Ondas de calor mataram cerca de 120 mil brasileiros em 20 anos, aponta estudo inédito; idosos são 8 em cada 10 vítimas

Ondas de calor mataram cerca de 120 mil brasileiros em 20 anos, aponta estudo inédito; idosos são 8 em cada 10 vítimas


Silhueta de uma mulher contra o sol poente.
AP Photo/Charlie Riedel
Cerca de 120 mil mortes no Brasil podem ser atribuídas às ondas de calor que ocorreram entre 2000 e 2019 no país.
É isso o que aponta um levantamento inédito em escala nacional, que cruzou dados de calor extremo com internações e mortes registradas no SUS ao longo de duas décadas.
O estudo mostra que os efeitos das altas temperaturas sobre a saúde nem sempre aparecem de forma imediata.
Em muitos casos, o calor atua como um fator de agravamento de doenças já existentes, especialmente respiratórias e cardiovasculares, e atinge com mais força grupos mais vulneráveis, como idosos, pessoas mais pobres e com menor escolaridade.
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A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob coordenação dos projetos Ciência&Clima, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e ProAdapta, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
➡️ Segundo os autores, o trabalho é o primeiro a analisar, em todo o território nacional, a relação entre ondas de calor, internações hospitalares e mortalidade.
“Na morbidade hospitalar, exploramos diferentes desfechos de saúde, um tema ainda pouco estudado no país”, afirma Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz responsável por conduzir o estudo.
🌡️ ENTENDA: O estudo considerou onda de calor quando, por pelo menos dois dias seguidos, a temperatura média ficou entre os 5% de dias mais quentes já registrados em um determinado município, com base no clima de 1981 a 2010. Ou seja: o calor extremo foi medido em relação ao padrão de cada cidade.
Para chegar à estimativa, o estudo analisou praticamente todos os óbitos do país no período — foram 19,8 milhões de mortes por causas naturais (excluídas as chamadas causas externas, como acidentes e violência) registradas no Sistema de Informações sobre Mortalidade do DataSUS, em 5.566 municípios.
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Desse universo, 119.643 mortes foram associadas às ondas de calor. O número equivale a 0,6% do total de óbitos do período.
Pode parecer pouco em porcentagem, mas é uma conta que se acumula: dá uma média de aproximadamente 6 mil mortes por ano que, segundo o modelo, não teriam acontecido — pelo menos não naquele momento — se não fossem os picos de calor.
E há um detalhe importante na forma de ler esse dado: ele é uma estimativa populacional.
⚠️ Ainda de acordo com os autores, isso não significa que cada morte tenha sido causada apenas pelo calor, mas que houve um excesso de óbitos associado às ondas de calor.
Em muitos casos, as altas temperaturas funcionam como um fator que agrava doenças já existentes e aumenta o risco para pessoas mais vulneráveis.
Outro ponto que os autores destacam: como o estudo usou um critério relativamente conservador para definir as ondas de calor, e como erros de medição da temperatura tendem a puxar os resultados “para baixo”, é provável que os efeitos reais sejam ainda maiores do que os estimados.
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Um homem se refresca em uma fonte durante uma onda de calor no Rio de Janeiro, Brasil, em 14 de novembro de 2023.
REUTERS/Pilar Olivares
Menos internações, mais mortes por doenças cardíacas
Um dos achados do estudo ajuda a mostrar por que os efeitos do calor nem sempre aparecem de forma simples nas estatísticas de saúde.
Nas internações analisadas no SUS, entre 2010 e 2019, os pesquisadores encontraram aumento nas hospitalizações por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e por problemas do aparelho geniturinário, como insuficiência renal e infecções urinárias.
O resultado acompanha o que já se sabe sobre o efeito do calor no corpo: as altas temperaturas favorecem a desidratação, sobrecarregam os rins e podem agravar doenças respiratórias.
🫀Nas doenças cardiovasculares, porém, o padrão foi diferente. As internações caíram durante as ondas de calor na maior parte das regiões, mas as mortes por causas cardíacas aumentaram.
Segundo o estudo, uma hipótese é que, em episódios mais intensos de calor, parte desses casos evolua rapidamente para quadros graves, antes que a pessoa consiga chegar ao hospital.
Esse descompasso ajuda a explicar por que olhar apenas para as internações pode subestimar o impacto das ondas de calor na saúde.
Ao todo, as ondas de calor foram associadas a 33.858 mortes por doenças cardiovasculares e 24.225 por doenças respiratórias.
Embora o número absoluto seja maior entre as causas cardíacas, o peso proporcional do calor foi maior nas doenças respiratórias: 1% de todas as mortes respiratórias do período, contra 0,53% das cardiovasculares.
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Mortalidade total.
Arte/g1
Quem o calor atinge com mais força
O estudo mostra que os efeitos das ondas de calor não se espalham de forma igual pela população.
Eles acompanham desigualdades já conhecidas no país, como idade, escolaridade, renda, moradia e acesso a serviços de saúde. Veja os grupos mais afetados:
👵 Idosos de 65 anos ou mais: são o grupo mais atingido. Foram 97.167 mortes atribuíveis ao calor nessa faixa etária, cerca de 80% do total. A vulnerabilidade maior está ligada à menor capacidade do organismo de regular a temperatura, à presença mais frequente de doenças crônicas e ao uso de medicamentos que podem interferir na hidratação.
👩 Mulheres: o risco de morte durante ondas de calor foi maior entre mulheres do que entre homens em todas as zonas climáticas analisadas. Entre eles, o aumento do risco variou de 4% a 9%; entre elas, de 6% a 16%, dependendo da região.
🎓 Pessoas com menos escolaridade: o estudo identificou um gradiente social claro. Entre pessoas sem nenhum ano de estudo, o aumento do risco chegou a 19% em algumas zonas climáticas. Entre os mais escolarizados, com 12 anos ou mais de estudo, a alta ficou entre 1% e 7%. A escolaridade, nesse caso, funciona como um retrato indireto de renda, condições de moradia e acesso a ambientes mais protegidos do calor.
🧒 Crianças menores de 10 anos: nesse grupo, o efeito mais marcante apareceu nas internações por gastroenterite, ou diarreia, a causa infantil mais associada ao calor em todas as macrorregiões. A relação pode estar ligada à desidratação e ao maior risco de contaminação de água e alimentos em períodos mais quentes.
“Na mortalidade, identificamos um gradiente social de risco, com maior aumento percentual do risco de morte entre pessoas com menor escolaridade. Esses resultados reforçam a necessidade de direcionar ações de adaptação e proteção aos grupos mais vulneráveis”, resume Oliveira.
Já a análise por raça e cor exige cautela, segundo os próprios autores. No recorte nacional, o risco apareceu maior entre pessoas brancas, mas isso pode refletir falhas no preenchimento da informação de raça e cor em cidades menores.
Quando a análise considera apenas regiões metropolitanas, onde esse registro tende a ser mais confiável, o risco entre pessoas pretas se iguala ou supera o observado entre pessoas brancas.
Para os pesquisadores, isso indica que as desigualdades raciais diante do calor podem estar subestimadas nos dados nacionais.
Pedestres enfrentam calor e tempo seco na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo (SP), no 1º de setembro de 2024.
FÁBIO VIEIRA/FOTORUA/ESTADÃO CONTEÚDO
Norte tem ondas de calor mais longas
O estudo também mostra que as ondas de calor têm comportamentos diferentes pelo país. A análise considera não só onde faz mais calor, mas também com que frequência esses eventos ocorrem, quanto tempo duram e qual a intensidade em relação ao clima de cada região.
Os pesquisadores identificaram três perfis regionais principais:
No Norte e no Centro-Oeste, os eventos foram mais frequentes e longos — episódios persistentes, que duram dias seguidos e impõem ao corpo um estresse térmico prolongado, com impacto sobre rins e equilíbrio de líquidos.
No Sul e no Sudeste, as ondas foram menos duradouras, porém mais intensas em relação ao clima local — picos abruptos que provocam respostas agudas do organismo, como aceleração dos batimentos cardíacos, e que se associam a descompensações cardiovasculares e respiratórias.
O Nordeste ficou num meio-termo, com grande variação interna e aumento da frequência e da duração dos eventos na década de 2010.
🔥 Há ainda uma tendência de avanço: na maior parte dos municípios brasileiros, as ondas de calor ficaram mais frequentes e mais intensas ao longo das duas décadas analisadas.
A distribuição estadual das mortes acompanha de perto o tamanho da população. São Paulo concentrou o maior número absoluto de óbitos atribuíveis ao calor, com 30.813 mortes, enquanto Roraima teve o menor total, com 167.
Mas o quadro muda quando se observa a proporção de mortes associadas às ondas de calor. Nesse recorte, o Amapá aparece com os maiores percentuais em diferentes análises, com frações que chegam a 1,77% nas mortes por doenças respiratórias.
Mortalidade em idosos.
Arte/g1
Para os autores, a principal mensagem prática de todos esses achados é de que o calor extremo precisa entrar de forma mais clara no planejamento da saúde pública. O estudo lista medidas para preparar melhor o SUS diante de eventos cada vez mais frequentes:
⚠️ Alertas antecipados para população e serviços de saúde antes de períodos críticos.
📊 Integração entre clima e saúde para mapear épocas e áreas de maior risco.
👵 Foco nos mais vulneráveis, como idosos e pessoas em pior situação socioeconômica.
🏥 Monitoramento de urgências e emergências para detectar aumento da demanda antes de internações e mortes.
📝 Melhora dos registros de raça/cor e escolaridade para identificar desigualdades com mais precisão.
Para Sávio Raeder, supervisor do projeto Ciência&Clima e analista do MCTI, o trabalho é “um alerta para a urgência dos impactos na saúde humana decorrentes das ondas de calor e a necessidade de priorização de grupos sociais e territórios na busca de soluções que preservem a vida”.
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