Por que alguns cérebros não conseguem superar a perda


Ninguém questiona a extensão da dor intensa que se segue à morte de um ente querido. No entanto, apesar do sofrimento, a vida cotidiana costuma ser retomada gradualmente. O problema é que esse mecanismo de superação não funciona para todos. Para alguns, a dor não diminui com o passar do tempo – trata-se de uma condição conhecida como transtorno do luto prolongado (TLP). Em uma revisão publicada ontem na revista Trends in Neurosciences, pesquisadores examinaram o que se sabe sobre a neurobiologia do TLP. A equipe destacou como interrupções nas redes de recompensa ajudam a explicar por que o luto persiste em certos indivíduos.
O transtorno do luto prolongado está associado a interrupções nas redes cerebrais relacionadas à recompensa
Silvia para Pixabay
“O transtorno do luto prolongado é uma espécie de ‘novato’ nos diagnósticos psiquiátricos”, afirma Richard Bryant, autor principal do trabalho e pesquisador especializado em traumas da Universidade de New South Wales, na Austrália.
A experiência central do transtorno do luto prolongado se assemelha ao luto típico, incluindo saudade profunda e dor emocional. A diferença é que, para um em cada 20 enlutados, esse sentimento permanece inalterado seis meses após a perda. Para eles, a sensação é de que a vida deixou de ter significado, que parte de sua identidade desapareceu.
Para entender o quadro, Bryant e seus colegas recorreram à neurobiologia, área de estudo que utiliza a neuroimagem. Participantes enlutados foram solicitados a recordar lembranças ou manusear objetos do falecido durante exames cerebrais. O TLP foi repetidamente associado a mudanças nos circuitos de recompensa. Essas regiões incluem:
Núcleo accumbens e córtex orbitofrontal:
O núcleo accumbens se encontra na região subcortical do cérebro e libera dopamina quando antecipamos ou recebemos uma recompensa (comida, dinheiro, interação social). No luto prolongado, ele continua a atuar intensamente quando a pessoa vê fotos ou se lembra do morto. Isso gera um estado de anseio por uma “recompensa” (a presença do outro) que não pode mais ser obtida, mantendo o indivíduo preso em um ciclo de dor. Localizado logo acima dos olhos, o córtex orbitofrontal (COF) é responsável por tomar decisões baseadas no valor das coisas, ajudando o cérebro a ajustar o comportamento quando as recompensas mudam. Se o COF não consegue atualizar a informação de que aquela pessoa não está mais disponível, contribui para a ideia de que a existência perdeu o sentido.
Amígdala e ínsula:
A amígdala, uma pequena estrutura em forma de amêndoa e centro da resposta de “lutar ou fugir”, estabelece o que deve ser gravado por ser vital para a sobrevivência. No TLP, fica em estado de hipervigilância, ou seja, a perda de um vínculo é interpretada como uma ameaça biológica grave, o que explica a ansiedade e a dificuldade de relaxar.
A ínsula tem papel crucial na interocepção: a capacidade do sistema nervoso de perceber os sinais internos do corpo, dos batimentos cardíacos ao vazio no estômago. Estudos mostram que, quando uma pessoa em luto prolongado vê uma foto do ente querido, a ínsula dispara sinais parecidos aos de um ferimento real, isto é, transforma a saudade em dor física.
Alguns dos padrões neurais observados não são exclusivos do luto prolongado; alterações semelhantes surgem na depressão e no transtorno de estresse pós-traumático. São condições que compartilham características como a ruminação (um padrão de pensamento repetitivo) e o sofrimento emocional. “Seria até estranho se não tivéssemos essa sobreposição, mas o importante é que há tratamentos que podem resolver o problema”, diz Bryant.
Isolamento social ativa região do cérebro responsável pela dor física

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