“Não é uma intromissão da China, é uma participação normal e legítima, como tem na OMC”, afirmou Müller em entrevista ao g1. Segundo ele, a participação de outros países em uma disputa inicialmente bilateral amplia a relevância do caso e mostra que o tema ultrapassa os interesses de Brasil e EUA.
“Quando outros países se interessam para participar, mostra a importância que tem”, disse. Para o presidente da ApexBrasil, a OMC é justamente o espaço adequado para que questões relacionadas ao comércio internacional sejam discutidas e, principalmente, resolvidas.
Müller lembrou que Brasil e EUA defendem há décadas o uso da OMC para tratar de conflitos comerciais. “Levar esse assunto para a OMC é um gesto importante, porque a OMC é onde esses temas deveriam ser discutidos e mais do que discutidos, deveriam ser resolvidos”, afirmou.
Agora no g1
Na avaliação do presidente da ApexBrasil, a participação chinesa também evidencia a relevância do Brasil no comércio internacional. “O fato da China ter entrado no processo, nós achamos que é muito bom, porque isso mostra o interesse da China”, disse.
Para ele, o envolvimento de outros países demonstra que o Brasil “está longe de ser um país irrelevante”.
O novo ‘plano socorro’ da Apex
“Nós não podemos e não queremos mais depender de ninguém, porque a gente não precisa depender de ninguém”, afirmou. Segundo ele, o Brasil tem buscado ampliar sua presença na Europa, na Índia, no Canadá, no México, na África e em países asiáticos, como Malásia, Indonésia, Vietnã e Singapura.
Para Müller, o crescimento das exportações brasileiras para determinados países também acompanha o avanço dessas economias. Ele citou a Índia como exemplo: há cerca de dez anos, o país ocupava a 40ª posição entre os destinos das exportações brasileiras; atualmente, segundo ele, já é o quarto mercado mais importante e um dos que mais cresceram.
“É natural que a nossa exportação cresça para os países que estão crescendo mais”, afirmou. Por isso, segundo Müller, o plano de diversificação lançado pela ApexBrasil é uma resposta ao tarifaço americano, mas também faz parte de uma estratégia mais ampla de expansão comercial.
“Está muito claro para todos nós que nós não queremos e não vamos trocar uma dependência por outra”, disse.
Sobre o plano de R$ 210 milhões apresentado pela ApexBrasil, Müller afirmou que a agência não pretende concentrar os recursos em poucos setores ou países. A estratégia, segundo ele, foi desenhada para atender às 5.300 empresas brasileiras afetadas pelo tarifaço, que exportam cerca de 2 mil produtos atingidos pelas tarifas.
“Não estamos apostando em setores, nós não estamos apostando em prioridades. Nós estamos apostando nas 5.300 empresas que estão sofrendo com o tarifaço”, afirmou.
Müller disse ainda que a ApexBrasil trabalha com pelo menos 30 países e 29 setores, justamente porque o objetivo é contemplar o conjunto das empresas atingidas.
“É um plano para todos, para todas as empresas brasileiras impactadas”, afirmou. Segundo ele, a capacidade de atender todo esse grupo é algo inédito para a agência.
China e OMC, o que aconteceu?
No dia 30 de julho, o Brasil enviou à OMC um pedido de consulta sobre as novas tarifas impostas pelos EUA, contestando as aplicações. São elas:
- uma de 25%, aplicada sob o argumento de que o Brasil adota práticas econômicas consideradas desleais pelos EUA em relação a empresas americanas;
- outra de 12,5%, aplicada sob o argumento de que o Brasil, assim como dezenas de outros países, falhou na fiscalização da importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
Ao acionar a organização, o governo brasileiro argumentou que as novas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump são discriminatórias, unilaterais e violam os compromissos assumidos pelos Estados Unidos junto à própria entidade internacional.
Em seguida, na segunda-feira (10), o governo dos EUA respondeu ao pedido e informou estar “à disposição” para discutir o tarifaço.
“Os Estados Unidos aceitam o pedido do Brasil de realização de consultas. Estamos à disposição para nos reunirmos com os representantes de sua missão em uma data mutuamente conveniente para a realização das consultas”, afirma o documento.
Logo depois, no mesmo dia, a China pediu para participar de tais consultas. Na petição, Pequim afirma ter um “interesse comercial substancial” no processo porque a investigação sobre trabalho forçado conduzida pelos EUA e as medidas adotadas a partir dela atingem produtos de origem chinesa.
O pedido foi formalizado com base no artigo 4.11 do Entendimento sobre Solução de Controvérsias (DSU, na sigla em inglês) da OMC. Uma cópia do documento foi enviada às delegações do Brasil e dos Estados Unidos e ao presidente do Órgão de Solução de Controvérsias da organização.