais e de comportamento.
Mais especificamente, ele realiza estudos dentro de uma corrente de pesquisa chamada conectoma humano.
“Basicamente, o que se busca decifrar é a forma como esses 100 bilhões de neurônios que temos no cérebro se comunicam e se integram para criar uma experiência unificada de consciência”, explicou durante sua palestra viral do projeto “Aprendemos Juntos”, do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria.
“Eu tenho a sensação de que sou uma pessoa, um sujeito, um único indivíduo. Não tenho a sensação de que sou 100 bilhões de neurônios, além de muitas outras células que tenho no meu organismo. Então, como essa unidade se cria?”, acrescentou.
‘A criatividade não é privilégio de alguns: é a oportunidade de cada pessoa transformar o dia em um espaço de prazer e reconciliação’, escreve Ramírez Bermúdez
Getty Images / BBC
Mas o neuropsiquiatra não se interessa apenas por essa conexão que ocorre em nível individual, mas também interpessoal. Daí sua fascinação pela sincronização de neurônios e corações que acontece especialmente graças à arte.
O fenômeno tem até uma condição interessante: “Isso só acontece quando nós dois temos uma disposição atencional, ou seja, quando ambos utilizamos nossa atenção plena e ativa”, explica ele à BBC Mundo.
Em A melancolia criativa, ele cita o caso extremo de uma pesquisa que demonstrou que a sincronização cardíaca não ocorre, por exemplo, se uma das pessoas está em estado vegetativo.
O fenômeno também pode acontecer em escala massiva. “É o que as bandas musicais buscam em um show: essa sincronização de quando todas as pessoas estão aplaudindo ou dançando no ritmo da música”.
De fato, diz ele, isso é satisfatório para todos.
“Esse é o presente que eu acredito que os músicos, os escritores, os artistas em geral nos dão: essa possibilidade de nos sincronizarmos, de termos uma experiência coletiva e, portanto, um horizonte de sentido compartilhado”, afirma, para em seguida ir um passo além.
Segundo Ramírez Bermúdez, isso nos dá razões para ter esperança.
“Os artistas nos lembram quais são essas razões, embora às vezes o façam por meio da evocação de momentos em que eles próprios não tiveram razões para ter esperança”, diz.
“Esse é o paradoxo da melancolia criativa.”
A teoria da bile negra
Apesar de hoje a melancolia ser principalmente um conceito cultural, em suas origens e durante mais de 2.000 anos ela pertenceu ao campo da medicina.
“O conceito médico da melancolia surgiu em uma tradição mais antiga que a filosofia aristotélica: a escola de Hipócrates. O médico de Cós registrou termos como epilepsia, frenite, letargia, mania e, enfim, a melancolia”, escreve Ramírez Bermúdez.
A arte nos dá a possibilidade ‘de nos sincronizarmos, de termos uma experiência coletiva’, diz o neuropsiquiatra
Getty Images / BBC
A palavra surge do grego, em que melas significa “negro” e colé quer dizer “bile”.
“O fato de nunca ter havido evidências de uma relação entre o quadro clínico da melancolia e o excesso de bile negra não impediu que essa teoria pré-científica se estendesse no tempo e no espaço”, afirma em seu livro.
Durante a entrevista, Ramírez Bermúdez explica que a melancolia era definida como “uma forma de loucura que, em teoria, tinha a ver com uma acumulação patológica de bile negra”.
Entre seus sintomas estavam a tristeza, o medo, a perda de sono e de apetite, e os delírios, além de um lado criativo.
Era tamanha a ideia que Aristóteles, em seu célebre Problema XXX, pergunta: “Por que razão todos aqueles que foram homens excepcionais, seja no que diz respeito à filosofia ou à ciência do Estado, à poesia ou às artes, mostram-se claramente melancólicos, e alguns até ao ponto de serem tomados por doenças provocadas pela bile negra?”.
O termo foi abandonado como diagnóstico médico apenas no século passado, quando foi substituído pelo conceito de depressão.
Nesse ponto, o neuropsiquiatra mexicano gosta de esclarecer que, embora no dia a dia sejam frequentemente usados como sinônimos, depressão e tristeza não são a mesma coisa.
Em grande parte, nos tornamos o resultado de nossas nostalgias e anseios
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A depressão, diz ele, é uma síndrome clínica em que existe uma tristeza profunda, permanente ou duradoura, entre outros sintomas, e que pode ter múltiplas causas.
Já a tristeza “é um sentimento do cotidiano, que todos nós experimentamos e que faz parte do nosso repertório habitual de emoções”.
Ela costuma ter uma carga negativa, mas, segundo Ramírez Bermúdez, “a tristeza tem incontáveis lições a nos ensinar, e uma muito importante é que ela é transitória”.
“Ou seja, atravessamos o território da tristeza, entramos e saímos dele para seguir em frente com nossas vidas. À medida que surgem novos contextos, novos pensamentos ou novos projetos, a tristeza, digamos assim, nos abandona ou nós abandonamos esse território”, continua.
‘A tela da melancolia’
Em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, existe um inferno para aqueles que vivem no “ar doce” da melancolia, que suspiram durante toda a eternidade “no lamaçal negro”.
Ramírez Bermúdez está muito distante dessa visão sombria.
“A relação entre as artes e a depressão dá à melancolia a possibilidade de criar algo que recupere o sentido da vida”, diz.
Por isso ele quis dedicar um livro inteiro à melancolia, ainda mais na atual “epidemia do desencanto”, como ele a chama.
Na própria contracapa de seu livro, ele afirma: “Somos a tela da melancolia: em grande parte nos tornamos o resultado de nossas nostalgias e anseios, da luta entre o que gostaríamos de ter sido e a consciência do que realmente somos”.
E isso, como ponto de partida para a criatividade, tem um enorme poder.
“A criatividade não é privilégio de alguns”, escreve. “É a oportunidade de cada pessoa transformar o dia em um espaço de prazer e reconciliação”.

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