Brasil cobra explicações dos EUA sobre delegado da PF
A prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem nos Estados Unidos e a liberação dele dois dias depois geraram um novo impasse diplomático entre o Brasil e o governo dos Estados Unidos.
Ramagem fugiu do país em setembro do ano passado, dias antes de ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no caso da trama golpista. Ele mora nos Estados Unidos desde então, onde fez um pedido de asilo. A solicitação ainda não foi concluída.
No início deste mês, o ex-deputado, que é considerado foragido no Brasil, foi preso em Orlando por questões migratórias. Segundo informações preliminares, ele foi abordado na rua e detido por conta de um visto vencido.
Por isso, foi levado a um centro de detenção na Flórida, onde permaneceu por dois dias. Em 15 de abril, ele foi liberado de forma administrativa, e agradeceu às autoridades norte-americanas em um vídeo publicado nas redes sociais.
Na última segunda-feira (20), o governo de Donald Tump determinou que o delegado brasileiro que atuou junto às forças americanas pela prisão de Ramagem deixasse o país. Uma substituta para o cargo já foi nomeada.
A Polícia Federal e o Ministério das Relações Exteriores não foram informados da decisão de expulsar o delegado.
Enquanto isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava em viagem para a Europa e comentou o caso. Ele disse à imprensa reunida na Alemanha que pretende adotar uma medida semelhante, com base no princípio da reciprocidade, mas não deu detalhes sobre o que pode ser feito.
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Alexandre Ramagem
Reprodução
Entenda a cronologia do caso e como foi o impasse:
📆Março de 2023
O delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho é nomeado para atuar como oficial de ligação em Miami (EUA), em missão junto ao ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA), com duração inicial de dois anos.
📆2023 a 2025
O delegado permaneceu nos Estados Unidos, cumprindo a missão. Entre as principais atribuições do delegado está a colaboração com a identificação e a prisão de foragidos da Justiça brasileira nos Estados Unidos.
📆Março de 2025
Governo publica uma portaria prorrogando a permanência dele na missão por mais um ano.
📆Setembro de 2025
Ramagem deixa o Brasil de forma clandestina pela fronteira do Brasil com a Guiana.
O ex-deputado federal, que foi delegado da PF em Roraima, saiu do Brasil no mês em que o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou os integrantes do núcleo crucial da trama golpista. Ele foi condenado a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão, em regime inicial fechado.
Bolsonaro é condenado a 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado
📆18 de dezembro de 2025
A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados cassa o mandato de Alexandre Ramagem (PL-RJ).
A decisão atende à sentença do Supremo Tribunal Federal (STF) que condenou o agora ex-parlamentar à perda do mandato e a 16 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
📆17 de março de 2026
A Polícia Federal nomeia a delegada Tatiana Alves Torres para assumir o posto de oficial de ligação em Miami, em substituição a Marcelo Carvalho. A decisão é publicada no Diário Oficial da União.
Segundo o governo, trata-se de missão transitória, com duração de dois anos, incluindo mudança de sede e possibilidade de acompanhamento de dependentes. A substituição é tratada como parte da dinâmica regular de missões no exterior.
📆13 de abril de 2026
O ex-deputado federal Alexandre Ramagem é preso em Orlando, na Flórida (EUA), por questões migratórias, segundo a Polícia Federal.
No mesmo dia, ele é levado a um centro de detenção no Condado de Orange, onde fica em uma cela separada.
Alexandre Ramagem é preso por agentes de imigração dos Estados Unidos
📆15 de abril de 2026
Ramagem deixa a prisão nos Estados Unidos. Segundo apuração, ele foi liberado às 14h52 no horário local (15h52 em Brasília).
📆16 de abril de 2026
Ramagem publica um vídeo nas redes sociais em que agradece autoridades norte-americanas pela soltura.
“Eu entrei nos Estados Unidos, em setembro do ano passado, de forma perfeitamente regular, passaporte válido, visto válido, sem condenação nenhuma. Em seguida, entramos com o pedido de asilo […] Nós cumprimos os requisitos, estamos dentro de todos os procedimentos e fases, o que nos confere o status de permanência regular nos Estados Unidos”, afirmou Ramagem.
📆16 de abril de 2026
O Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) dos Estados Unidos disse à Polícia Federal (PF) que Alexandre Ramagem poderá aguardar em liberdade nos EUA a conclusão de um processo de pedido de asilo.
Interlocutores da PF afirmaram que a mensagem do ICE foi repassada em uma reunião.
O encontro já estava marcado antes mesmo de Ramagem ser solto. O objetivo era discutir o caso e evitar que ele fosse libertado, o que acabou acontecendo antes da reunião.
📆20 de abril de 2026
Os Estados Unidos determinam que um delegado brasileiro envolvido na prisão de Ramagem deixe o país. A medida é divulgada pelo Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental.
Sem citar nomes, o governo americano afirmou em uma rede social que uma autoridade brasileira tentou “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas” no país.
“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso”, diz o texto.
📆21 de abril de 2026
O presidente Lula comenta o caso, durante viagem à Europa. Disse que não sabe o que aconteceu no caso do delegado brasileiro envolvido na prisão de Ramagem nos EUA e afirmou que pode usar reciprocidade contra um americano no Brasil.
🔎 A reciprocidade é um princípio da diplomacia que prevê que um país pode adotar uma medida equivalente em relação a outro.
“Fui informado hoje de manhã, acho que se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil”, disse Lula na porta do hotel em Hannover, na Alemanha, em conversa com a imprensa.
📆21 de abril de 2026
A encarregada de Negócios interina da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Kimberly Kelly, é convocada a dar explicações ao Ministério das Relações Exteriores (MRE) sobre o pedido do governo de Donald Trump para que o delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de Carvalho deixe o país.
De acordo com relatos obtidos pela GloboNews, o encontro durou cerca de uma hora, e Kimberly Kelly se reuniu com Christiano Figueiroa, atual diretor do Departamento de América do Norte do MRE.
Prisão de Ramagem, liberação, delegado da PF expulso: entenda a cronologia do caso
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