
Os bilhões que Lula vai injetar na economia em ano eleitoral: programas sociais turbinados e isenção do IR
Ricardo Stuckert / PR via BBC
Com uma disputada eleição presidencial pela frente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou um conjunto de medidas para aumentar o poder de compra da população, aquecer a economia e reduzir o impacto da alta dos preços dos combustíveis, devido à guerra envolvendo Estados Unidos e Irã.
Por outro lado, as medidas devem pressionar a inflação no país e dificultar a redução dos juros pelo Banco Central, afirmam economistas ouvidos pela reportagem.
Parte dessas medidas vai significar alívio direto no bolso dos brasileiros neste ano, como a redução do Imposto de Renda para a classe média e a ampliação de benefícios para os mais pobres, através dos novos programas Gás do Povo (distribuição de botijões) e Luz do Povo (descontos na conta de energia).
O aumento da isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil e a redução da alíquota para quem ganha até R$ 7.350, mudanças que começaram a valer em janeiro, devem evitar a arrecadação de algo entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões, segundo projeções de instituições financeiras, como BTG Pactual e ARX Investimentos, beneficiando 15 milhões de pessoas.
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Questionado pela BBC News Brasil, o Ministério da Fazenda disse que não tem uma projeção atualizada do impacto da mudança.
“É quase um 14º salário”, disse Lula em novembro, ao exaltar a economia que trabalhadores com renda próxima a R$ 5 mil terão com a isenção.
Já o Gás do Povo e o Luz do Povo devem somar, neste ano, um alívio de R$ 15,5 bilhões no bolso de famílias de baixa renda, uma alta de R$ 3,6 bilhões em relação a 2025, segundo dados do próprio governo federal.
Os dois programas, criados no ano passado, ampliaram políticas já existentes para acesso gratuito a botijões e descontos na conta de energia. As políticas foram rebatizadas e se tornaram vitrines do governo Lula.
No caso do Gás do Povo, o programa mais que triplicou as famílias atendidas em 2026, de 4,5 milhões para 15 milhões. Os beneficiários têm direito a recargas de 4 a 6 botijões por ano, a depender do tamanho das famílias. O valor médio nacional do botijão está em R$ 110, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.
Já o número de residências beneficiadas pelo Luz do Povo deve passar de 16,7 milhões para 20,9 milhões ao longo de 2026, segundo o Ministério de Minas e Energia.
O programa garante gratuidade na conta de energia para famílias com renda de até meio salário-mínimo por pessoa e consumo de até 80 kWh por mês. E dá um desconto de 11,8% na conta das famílias com renda de até um salário-mínimo por pessoa e consumo mensal de até 120 kWh.
Além do alívio direto no bolso, o governo Lula adotou, ao longo de 2025, medidas para estimular o acesso a crédito barato, que terão impacto neste ano.
A novidade que deve movimentar mais recursos é o Crédito do Trabalhador, linha de crédito consignado criada em março de 2025 e que vem crescendo. Nessa modalidade, trabalhadores formais conseguem contrair empréstimos usando até 10% do seu saldo do FGTS como garantia — isso reduz o risco de inadimplência, diminuindo também os juros cobrados.
Neste ano, até 16 de março, haviam sido concedidos R$ 26 bilhões de novos empréstimos, cerca de metade de todo o valor liberado em 2025 (R$ 53 bilhões), segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego.
Além das operações novas, trabalhadores também migraram para o programa R$ 41 bilhões em empréstimos antigos que tinham juros mais caros.
A projeção da ARX Investimentos é que serão liberados, no total, R$ 134 bilhões em novas operações em 2026.
“A estratégia do governo para maximizar o dividendo político-eleitoral é atuar em várias frentes. Então, tem de benefícios sociais até medidas que vão manter a economia aquecida, como a expansão do crédito”, afirma o economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros.
Os estímulos ocorrem em um momento de desaceleração da atividade econômica. Segundo economistas consultados pelo Banco Central semanalmente no Boletim Focus, o mercado prevê expansão de 1,8% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2026, resultado pior que os de 2025 (2,3%) e de 2024 (3,4%).
Procurado pela reportagem, o Palácio do Planalto não quis se manifestar. Lula e seus ministros costumam rebater as críticas de que as medidas sociais e econômicas mirem a eleição de 2026. O governo argumenta que ações como o aumento da isenção do IR e a oferta de empréstimo consignado melhoram a vida dos trabalhadores.
“As pessoas agora podem ter crédito barato para sair do endividamento. Sair da mão do agiota, do banco que cobra até 10%, 12%, para procurar o crédito mais barato que elas puderem encontrar”, disse Lula no ano passado, sobre o Crédito do Trabalhador.
Programa com maior aprovação popular, Minha Casa Minha Vida tem expansão
Barros destaca também o crescimento do Minha Casa Minha Vida (MCMV), programa do governo Lula com maior aprovação popular — 90% de apoio, segundo pesquisa de dezembro do instituto Quaest.
O MCMV, que oferece empréstimo subsidiado para compra de imóveis com recursos do FGTS e outros fundos públicos, alcançou orçamento recorde de R$ 180 bilhões em 2025 e deve continuar crescendo em 2026.
Segundo o Ministério das Cidades, o programa já contratou mais de 1,9 milhão de unidades desde 2023, com investimento público superior a R$ 300 bilhões, e a meta é chegar a 3 milhões até o final de 2026 — ou seja, a previsão de novos contratos para este ano é quase o dobro da média dos três primeiros anos de mandato.
Dentro desse plano de expansão, o governo anunciou na semana passada a ampliação das faixas de renda atendidas pelas quatro modalidades do MCMV, assim como o aumento do valor dos imóveis que podem ser financiados.
Com isso, o limite de renda passou de R$ 12 mil para R$ 13 mil, e o valor máximo do imóvel aumentou de R$ 500 mil para R$ 600 mil, elevando o potencial de beneficiários.
No ano passado, o governo já havia lançado duas novidades para o setor habitacional. Uma delas foi a criação da faixa 4 do MCMV, no final de março, para atender famílias de maior renda.
E a outra foi o programa Reforma Casa Brasil, que oferece financiamentos para obras residenciais, no valor de R$ 5 mil a R$ 30 mil, com juros subsidiados, para famílias com ganhos de até R$ 9,6 mil por mês.
A previsão da ARX Investimentos é que apenas essas duas novas políticas vão movimentar R$ 46 bilhões neste ano, ante apenas R$ 8 bilhões no ano passado.
Segundo Gabriel de Barros, há ainda outras medidas que, embora não signifiquem dinheiro ou crédito direto para as famílias, também devem contribuir para estimular a atividade econômica em 2026, como a forte expansão dos empréstimos do BNDES.
Em 2025, as operações do banco somaram R$ 169,7 bilhões, aumento de 27% frente a 2024 e de 74% ante 2022. Para 2026, a expectativa é que o valor liberado ultrapasse R$ 200 bilhões.
“Isso ajuda o governo eleitoralmente, porque vai gerar emprego, vai gerar renda, o PIB vai ficar resiliente”, reforça.
Pressão sobre inflação e juros
O outro lado dessa política de expansão do poder de compra das famílias e da oferta de crédito, nota o economista, é o aumento da pressão sobre a inflação e os juros.
A taxa Selic, fixada pelo Banco Central e que serve de referência para os juros cobrados no país, subiu de 10,50% ao ano em julho de 2024 para 15% ao ano em junho de 2025, maior patamar desde 2006.
A taxa continua a maior em vinte anos, após sofrer um pequeno corte na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), neste mês, para 14,75% ao ano.
“Essa quantidade de grana movimentando a economia fez com que a Selic tivesse que ser 15%. Não fosse isso [as medidas do governo], poderia ser muito menor”, afirma Barros.
A preocupação é compartilhada pelo economista Samuel Pessoal, pesquisador da FGV e do BTG Pactual, que aponta também o impacto das medidas no aumento da dívida pública.
Isso ocorre, explica, tanto pelo aumento das despesas do governo, como pelo aumento da taxa Selic, que serve de referência para correção da dívida.
Segundo dados do Banco Central, a dívida pública cresceu de 71,7% do PIB em dezembro de 2022, antes de Lula assumir a presidência, para 78,7% do PIB em janeiro deste ano.
“Quando você aumenta o consumo agregado, sendo que a economia já está operando a pleno emprego, isso gera pressão inflacionária. Aí tem que ter mais juros e a dívida pública vai crescer mais”, afirma Pessoa.
Outros economistas têm uma visão menos crítica das ações do governo. Para Nelson Marconi, professor da FGV Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo), o problema da alta da dívida pública está relacionado a uma meta de inflação baixa, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Na sua visão, isso obriga o Banco Central a manter os juros que corrigem a dívida muito elevados. Por outro lado, como a Selic alta esfria a economia, isso leva o governo a adotar mais medidas para estimular o crescimento do país, avalia.
A meta de inflação para 2026 é de 3%, com margem de tolerância até 4,5%. O IPCA, índice de preços do IBGE, fechou fevereiro com alta acumulada em 12 meses de 3,81%. A previsão do Boletim Focus é que o índice feche 2016 acima de 4%.
Segundo os dois economistas ouvidos, esse cenário torna mais desafiador para o presidente eleito em outubro reduzir despesas e aumentar o superávit primário (economia para pagar juros da dívida). “O que está sendo feito não é sustentável”, critica Barros.
A guerra envolvendo Estados Unidos e Irã também aumentou a pressão sobre a inflação devido à disparada global do barril de petróleo, que chegou a ser negociado a US$ 119 em março, maior valor desde 2022, quando teve início a guerra entre Rússia e Ucrânia.
O governo já adotou medidas para tentar segurar o preço do diesel, diante de temores de uma greve de caminhoneiros no país similar a que ocorreu em 2018, paralisação que provocou um tombo na economia.
O objetivo do governo é garantir um desconto de R$ 0,64 por litro no preço na bomba, ao aliar redução de impostos e subvenção a importadores. O pacote terá um custo de R$ 30 bilhões, que será compensado com um novo imposto sobre a exportação de petróleo.
A guerra também pressiona o preço dos botijões de gás, com a associação de revendedores pressionando o governo a tomar medidas para não prejudicar o programa Gás do Povo.
Benefícios sociais e impulso econômico garantem votos?
Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, as políticas sociais e econômicas adotadas pelo governo Lula podem não se converter em vitória nas urnas.
Na sua avaliação, o peso da economia na definição da eleição diminuiu nos últimos pleitos, quando a política brasileira se tornou muito polarizada entre o lulismo e o bolsonarismo.
Ele lembra que Jair Bolsonaro não conseguiu se reeleger em 2022, mesmo lançando um pacote de medidas de R$ 41 bilhões em agosto daquele ano (o equivalente a cerca de R$ 46 bilhões hoje), a poucos meses da eleição.
Isso foi possível após seu governo conseguir aprovar no Congresso uma controversa alteração constitucional que declarava “estado de emergência” no país para driblar restrições à criação de novos benefícios às vésperas do pleito. A justificativa para a medida era a alta no preço dos combustíveis por causa da guerra na Ucrânia.
A mudança ficou conhecida como PEC Kamikaze e permitiu ampliar o Auxílio-Gás e o Auxílio Brasil (substituto do Bolsa Família) e criar benefícios temporários para caminhoneiros e taxistas. Depois, em 2024, o STF considerou essa PEC inconstitucional.
Seu governo criou também uma modalidade controversa de consignado para beneficiários do Auxílio Brasil entre o primeiro e o segundo turno presidencial, liberando R$ 9,5 bilhões em outubro de 2022 (o equivalente a cerca de R$ 11 bilhões hoje) em empréstimos para os segmentos mais pobres da população. Após a eleição, os desembolsos caíram fortemente e o programa acabou no início de 2023.
Apesar das medidas, Bolsonaro não conseguiu se reeleger, devido ao elevado índice de rejeição a seu governo, que analistas atribuem, em boa parte, à sua atuação na pandemia de covid-19, quando se posicionou contra a vacinação e medidas sanitárias.
“Ele começou com promessas ultraliberalizantes, uma política econômica ortodoxa. Depois, houve uma degradação da popularidade dele na pandemia, por sua postura na questão sanitária. A partir disso, ele entra na fase de populismo de gastos. Até mudança na Constituição ele fez”, aponta Cortez.
“Eu vejo o Bolsonaro muito mais eleitoreiro do que Lula”, compara.
Após derrotar Bolsonaro em 2022, o petista deve enfrentar em outubro o filho mais velho do ex-presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Pesquisas eleitorais indicam que, se a eleição fosse hoje, ambos estariam empatados em um eventual segundo turno.
Cortez nota que as principais novidades do governo estão em iniciativas para a classe média, como o aumento da isenção do Imposto de Renda. Na sua leitura, porém, a forte polarização da sociedade e a vantagem bolsonarista nesse grupo podem dificultar a conversão dessas políticas em votos.
“Não importa o que [Lula] faça. Um dos efeitos da polarização é diminuir o número de eleitores dispostos a mudar de ideia. Não é que o voto econômico não importa, mas ele não é mais suficiente para a vitória do incumbente em 2026 como era no passado”.
“Tem um problema político maior que é uma leitura [da população] de falta de novidade no governo. E se a gente pega as pesquisas eleitorais, quase todas estão mostrando que o Lula não merece um novo mandato. Então, acho que esse é um desafio para esse contágio eleitoral [das medidas do governo]”, continua.
Segundo pesquisa de março do instituto Quaest, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados em um eventual segundo turno, com 41% de intenção de votos cada.
Os últimos levantamentos da Quaest mostram que o apoio a Lula no grupo que ganha de dois a cinco salários-mínimos (R$ 3.242 a R$ 8.105) — em boa parte beneficiado pela mudança no IR — recuou de 46% em agosto de 2025 para 38% em março de 2026.
Agora, o petista aparece numericamente atrás de Flávio Bolsonaro nesse grupo, já que a intenção de voto no senador subiu de 35% para 41% no mesmo período.
Já entre os que ganham mais de cinco salários-mínimos (R$ 8.105), a vantagem de Flávio é ainda maior, aparecendo com 52% ante 33% de Lula na última pesquisa.
O petista, por outro lado, mantém vantagem no eleitor com ganho de até dois salários-mínimos (R$ 3.242), marcando 52% contra 32% do senador.
Governo defende impacto das medidas para trabalhadores
Ao defender suas ações, o presidente Lula diz que seu governo atua pelos trabalhadores e os grupos mais pobres.
O aumento da isenção do IR, por exemplo, foi uma promessa de campanha do petista e foi aprovado com amplo apoio no Congresso.
“Quando o bem comum está acima de interesses menores, é possível unir o Brasil em torno de grandes causas”, defendeu o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quando a mudança na tributação foi promulgada.
Para compensar as perdas de arrecadação, o governo aumentou impostos dos mais ricos, medida que deve impactar, em contraste, apenas 141 mil pessoas, segundo o Ministério da Fazenda.
A medida é elogiada por especialistas em desigualdade de renda, como o economista Sergio Gobetti e o sociólogo Marcelo Medeiros, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Enquanto o governo amplia algumas políticas, o maior programa social criado por Lula não teve crescimento em seu terceiro mandato.
O Bolsa Família teve uma grande expansão durante o governo de Jair Bolsonaro, com o objetivo de minimizar o crescimento da pobreza durante a pandemia de covid-19, momento em que o programa mudou de nome para Auxílio Brasil.
Após sua eleição, Lula resgatou o nome original, mas manteve o novo valor do benefício, de ao menos R$ 600 por família. Depois disso, o benefício não teve qualquer reajuste, nem mesmo correção inflacionária.
Com a redução das famílias atendidas, hoje em 18,7 milhões, o valor total transferido caiu de R$ 170 bilhões em 2024 para R$ 160 bilhões em 2025 — valor que deve ser mantido em 2026, segundo o Orçamento da União.
Outra ação que deve se manter estável em 2026 é o Pé de Meia, criado em 2024. Com orçamento anual de R$ 12 bilhões, o programa transfere renda para estudantes do Ensino Médio de famílias pobres, como forma de evitar o abandono escolar.
Lula chegou a prometer universalizar o benefício para todos os estudantes de Ensino Médio da rede pública neste ano, mas, devido às restrições orçamentárias, não há previsão de cumprimento da promessa.
Procurado pela reportagem, o Ministério da Educação apenas informou que o orçamento anual do programa continua em R$ 12 bilhões.
Em entrevista à BBC News Brasil em outubro, o ministro Camilo Santana disse que a universalização demandaria mais R$ 5 bilhões, segundo cálculos iniciais da pasta.
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