A decisão ocorre após declarações reiteradas do presidente americano, Donald Trump, defendendo que os EUA assumam o controle da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca.
Segundo Lange, o Parlamento vinha avançando na definição de sua posição sobre duas propostas legislativas de Turnberry, com o objetivo de iniciar negociações com o Conselho Europeu e viabilizar os compromissos previstos no acordo entre a UE e os EUA.
- 🔎 O Acordo de Turnberry previa a suspensão de tarifas sobre todos os produtos industriais dos EUA exportados para a UE, além da criação de um sistema de cotas tarifárias para diversos produtos agroalimentares americanos. Esse mecanismo permitiria a entrada de determinados volumes desses itens no mercado europeu com tarifas reduzidas ou zeradas.
“Ao ouvir o discurso dele [Trump] em Davos, não houve qualquer recuo de posição. Ele quer que a Groenlândia faça parte dos EUA, quer sentar à mesa para discutir um preço. O único compromisso assumido foi o de não usar força militar sobre a Groenlândia.”
Lange afirmou que está totalmente claro que, com esse tipo de pressão, Trump “inaugura um novo tipo de relação”, ao passar a usar tarifas como instrumento de coerção.
Segundo ele, essa avaliação é compartilhada por seus colegas, diante da pressão exercida sobre a UE para que o território semiautônomo da Dinamarca seja vendido aos EUA.
“Vamos manter o andamento de dois processos suspenso até que haja clareza sobre a Groenlândia e sobre essas ameaças”, acrescentou o presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu.
De acordo com Lange, enquanto esse cenário persistir, “não há possibilidade de compromisso”.
‘Chantagem’ americana
O governo francês já havia elevado o tom contra a postura dos EUA nas negociações com a UE.
Ontem, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, afirmou que Washington tem recorrido a ameaças tarifárias como forma de pressão política, classificando a estratégia como uma tentativa de impor concessões que considerou injustificáveis. Para ele, o uso de tarifas caracteriza uma “chantagem”.
Barrot também declarou apoio à decisão de suspender o acordo comercial entre a UE e os EUA e ressaltou que a Comissão Europeia dispõe de mecanismos para reagir a eventuais medidas adotadas pelo governo americano.
Apesar do acerto político, o acordo ainda dependia de aval formal do Parlamento Europeu e dos governos nacionais, com início de vigência previsto entre março e abril deste ano.
Nas últimas semanas, o presidente americano intensificou as iniciativas para anexar a Groenlândia.
“Os Estados Unidos precisam da Groenlândia para fins de segurança nacional. Ela é vital para o Domo de Ouro que estamos construindo. A Otan deveria liderar o processo para que a conquistemos. Se não o fizermos, a Rússia ou a China o farão, e isso não vai acontecer!”, escreveu o republicano em uma publicação nas suas redes sociais na semana passada.
Em comunicado conjunto, Dinamarca, Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda afirmaram estar comprometidos com a defesa da Groenlândia e com o fortalecimento da segurança do Ártico no âmbito da Otan.
O governo da Groenlândia agradeceu publicamente o apoio europeu.
A crise também provocou protestos populares. Milhares de pessoas foram às ruas da Groenlândia e de Copenhague no sábado para criticar a intenção de Trump de anexar o território.
Pessoas participam do protesto “Tirem as mãos da Groenlândia”, realizado após a Casa Branca afirmar que os EUA estavam considerando uma série de opções para adquirir a ilha. — Foto: Ritzau Scanpix/Emil Helms via Reuters